A recepção de “Amoris Laetitia “: As dúvidas dos Cardeais e a afirmação do prefeito

Andrea Grillo – 05/12/  2016alcjc02

“Uma ideia estática de tradição é o problema subjacente, seja à carta dos 4 cardeais, seja  ao comentário do Cardeal Prefeito card. Muller sobre a Exortação Amoris Laetitia do Papa Francisco.

A dinâmica introduzida pelo Papa Francisco – não sozinho, mas com base no amplo debate sinodal – é o desbloqueio de um endurecimento recente e nada clássico”.

Nos últimos dias, duas intervenções diferentes, mas ambas muito significativas, permitiram compreender melhor a fase da “recepção” de Amoris Laetitia. 

Por um lado, lemos uma entrevista (referida pela Rádio Vaticano*) na qual o Cardeal Prefeito G. L. Mueller expressa algumas ideias sobre AL e sobre as dúvidas dos quatro cardeais, entrevista da qual é útil falar com uma breve reflexão de esclarecimento.

Por outro lado um bom teólogo como Pietro Cantoni escreveu um precioso comentário à AL – e em especial ao capítulo VIII (**) – que lança luz sobre os espaços de recepção iluminada e longividente que esperam a pastoral  familiar e eclesial dos próximos anos.

  • Tento apresentar antes de tudo a posição expressa pelo cardeal Mueller
  • e responder a ela também através do comentário do prof. Cantoni.

Antes de fazer a apresentação destas posições quero, no entanto, antecipar uma bela conclusão que tiro já do brilhante texto de Cantoni. Ele observa com acuidade, concluindo o seu raciocínio:

“O contra-revolucionário deve ficar atento para  não cair na que pode ser definida como a sua “doença infantil”: o extremismo. Não se é mais contra-revolucionário do que outros

  • por transformar tudo em dogma
  • ou por ser favorável a um rigorismo cada vez mais radical.

Os dogmas fundamentais da nossa fé são os doze artigos do Credo. Os mandamentos são dez, não onze ou doze, e nem mesmo nove. O entusiasmo do contra-revolucionário está na sua disponibilidade para  lutar pela verdade e pela santidade. O seu “exagero” está na vertente da fé, da esperança e do amor, para os quais não há um “demais”. Nem mesmo o minimalismo na leitura do magistério deve conquistá-lo”.

Como veremos, é exatamente neste “exagero contra-revolucionário” – ou de resistência a qualquer reforma –  que está um aspecto muito delicado da recepção da AL.

 

 a) A “pretensão contra-revolucionária” do Card. Mueller

Um site da internet, bem informado, refere com precisão a expressão usada pelo Cardeal Prefeito não tanto em relação à carta dos 4 cardeais – sobre a qual de per si não se pronuncia –  mas quanto ao seu conteúdo:

“o purpurado respondeu que” este documento [Amoris laetitia, ndr] não deve ser interpretado de forma tal que indique que as declarações anteriores dos papas e da Congregação da Doutrina da Fé já não são válidas”. Depois, de forma explícita, o cardeal referiu-se à resposta oficial que a Doutrina da fé deu, em 1994, a 3 bispos alemães (Kasper, Lehman e Saier) que em uma carta pastoral anunciavam a permissão de acesso à Eucaristia pelos divorciados recasados. Essa carta, assinada pelo então prefeito Cardeal Joseph Ratzinger, estigmatizava claramente a ‘fuga para a frente’ dos três bispos”.

Uma primeira observação surge de imediato:

é estranho que, diante do texto da AL (2016), o Prefeito cite uma resposta oficial de 1994, que no entanto não podia levar em conta a AL, mas apenas o texto da Familiaris Consortio. Esta defasagem temporal é muito mais significativa do que pode parecer.

b) Uma posição surpreendente, mas não muito

A surpresa que surge diante da posição expressada por Mueller é dupla:

– por um lado, ele fala como se houvesse uma regra que prevê que um documento do magistério, expressão do Sínodo dos Bispos, e tornada própria por um papa nos termos de uma Exortação Apostólica, possa falar apenas dentro do espaço concedido pelos documentos anteriores. Sobre este ponto Mueller talvez devesse ter duvidado antes de fazer esta declaração. Os quatro cardeais têm dúvidas sobre o que está claro, mas um quinto cardeal não tem dúvidas sobre o que de modo algum está claro.

