Esses deputados que votam o que querem, de madrugada, de costas para um povo de luto

 As dez medidas contra a corrupção, nas quais as pessoas depositavam tantas esperanças para purificar a política, foram deformadas

 Juan Arias – 30 NOV 2016Pacote anticorrupção passa sem anistia ao caixa 2, mas com punição a juízes

 Foto: O plenário da Câmara nesta terça-feira

“A votação desta madrugada no Congresso, considerada nas redes sociais como uma “bofetada nas pessoas”, terá agora que ser ratificada pelo Senado. Será outro teste para avaliar o grau de respeito que o Senado da República manifestará pela opinião pública.

A última palavra terá o presidente Temer, se também o Senado ratificar o texto, já que ele tem poder de veto. Será outro teste importante para saber se é verdade, como disse Temer dias atrás, dirigindo-se à nação, que antes de mais nada os governantes precisam “escutar a voz da rua”.

 

Estava quase amanhecendo (eram 4h19) quando a maioria dos deputados do Brasil, escolhidos pela sociedade nas urnas, aprovou o pacote com dez medidas contra a corrupção, apoiado por dois milhões de assinaturas, desfigurando-o a tal ponto que quase nada restou do texto original.

 Não só o documento ficou aguado e quase irreconhecível como também foi introduzida, na surdina, uma medida polêmica neste momento em que a Lava Jato está processando políticos e empresários acusados de corrupção: castigos a juízes e procuradores, incluindo a prisão, por crimes de abuso de responsabilidade.

Uma medida que em si parece justa, já que nenhuma instituição está acima da lei, mas que neste momento, e aprovada na calada da noite, e com dezenas de deputados investigados por corrupção, soa a provocação.

Não é a primeira vez que a Câmara dos Deputados aproveita um momento de distração da sociedade e, sempre a altas horas da noite, para aprovar medidas polêmicas, invariavelmente em benefício próprio e sem dar tempo para que a sociedade, à qual devem responder, possa reagir.

A impressão que oferecem é que, uma vez votados nas urnas, os congressistas adquirem uma espécie de onipotência que lhes permite atuar como se não devessem prestar contas a quem os colocou ali.

Tudo isso faz com que a opinião pública brasileira demonstre a cada dia uma distância maior dos seus governantes, criando um fosso entre ambos.

Que a política está doente e que sofre neste momento uma forte crise de aceitação popular é algo que já foi dito até pelo presidente do Senado, Renan Calheiros, para quem o atual modelo é “patético e fracassado”. O que ocorre é que ele mesmo é alvo de 11 processos de suposta corrupção perante o Supremo Tribunal Federal.

 

Marcha (espontânea e apolítica!) contra Corrupção na Esplanada dos Ministérios em Brasília. 7/9/11. Foto: Cadu Gomes // Fonte: @LidPSDBsenado

 

A votação desta madrugada no Congresso, considerada nas redes sociais como uma “bofetada nas pessoas”, terá agora que ser ratificada pelo Senado. Será outro teste para avaliar o grau de respeito que o Senado da República manifestará pela opinião pública.

A última palavra terá o presidente Temer, se também o Senado ratificar o texto, já que ele tem poder de veto. Será outro teste importante para saber se é verdade, como disse Temer dias atrás, dirigindo-se à nação, que antes de mais nada os governantes precisam “escutar a voz da rua”.

 

“Só acredita que crime organizado é coisa de favela quem não conhece o Congresso brasileiro…”

 

A sociedade, nesta manhã, despertou incrédula ao saber que as dez medidas contra a corrupção, nas quais depositava tantas esperanças para purificar a política, morreram na praia.

Os analistas comentam que o ocorrido no Congresso demonstra com força a necessidade urgente de uma reforma política que ninguém ainda se atreveu a fazer.

Uma reforma que seja capaz de devolver à sociedade a confiança em seus governantes, já que ninguém oculta, pelo menos na teoria, que fora da política a democracia se debilita dando lugar a perigosas experiências autoritárias.

Juan Arias

Juán Arias

MAIS INFORMAÇÕES

Leave a Reply

You can use these HTML tags

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>