A penitência católica pela eleição de Trump: «52% dos católicos votaram Trump (contra 45% que escolheu Hillary).»

António Marujo, 25 de novembro de 2016
Deve a Igreja Católica, nomeadamente nos Estados Unidos, penitenciar-se também pela eleição do novo presidente?
Há dias, o Papa Francisco gravou uma mensagem aos bispos dos EUA, por ocasião da sua assembleia plenária, dizendo-lhes que o grande desafio do catolicismo “é criar uma cultura do encontro, que encoraje os indivíduos e os grupos a compartilhar a riqueza das suas tradições e experiências, a abater muros e a construir pontes”.
A mensagem do Papa sobre o tema tem sido clara em diversas ocasiões. Em Fevereiro, no regresso da viagem ao México, inquirido sobre as intenções de Trump em construir um muro para evitar a entrada de emigrantes, Francisco afirmou mesmo: “Uma pessoa que só pensa em fazer muros, onde quer que seja, e não em fazer pontes, não é cristã. Isto não está no Evangelho.”

Apesar dos alertas do Papa, as sondagens pós-eleitorais dizem (segundo esta notícia do La Croix: Pourquoi les chrétiens ont voté majoritairement Trump) que 52% dos católicos votaram Trump (contra 45% que escolheu Hillary). O mesmo aconteceu, em maior escala, se juntarmos todos os grupos cristãos (evangélicos, protestantes, mórmones e outros), entre os quais o candidato republicano foi a escolha maioritária.

Nas suas escolhas políticas, uma boa parte dos católicos, como de outros cidadãos, fundamenta-se num ou dois conceitos ou medos e adopta-os sem cuidar das consequências.

Na Europa e nos EUA, o populismo de extrema-direita tem vindo a ganhar terreno e votos com os argumentos

  • da “segurança” contra os imigrantes,
  • do nacionalismo contra a cooperação,
  • do proteccionismo contra o desemprego,
  • do conflito e da guerra contra o diálogo e a paz…

No caso católico, uma das obsessões chama-se aborto. Para uma parte dos católicos, tudo o que não seja condenar à prisão quem faz um aborto é mau – e o tema decide outras escolhas, incluindo o apoio político a quem se afirma nessa linha, como era o caso de Trump. Mesmo que, a seguir, os mesmos que se afirmam “pró-vida” na política maltratem a vida de tantos homens e mulheres nas suas empresas, no seu país, pelo mundo fora…

Depois, esse discurso católico refugia-se no argumento de que não pode tomar partido (mesmo se, em outras questões, a Igreja é rápida a tomar partido). Foi o caso dos bispos dos EUA que publicaram, em Agosto, um documento no qual afirmavam que a Igreja não poderia apoiar nenhum dos candidatos, porque a causa da Igreja “é a da defesa da vida e da dignidade humana e a protecção dos fracos e dos vulneráveis”.

Como princípio, isso é incontestável. Mas não se podem escamotear as consequências da aplicação do princípio ao caso concreto: ao contrário de outras eleições, em que as questões se joga(va)m entre políticas diferentes no campo democrático, desta vez estavam (estão) em causa questões essenciais e decisivas para

  • a “defesa da vida e da dignidade humana
  • e a protecção dos mais fracos e dos vulneráveis”:
  • seja na ameaça ao futuro do planeta
  • seja na lógica proteccionista e belicista do discurso de Trump,
  • seja no acolhimento aos imigrantes (como nasceram e cresceram os Estados Unidos senão com imigrantes, muitos deles ilegais?…)

É lamentável, aliás, que muitos católicos (e cristãos) dos EUA não tenham entendido essas questões decisivas (para as quais o Papa tanto tem chamado a atenção). Como também não quiseram saber do impressionante currículo católico do candidato de Hillary a vice-presidente: Tim Kaine chegou a ser, entre outras coisas, missionário nas Honduras com os jesuítas e era favorável ao controlo de armas e ao fim da pena de morte – duas outras questões centrais da sociedade norte–americana no que diz respeito à dignidade da vida humana. Kaine tinha um problema, claro (como Clinton): admitia que o problema do aborto não se resolve condenando mulheres, mas procurando as causas e tentando enfrentá-las.

A mesma Hillary ajudara, por exemplo, Madre Teresa de Calcutá a abrir em Washington uma casa para crianças destinadas à adopção, apesar de, como a própria contava (Notícias Magazine, 12/11/1995) as duas terem ideias diferentes sobre o aborto.

Não me sossega, sequer, a ideia agora tão repetida de que o futuro presidente fará diferente do que foi o candidato. O abismo de que as nossas sociedades se vão aproximando ficou vários passos mais perto (veremos o que se passará em França…). E ele será inevitável, se continuarmos a não contrariar os cenários de há um século e de há 80 anos, que levaram às duas grandes guerras, afastando a política dos eleitores,

  • destruindo o Estado social,
  • humilhando povos inteiros
  • ou colocando-os uns contra os outros
  • e minando a confiança dos cidadãos nas instituições.

Não por acaso, o Papa repetiu já, por diversas vezes, que estamos a viver uma terceira guerra mundial aos bocados…

 É esse entendimento de que se pode ser “neutral” quando estão em jogo questões decisivas para a humanidade que me parece um erro grave, pelo qual muitos católicos deveriam penitenciar-se. Até porque, como se viu, a “neutralidade” acaba por favorecer quem se propõe criar mais muros e abater as pontes que nos podem levar ao futuro…

(Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.)

 

António Marujo

 

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