“Padre Olivier-Thomas Venard, O. P. : «A Bíblia mais que um livro, é uma biblioteca, coletânea de mil anos de escrita»

1. Notícia do Osservatore Rome – 2. Entrevista do Le Figaro

Alessandro Bonvicino  «Il profeta Osea»  (1521-24)

Uma revolução na história da literatura

Osservatore Romano – 01 de dezembro de 2016

Na Foto: Alessandro Bonvicino “O profeta Oséias” (1521-1524)

Está para vir à luz na França um novo programa de edição on-line dos textos bíblicos. O projeto – chamado ‘La Bible en ses traditions’ (A Bíblia nas suas tradições) e sugestivamente abreviado Best – prevê a publicação das versões hebraica, aramaica, grega e latina da Sagrada Escritura “sem privilegiar uma ou outra em nome de um muitas vezes discutível ‘autenticidade’ “. 

Em suma, uma moderna Bíblia poliglota, com a adição de notas sobre o texto e sobre a recepção nas diferentes tradições religiosas e culturais, de modo a torná-la acessível a todos. É o que anuncia em entrevista publicada no “Le Figaro”, com o jornalista e historiador Michel De Jaeghere,  o coordenador do trabalho, o dominicano Olivier-Thomas Venard, doutor em teologia e em letras, professor de Novo Testamento e vice-diretor da ‘École biblique et archéologique française de Jérusalem’, promotora do projecto Best.

Na entrevista Venard define o empreendimento como “revolucionário” e desmistifica persistentes lugares comuns sobre a Escritura. No dia 7 de dezembro próximo, em Paris, o religioso apresentará em pré-estreia os trabalhos em andamento junto com o ator Michael Lonsdale, que lerá várias passagens da Bíblia. in: http://www.osservatoreromano.va/it/news/quella-rivoluzione-nella-storia-della-letteratura


2. Padre Olivier-Thomas Venard: “A Bíblia mais que um livro é uma biblioteca, coletânea de mil anos de escrita”

Le père Vénard présentera les grandes lignes de son projet révolutionnaire en compagnie de Michael Lonsdale, qui lira des textes emblématiques tirés des Écritures.

Por Michel De Jaeghere – Publicado em 23/10/2016 – Atualizado em 06/11/2016

Tradução: Orlando Almeida

Foto: DR

FIGAROVOX/GRANDE ENTREVISTA – Olivier-Thomas Venard, com uma equipe de 200 pesquisadores do mundo inteiro, vai colocar on-line uma edição revisada, anotada e contextualizada da Bíblia, reunindo as versões hebraica, grega, aramaica e latina da Sagrada Escritura.

 Ex-aluno da ‘École Normale’, professor de Letras, doutor em Teologia e Letras, religioso dominicano, o padre Olivier-Thomas Venard é professor de Novo Testamento e vice-diretor da ‘École biblique et archéologique de Jérusalem’, fundada em 1890 pelo padre Lagrange para  “estudar a Biblia na terra” onde ela nasceu.

Ele agora está liderando um ambicioso projeto informático, ‘La Bible em ses traditions’ (Best). Trata-se de colocar on-line uma edição revisada da Bíblia, reunindoas versões hebraica, grega, aramaica e latina Sagrada Escritura e oferecendo uma anotação de texto, do contexto e da sua recepção nas diferentes tradições religiosas e culturais.

Em companhia de Michael Lonsdale, que lerá grandes textos da Bíblia, o padre Vénard apresentará as grandes linhas deste projeto revolucionário, no dia 7 de dezembro, em pré-estreia, numa grande conferência de Figaro – Salle Gaveau.

 VEJA A ENTREVISTA

 

LE FIGARO. – O senhor lança em dezembro um ambicioso programa de edição do texto bíblico na internet. Em que consiste?

Todas as Bíblias atualmente disponíveis apresentam um texto que é paradoxalmente artificial: é na prática uma reconstituição do texto “original” feita por estudiosos. O problema é que o original é inencontrável e, em certos casos, talvez nunca tenha existido.

