O islão e as luzes. 2

Anselmo Borges – 10/12/2016

“Reinventar a racionalidade e o sentido da história para viver melhor a fé: eis uma atitude subtil que Deus julgará de modo positivo.”

8. “Sancionar de modo mais severo os autores de crimes de honra.

Mas não basta a sanção. É preciso ir mais fundo, libertando os valores de vontade pessoal e escolha amorosa feminina. “Enquanto a mulher não tiver a possibilidade de formular escolhas amorosas independentes, não poderá ser tomada a sério.”

9. “Modernizar a lei civil e o código pessoal.”

Impõe-se um direito positivo mais conforme com o espírito do tempo, não identificado com a sharia, a lei religiosa. Sem se ser radical, “examinar o conjunto do potencial do direito islâmico, determinar a parte ainda viva, isto é, capaz de evoluir, depois adaptá-lo às novas condições de existência dos muçulmanos, afastando o que se tornou caduco. Este estudo deverá denunciar os aspectos mais retrógrados da sharia: cortar a mão ao ladrão e a língua ao mentiroso, colocar de quarentena a mulher durante a menstruação, aplicar a lei de talião, divisão injusta da herança, etc.”.

10. “Reavaliar o estatuto da mulher.”

Toda a misoginia ligada à suposta inferioridade da mulher “desfigura o islão e dá uma má imagem do terceiro monoteísmo”. “Repúdio, poligamia, casamentos forçados (e sobretudo casamentos precoces com 11 ou 13 anos), raptos de jovens raparigas, difamação das mães celibatárias e assassinatos perpetrados em nome da honra: aí estão alguns aspectos – flagrantes – da inferioridade jurídica da mulher muçulmana em relação ao homem”, fundada na sua anatomia e fisiologia, muitas vezes consideradas mais importantes do que “o seu ser profundo”. A mulher não pode ser considerada menor toda a vida.

11. “Dar à justiça os meios da sua independência.”

De facto, hoje a justiça parece não ter autonomia e independência reais.

12. “Remeter o trabalho para o coração da cidade.”

De facto, mesmo se é necessário determinar o sentido de esforço, o próprio Alcorão (53, 39) repete: “O homem não desfrutará senão dos frutos do seu esforço.” Impõe-se a luta contra a miséria e a discriminação económica.

13. “Lembrar a preeminência do indivíduo sobre a comunidade.”

Evidentemente, não está em causa o valor da comunidade. Mas o fenómeno da “fusão do sujeito no colectivo retardou, e por vezes impediu, a emergência da esfera privada, sendo o indivíduo singular o pivô desta, com as suas exigências de intimidade e expressão pessoal”. Por exemplo, há esta contradição: vestindo eles à ocidental, não têm pejo em impor o véu às suas mulheres.

14. “Lembrar o primado da política em matéria de gestão da sociedade.”

É a questão essencial da separação da religião e da política. Sem secularização, a não confundir de modo nenhum com secularismo, tal como se não pode confundir laicidade com laicismo, não se vê como se dará o salto para o progresso.

15. “Lutar contra o assassinato político mediante uma democratização dos regimes.”

16. “Fazer da liberdade de consciência e da liberdade de pensamento virtudes muçulmanas.”

Um dos aspectos mais urgentes em ordem a um novo humanismo e, no entanto, um dos mais difíceis ou até o mais difícil, porque o islão é ao mesmo tempo “um mundo profano e um universo espiritual, um Estado político e uma religião de transcendência, um código de conduta aplicável in extenso e um guia moral”.

17. “Desfazer-se do culto da personalidade”,

que serve os regimes opacos e não democráticos.

18. “Respeitar escrupulosamente o outro.”

Porquê uma mesquita em França e não uma igreja na Arábia Saudita?

19. “Levantar a hipoteca que toca o dinheiro.”

Há ou não “um contraste indecente” entre a riqueza fenomenal de alguns muçulmanos e a pobreza igualmente alucinante de outros?

20. “Sem complacência com a corrupção.”

21. “Iniciar uma política voluntarista em matéria de novas tecnologias.”

22. “Definir uma política clara no domínio da bioética”:

quanto ao preservativo, contracepção feminina, aborto, bancos de esperma, fecundação artificial, barrigas de aluguer, eutanásia…

23. “Lembrar a obrigação ecológica.”

24. “Liberalizar o som e a imagem.”

25. “”Despenalizar” o jogo e as diversões.”

Reconhecer a importância da criação artística e o contributo das actividades lúdicas para o equilíbrio.

26. “Investir no domínio da governança global.”

Impõe-se “um dever de solidariedade com o resto do planeta”.

27. “Tornar prioritário o investimento no ser humano.”

Como pretender salvaguardar a dignidade de muçulmano, “se não se respeita o homem, o vizinho, a mulher, a criança, o estrangeiro, o adepto de outra religião?”

Conclusão: “Reinventar a racionalidade e o sentido da história para viver melhor a fé: eis uma atitude subtil que Deus julgará de modo positivo.”

Todas estas propostas valem também, digo eu, para a Igreja Católica e todos os crentes. É falsa toda a religião que se opõe à dignidade e aos direitos humanos. A religião verdadeira é a favor da promoção humana, da sua dignidade inviolável e dos seus direitos. Por palavras e por obras.

Anselmo Borges 

Fonte: http://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/anselmo-borges/interior/o-islao-e-as-luzes-2-5544108.html

 

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