É Dia dos Direitos Humanos. Mas, se dão as caras por aqui, são linchados

 Leonardo Sakamoto – 10/12/2016

 “Ou acordamos e decidimos agir pela dignidade humana – que vai desde o direito de ter uma fé e professá-la, até o direito de ter um teto, de não morrer de fome, de não ser escravo, de poder pensar e falar livremente, de não ser perseguido e morto pela sociedade ou pelo Estado, de não ser molestado por sua orientação sexual, identidade, origem ou cor de pele – ou passaremos as próximas décadas rangendo os dentes e fazendo músicas sobre o quão linda era liberdade que um dia conquistamos e depois deixamos escapar.” 

 O mundo, ainda em choque com os horrores da Segunda Guerra Mundial, produziu a Declaração Universal dos Direitos Humanos para tentar evitar que esses horrores se repetissem. De certa forma, com o mesmo objetivo, o Brasil, ainda olhando para as feridas de 21 anos de ditadura militar, sentou-se para escrever a Constituição Federal de 1988 – que não é um documento perfeito, longe disso. Mas, com todos seus defeitos, ousa proteger a dignidade e a liberdade de uma forma que se hoje sentássemos para formula-lo, não conseguiríamos.

É depois de grandes momentos de dor que estamos mais abertos para olhar o futuro e desejar que o sofrimento igual nunca mais se repita. Desde então, não vivemos uma guerra como aquela entre 1939 e 1945, muito menos um período de exceção quanto 1964 e 1985. Acabamos nos acostumando. E esquecendo. E banalizando.

 

E, neste sábado (10), quando a Declaração Universal dos Direitos Humanos completa 68 anos de sua adoção pela Assembleia Geral das Nações Unidas, há quem grite contra os direitos humanos. Ou peça a volta da ditadura.

Minha geração herdou esses textos – um de nossos avós e outro de nossos pais. Agora, precisamos ensinar à geração de nossos filhos sua própria história sob o risco de que o espírito presente em 1948 e 1988 se perca por desconhecimento.

O problema é que parte da geração que ajudou a escrever a Declaração Universal bem como a Constituição de 1988 se esqueceu por completo dos debates que levaram até elas, em nome do poder.

O mundo está em convulsão, com guerras, ataques terroristas, crises migratórias, catástrofes ambientais. O Brasil passa por um período sombrio, com um Palácio do Planalto castrador de direitos, o pior Congresso Nacional de todos os tempos (que está aprovando leis que retiram, à luz do dia, direitos de trabalhadores, mulheres, populações tradicionais, minorias) e um Supremo Tribunal Federal que faz política ao invés de resguardar a Justiça.

Contudo, é exatamente nestes momentos que precisamos nos lembrar da caminhada que nos trouxe até aqui. Para ter a clareza de que, mais importante do que reinventar todas as regras, é tirar do papel, pela primeira vez, a sociedade que um dia imaginamos frente aos horrores da guerra ou da ditadura. O que só se fará com muito diálogo e a garantia desse quinhão mínimo de dignidade que todos têm direito por nascerem humanos.

Diz o artigo 1o da Declaração Universal dos Direitos Humanos: ”Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade”.

Ou acordamos e decidimos agir pela dignidade humana – que vai desde o direito de ter uma fé e professá-la, até o direito de ter um teto, de não morrer de fome, de não ser escravo, de poder pensar e falar livremente, de não ser perseguido e morto pela sociedade ou pelo Estado, de não ser molestado por sua orientação sexual, identidade, origem ou cor de pele – ou passaremos as próximas décadas rangendo os dentes e fazendo músicas sobre o quão linda era liberdade que um dia conquistamos e depois deixamos escapar.

 

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