De fato a Bíblia não é um livro mas uma biblioteca, que reuniu progressivamente livros

  • escritos,
  • editados
  • e remodelados,
  • em duas ou três línguas,
  • durante aproximadamente um milênio.

Apreendidas na história real, as Escrituras mostram-se portanto de imediato como diversas.

Assim como os cristãos têm quatro Evangelhos que contam a mesma história mas com numerosas diferenças entre eles, assim também cerca de um terço do Antigo Testamento se nos apresenta em diversas versões:

  • em hebraico,
  • em grego,
  • em latim,
  • em siríaco,

elas mesmas por sua vez diversificadas, sem que se possa dar prioridade absoluta ou sistemática a uma delas.

Ora, este não é um defeito a ser corrigido, mas uma riqueza! Como constata o autor do Salmo 62: “Deus disse uma coisa, eu ouvi duas”: quando o verdadeiro Deus fala aos homens na linguagem deles, a sua palavra produz imediatamente a pluralidade. O nosso projeto consiste em colocar on-line as diferentes versões do texto sem privilegiar uma ou outra em nome de uma muitas vezes discutível “autenticidade”.

Em primeiro lugar, porque os textos provenientes de manuscritos mais recentes que outros podem ter retomado tradições mais antigas: por exemplo, São Jerônimo compôs a Vulgata no século V depois de Cristo a partir do texto grego da versão dos Setenta, que pode remontar ao século III antes de Cristo, mas traduzindo também manuscritos hebraicos disponíveis na sua época e hoje perdidos.

Bíblia Poliglota Complutense

Página poliglota da Bíblia Complutense: grego, latim e hebraico. Imagem da internet

Depois, porque a antiguidade não é necessariamente um critério: é preciso abandonar a imagem infantil de uma Bíblia “ditada” por Deus ao escritor sagrado segundo o modelo de Jibril [o anjo Gabriel] ditando o Corão a Maomé. A inspiração divina das Escrituras passa pela humanidade de seus múltiplos autores e redatores e acompanha a sua longa elaboração na Bíblia, aí incluído o trabalho dos escribas tradutores ou copistas!

O nosso modelo de tradução apresentará esta riqueza oferecendo ao leitor numa mesma página as diferentes versões. Em resumo: vocês não terão que contentar-se com ouvir a Bíblia em mono, vocês a terão em estéreo; a Palavra de Deus não é uma simples melodia, é uma polifonia!

Por fim, e isso não é problema nenhum, vamos oferecer gratuitamente esta tradução – porque é um escândalo do mundo francófono que as bíblias católicas modernas sejam antes de tudo objetos de comércio. Nenhuma tem acesso livre!

 

O caráter ilimitado da internet permite a vocês multiplicar também o trabalho de anotação…

Nas suas notas muito históricas, a maior parte das Bíblias disponíveis procura explicar o mundo de antes do texto, aquele que de alguma maneira produziu os textos. Nós queremos completá-las com notas sobre o mundo após o texto, o mundo que o texto influenciou, ou mesmo fez nascer!

É o que se chama história da recepção: nós não somos os primeiros a ler as Escrituras e, estejamos ou não conscientes disso, a nossa leitura nunca é ingênua e está sempre cheia de imagens, de interpretações desses textos que povoam a nossa memória, individual e coletiva.

Portanto, para entender bem uma narrativa bíblica, vale a pena tomar consciência dela, e descobrir

  • não só de que maneira os religiosos judeus e cristãos a comentaram no decorrer dos séculos,
  • mas também de que maneira os autores literários foram inspirados por ela,
  • como os pintores a representaram,
  • como os músicos a puseram em música,
  • os cineastas em filmes, etc.

Portanto é preciso estudar também

  • as pinturas de Fra Angelico,
  • o Nabucco de Verdi
  • ou Os Dez Mandamentos de Cecil B. De Mille!