Ao contrário, parece-me francamente infundado afirmar que uma Exortação Apostólica esteja vinculada por uma Exortação Apostólica anterior.

  • Como Familiaris Consortio inovou em relação à disciplina anterior,
  • também Amoris Laetitia pode inovar em relação à disciplina de Familiaris Consortio. É isto que diz não só a tradição magisterial da Igreja, mas também a simples lógica comum.

– Por outro lado, há aqui uma condição muito delicada do Prefeito, que preside a congregação que deve cuidar para que as dúvidas infundadas sejam superadas, e ao contrário as dúvidas fundamentadas sejam reconhecidas e assumidas. É surpreendente que o cardeal Mueller enuncie um princípio totalmente arbitrário, segundo o qual uma nova Exortação Apostólica seria estruturalmente e necessariamente obrigada a manter válidas as disciplinas do magistério anterior.

No entanto, a surpresa não diminui se se considera que para resolver o embaraço se retorna a 1994. É preciso admitir que a posição expressa pela Congregação em 1994 está inevitavelmente superada exatamente pela evolução da disciplina trazida pela AL. O princípio expresso pelo Cardeal Prefeito, tomado na sua rigidez, anularia qualquer mudança do magistério da Igreja, e não conseguiria explicar não só a AL, mas toda a evolução do magistério eclesial, do século IV em diante.

Isso parece corresponder a uma “estratégia de imunização da autoridade”, que se difundiu no corpo da Igreja a partir da década de 80 do século passado e que se mostra cômoda para a “conservação extrema” a respeito da exigência de reforma que o Concílio Vaticano II tinha introduzido no corpo eclesial. Para receber a reforma é preciso reconhecer que se tem esse poder. Se a Igreja se despoja de toda autoridade, fica bloqueada nas normas recebidas do passado, sem qualquer possibilidade de mudança.

Hoje se gostaria de aplicar à AL o que já foi utilizado em muitos outros casos precedentes (sobre o ministério diaconal, sobre o ministério feminino, sobre a unção dos enfermos, sobre a reforma do missal, sobre a tradução em língua vulgar…). Se qualquer novo documento está vinculado à validade indiscutível dos anteriores, a Igreja não tem história.

Se há uma “história da salvação” é porque o desenvolvimento histórico é capaz de processar releituras da tradição que podem encontrar novos caminhos de realização do evangelho que reduzem ou superam a validade de caminhos anteriores. Se os bispos pré-tridentinos eram frequentemente não residentes, e o Concílio de Trento exigiu a sua residência na diocese da qual eram titulares, isso não aconteceu com a preocupação de que continuasse a ser válido o que antes era observado e realizado…

 

c) A pacata consideração do prof. Don Pietro Cantoni

Nos mesmos dias em que lemos esta entrevista, a surpresa que tivemos ao ler os escritos e as palavras dos cardeais foi mitigada graças à “fides quaerens intellectum”  (a fé à procura do entendimento – NdR) expressada com particular lucidez pelo teólogo Pietro Cantoni. Recomendando a leitura de todo o seu texto, que é documento de pacata e exigente reflexão teológica, gostaria de sublinhar apenas alguns decisivos aspectos dele:

– Alguma coisa mudou e é necessária uma abordagem “crítica” à tradição:

“Reformar quer dizer mudar. Não mudar tudo, passando de uma coisa para outra totalmente diferente, porque isso seria uma ruptura, mas certamente desenvolvendo. ‘É precisamente nesta mistura de continuidade e descontinuidade em níveis diferentes que consiste a natureza da verdadeira reforma’. Quando há uma reforma há uma ‘combinação de continuidade e descontinuidade’”.

– Depois de identificar na “confissão” o lugar da solução “nova” e depois de ter passado em revista os limites das soluções clássicas (nulidade, abstinência, morte moral), Cantoni escreve:

“O Papa, a esta altura abre um novo caminho: o de abster-se de considerar como uma obrigação taxativa a separação da pessoa com quem se compartilha uma segunda união, porque poderia resultar concretamente na solução de um mal com outro mal”.