O trabalho em andamento será colocado on-line em dezembro no site http://scroll.bibletraditions.org

Modestamente! Porque vai levar anos para tratar a Bíblia toda segundo este modelo. Por isso, ao compartilhar os nossos primeiros resultados, convidaremos os nossos leitores a melhorá-los e enriquecê-los continuamente: em qualquer momento da sua leitura eles poderão enviar-nos e-mails para propor correções, enriquecimentos…

O vosso sistema de anotações mostra os prolongamentos que o texto bíblico nunca deixou de ter em todas os domínios  da cultura, da pintura à literatura, da ópera à dança. Deixando de lado a dimensão propriamente espiritual, como o senhor explica a incrível fecundidade das histórias que ele conta?

Devido à própria maneira como foram elaboradas, as Escrituras reuniram uma fabulosa concentração de milênios de sabedoria humana desenvolvida em civilizações tão prestigiosas como a suméria, a babilônica, a egípcia.

Todas hibridadas pelos antigos escritores hebreus, que “filtraram” de alguma forma as religiões dos povos que os rodeavam, conservando os seus tesouros de sabedoria humana e ao mesmo tempo criticando suas falsas concepções do divino e do sagrado. E depois, no centro da Bíblia cristã há aquela maravilha que é a Encarnação: Deus ama tanto o homem que se aproxima dele a ponto de se tornar um de nós.

Que se acredite ou não, é forçoso constatar que tal crença produziu o que o próprio grande crítico marxista Erich Auerbach definiu como uma verdadeira revolução na história da literatura. Desde então, o que há de mais nobre, de mais profundo, de mais perturbador, não estaria mais reservado aos reis e rainhas nos seus palácios, mas tornar-se-ia acessível a qualquer um!

Se se acredita que o próprio Deus tomou carne e sangue de uma jovem como Maria de Nazaré, então toda a pessoa humana assume, desde a sua origem, um valor inigualável: os traços individuais que fascinam os pintores, a história insubstituível de cada um que inspira os escritores, nada disto existiria sem esse novo estatuto que a revelação cristã deu a todas as pessoas.

 

O Antigo Testamento não apresenta um Deus vingativo, ciumento, que multiplica os apelos à violência e que, portanto, parece um pouco primitivo para a nossa mentalidade moderna?

Peço perdão por ser um pouco duro, mas parece-me que o que é “primitivo” é a bendita ignorância das Escrituras na qual nós modernos nos comprazemos! Deter-se no Deus irritado ou vingativo dos oradores do Grande Século, ou no Adonai Sabaoth dos românticos como Victor Hugo, é uma caricatura, porque o Antigo Testamento também apresenta

  • um Deus que sofre,
  • que diz ao seu povo infiel, por exemplo “com teus pecados tu me reduziste à escravidão “(Isaías 43, 24),
  • ou até mesmo um Deus quase piegas por ser o “pai indulgente”, por exemplo, em Oséias, um dos antigos profetas da Bíblia, do século VIII antes da era cristã, para a qual Deus é terno “como um pai que ergue  seu bebê até à sua face e lhe dá comida” (11, 4).

Dito isto, o problema da violência na Bíblia põe-se de forma bem real.  Desde que lançámos o nosso programa de retradução e de anotação da Bíblia, recebemos regularmente as cartas comoventes de um senhor bem idoso, grande leitor da Bíblia, que  do seu quarto de hospital, chocado por tantas passagens violentas nos pede para “desminá-las”.

Um modo de fazer isso é ter em conta o desenvolvimento progressivo da revelação. Os homens a quem Deus começa a falar tinham chegado a praticar a vingança cega. Reduzí-la através da famosa lei de talião já era uma espécie de progresso: “olho por olho, dente por dente” já é melhor do que “tu me roubaste um bem, vou massacrar todos os teus”.

Evidentemente a misericórdia e o perdão são ainda melhores do que o exercício, ainda que comedido, da violência, mas trata-se aí de uma imitação da paciência de Deusnão retribuais o mal com o mal, sede misericordiosos como vosso Pai celeste é misericordioso – que leva tempo para se aprender.

Das páginas mais selvagens do Antigo Testamento, até ao “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” de Cristo na cruz orando por seus algozes, as Escrituras, inspiradas por um Deus infinitamente compassivo, podem acompanhar cada um no caminho do controle da violência…

 

A lei de Moisés não é talvez tão pesada para suportar quanto as prescrições do Corão?

Não é esta absolutamente a minha experiência. Em todo o caso não é a do judaísmo rabínico que nós amamos, em que a Torá é tudo menos um livro fixo a ser imposto à força a todos, mas um detonador de interpretações, de questionamentos quase infinitos… um catalisador de inteligência prática!

 

Os cristãos não foram, no passado, tentados muitas vezes a espalhar a sua fé pela espada?

Quando o fizeram, foi contra os seus próprios textos sagrados, portanto não como cristãos, mas como ímpios e pecadores. Na aurora do terceiro milênio, o santo papa João Paulo II, teve motivo para pedir perdão por essas traições da mensagem do Evangelho.

 

O Jesus que os Evangelhos apresentam é um reflexo dos relatos de testemunhas oculares ou antes a expressão da fé de comunidades de crentes?

Os Evangelhos são baseados em testemunhos e transmitem fatos históricos firmes, para além da elaboração literária que os caracteriza. Os exegetas encontraram em todo o Novo Testamento a existência de uma “tradição isolada” a respeito de Jesus: um conjunto de narrativas e palavras que lhe são atribuídas, que foram transmitidas fielmente sem modificações ou adições.

Por exemplo, quando a questão de circuncidar ou não os filhos dos novos crentes vindos do mundo não judeu agitava as primeiras comunidades, não se permitiu que se inventasse uma afirmação clara de Jesus sobre a questão! Ou ainda, quando nos evangelhos de João ou de Lucas, se venera Jesus como Verbo, não lhe é atribuída palavra alguma em que ele próprio se designaria claramente como tal.

Mas – é óbvio – para transmitir de maneira viva esta memória de Jesus, ela foi desde o início adaptada aos auditórios aos quais se queria comunicá-la. Por outro lado, os próprios Evangelhos, o de Lucas por exemplo, em suas primeiras linhas, descrevem o seu trabalho: seleção, verificação, organização… Mas tudo isso é feito dentro de limites que parecem bem refletidos pelas diferenças entre os quatro Evangelhos canônicos.

 

O cristianismo não sofre pelo fato de ser uma religião do livro e, portanto, ligada aos condicionamentos dos que redigiram os seus textos com os preconceitos, as concepções do seu tempo?

Atenção! O cristianismo “não” é uma religião do livro, embora seja uma religião “com” livro. A expressão “religião do livro” faz parte do discurso islâmico, que geralmente não deixa nem o judaísmo nem o cristianismo definir-se por si mesmos e redefine-os nos  seus próprios termos. A fórmula fácil “religião do livro” não pertence ao patrimônio cristão e a menos, é claro, que se esteja convencido por si mesmo da veracidade do Islão, deve-se recusá-la.

Para nós, católicos, em qualquer caso, a Escritura tem o estatuto de pró-memória. De pró-memória sagrado, talvez, que se abraça, que se incensa, na liturgia, mas de pró-memória. Para dizê-lo de forma simples: não acredito que Cristo ressuscitou porque está escrito no livro, mas isso foi escrito porque no começo algumas testemunhas contaram do seu encontro com ele e porque se quis deixar uma memória disso!

Para o cristianismo o centro não é um livro, mas a pessoa de Jesus Cristo: Deus que veio na carne para se manifestar, dotando-se de cordas vocais, de pulmões, de uma boca, de um corpo inteiro para falar, com palavras e com atos, e transmitir uma mensagem vital, crucial aos homens. E a transmissão viva e contínua da sua revelação, que chamamos a tradição, irrigada constantemente pelo rio das Escrituras.

 

Michel De Jaeghere

historiador, Membro do Mon Figaro, Diretor da redação do Figaro Histoire e do Figaro Hors-Série

http://www.lefigaro.fr/vox/societe/2016/10/23/31003-20161023ARTFIG00162-pere-olivier-thomas-venard-la-bible-est-moins-un-livre-qu-une-bibliotheque-recueil-de-mille-ans-d-ecriture.php

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