– A isto acrescenta, com muita clareza:

“uma pessoa ligada a um matrimônio canonicamente válido que tenha contraído uma nova união na qual tenha havido filhos. Suponhamos o caso em que a ruptura anterior seja culpável: deste pecado pode ser perdoado. Agora continua na união irregular pelo bem dos filhos. Este fato não é subjetivamente pecaminoso, continua sendo tal apenas objetivamente.

Embora a questão seja debatida entre os teólogos e canonistas, pode-se sustentar – esta era a posição do grande teólogo Melchior Cano (1509-1560) – que um casamento puramente civil contraído entre batizados, se por um lado não coincide de modo absoluto com o sacramento, por outro não é um simples concubinato. Aconselhar a um divorciado recasado, que já tem na sua consciência o rompimento de uma união, a quebrar também a nova união ou a vivê-la “como irmão e irmã”, nem sempre se revela um bom conselho”.

– Com ainda maior clareza, analisando a posição do Concílio de Trento sobre o casamento, Cantoni diz:

“Que o sacramento do matrimônio seja indissolúvel é uma verdade de fé, mas que concretamente não possam ocorrer situações em que uma nova união não possa ser tolerada não o é”.

– Depois de ter considerado seja o nível de autoridade seja o nível de “missionaridade” da Exortação, ele conclui:

“O contra-revolucionário deve ficar atento para não  cair na que pode ser definida como a sua” doença infantil”: o extremismo. Não se é mais contra-revolucionário do que outros porque se transforma tudo em dogma ou porque se é a favor de um rigorismo sempre mais radical. Os dogmas fundamentais da nossa fé são os doze artigos do Credo. Os mandamentos são dez, não onze ou doze anos, e nem mesmo nove”.

As sábias palavras do teólogo soam muito longe do rígido “extremismo contra-revolucionário”, para o qual parece inclinar-se não só a carta dos 4 cardeais, mas também uma parte da entrevista do cardeal Mueller.

 

d) A tradição é uma lâmpada

Permitam-me concluir com uma frase, que tem circulado nestes dias na “web” e que se mostra particularmente adequada ao complexo processo da recepção da AL. Essa frase interpreta a “tradição” com a imagem de uma lâmpada e soa assim:

“Tradition is a lantern. The fool will hold on to it and the clever will let it lead the way” (G. B. Shaw).

“A tradição é uma lanterna: o tolo agarra-se a ela, e o sábio deixa-se guiar ao longo do caminho”.

Uma ideia estática de tradição é o problema subjacente seja à carta dos 4 cardeais seja  ao comentário do Cardeal Prefeito. A dinâmica introduzida pelo Papa Francisco – não sozinho, mas com base no amplo debate sinodal – é o desbloqueio de um endurecimento recente e nada clássico.

Ele remonta à reação de desconfiança

  • primeiro em relação ao mundo tardomoderno – entre os séculos XIX e XX –
  • e depois em relação ao Concílio Vaticano II.

A recepção da AL implica portanto a superação de um conceito estático de tradição: em outras palavras, daquela “heresia moderna” que se chama tradicionalismo. Amoris Laetitia realiza um ato de tradução da tradição: de uma maneira tradicional e claramente não-tradicionalista.

 

Referências: 

* Card. Müller su lettera 4 cardinali: no a polarizzazioni

http://it.radiovaticana.va/news/2016/12/02/intervista_al_card_m%C3%BCller_sulla_lettera_di_4_cardinali/1276440

 ** Riflessioni a proposito dell’esortazione apostolica post-sinodale «Amoris laetitia» di Papa Francesco

http://alleanzacattolica.org/riflessioni-a-proposito-dellesortazione-apostolica-post-sinodale-amoris-laetitia-di-papa-francesco/

 

 

 

Andrea Grillo

http://www.cittadellaeditrice.com/munera/la-recezione-di-amoris-laetitia-7-i-dubbi-dei-cardinali-e-la-pretesa-del-prefetto/

 

 

 

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