Eis o hambúrguer vegetal que vai salvar o mundo

Marco Magrini – 17/11/2016

Procuram-se soluções alternativas para o impacto ambiental da criação de animais. Empresas como Impossible Foods, Beyond Meat, Memphis Meats estão aperfeiçoando a carne vegetal ou cultivada in vitro. Carne “falsa”, mas que tem gosto de carne.

Os estabelecimentos de criação do mundo todo produzem 14,5% das emissões de gases de efeito estufa: mais do que a soma das emissões dos carros, trens, aviões e navios juntos (13%). Segundo a FAO isso representa 5% do dióxido de carbono produzido pela civilização humana, 53% do protóxido de azoto e 44% do metano, dois gases de efeito estufa muito mais potentes que o CO2.

Segundo estimativas da FAO, no mundo existem

  • 19 bilhões de galinhas, ou seja, três galinhas para cada ser humano.
  • E também um bilhão e meio de bovinos,
  • um bilhão de ovinos
  • e um bilhão de suínos

que, juntos, representam grande parte do patrimônio proteico da humanidade. Um patrimônio que garante a sobrevivência da (nossa) espécie, mas que traz consigo uma enorme carga negativa.

Os estabelecimentos de criação do mundo todo

  • produzem 14,5% das emissões de gases de efeito estufa:
  • mais do que a soma das emissões dos carros, trens, aviões e navios juntos (13%).

Segundo a FAO isso representa 5% do dióxido de carbono produzido pela civilização humana, 53% do protóxido de azoto e 44% do metano, dois gases de efeito estufa muito mais potentes que o CO2.

As vacas em particular, devido ao seu particular sistema digestivo, são responsáveis (por diante e por trás) por uma grande parte do metano. Além disso, dadas as grandes quantidades de ingredientes necessários para produzir um bife – em termos de consumo de água, de solo, de fertilizantes, bem como de resíduos gerados – não há proteína no mundo tão  ineficiente e “cara” para o ambiente.

Não estamos sugerindo que seja eliminado o consumo planetário de carne. No máximo, queremos salientar que não deveria ser aumentado sempre mais, como tem acontecido nos últimos vinte anos, devido aos dois bilhões de novos comensais que vieram  juntar-se à mesa e devido aos novos hábitos alimentares que se difundiram nos países onde a renda per capita aumentou.

Sabemos que a população mundial continuará a crescer, assim como também o produto interno bruto de muitas nações. Em outras palavras, o sistema alimentar planetário não é sustentável. O modelo de produção das proteínas precisa ser reestruturado.

A Impossible Foods, uma startup do Vale do Silício com nome bem explícito, após ter arrecadado 182 milhões de capital, já começou a produzir hambúrgueres que se parecem com hambúrgueres, mas que  são integralmente produzidos com matérias-primas vegetais. “Têm o sabor e a aparência de carne moída – garante Pat Brown, o fundador – e são preparados da mesma maneira”.

Por agora, a única maneira de saborear um Impossible Burger é entrar na fila de Momofuku Nishi, um restaurante [coreano] em Manhattan. Mas em breve será comercializado em maior escala, junto com novos produtos de falsa “carne” constituídos inteiramente de matérias-primas vegetais. Porque o hambúrguer vegetal não é novidade. Mas o que tem sabor de carne, sim.

Beyond Meat, outra empresa da Califórnia, está bem à frente na comercialização. Os seus produtos, que incluem o indispensável hambúrguer, mas também filés de frango sem nenhum vestígio de frango e pratos já preparados com legumes e carne bovina mas sem rasto de carne bovina, já estão disponíveis nas lojas da rede de supermercados  de alimentos saudáveis Whole Foods. Os comentários da imprensa são mais do que animadores. “O Beyond Burger tem boas chances de converter até os carnívoros mais obstinados” – registra Fast Company, uma revista dedicada à economia da inovação. “Durante o preparo, tem o mesmo ruído e cheiro de um verdadeiro hambúrguer.”

Mas há quem tenta ir mais longe. A Memphis Meats – que apesar do nome está sediada  em San Francisco –  não pretende encontrar a fórmula vegetal do hambúrger do futuro, mas algo muito mais complicado e, portanto, mais longe no tempo. “O conceito – enfatiza Uma Valeti, CEO da empresa – é simples: por que não cultivar a carne em vez de criar animais?”. Em outras palavras, a ideia é a produção de carne verdadeira através de uma reprodução celular em laboratório. Em fevereiro, a startup produziu “a primeira almôndega in vitro da história.” Ou, se quisermos, a primeira almôndega que não veio de um açougue. O processo funciona, mas obviamente precisa ser refinado: para produzir um quilo de carne, Valeti gastou 18 mil dólares.

Se acrescentarmos ao grupo as empresas Ripple Foods e Muufri (que já estão comercializando um leite vegetal que tem gosto de leite), além de Clara Foods e Hampton Creek (que produzem alternativas para os ovos), tem-se a impressão de que o movimento para a substituição da proteína está abrindo caminho.  Na realidade, porém, há algo mais. Não é só o fato de estas empresas nascentes desfrutarem de apoios financeiros dos grandes capitalistas de risco do Silicon Valley (Google e Bill Gates, por exemplo, estão entre os investidores de Impossible Foods). Mas as forças da inovação e da consciência ambiental estão pressionando para que essa substituição parcial das proteínas ocorra em tempos ainda mais curtos.

Duas semanas atrás, foi anunciada uma coalizão entre grandes estruturas de investimento que inclui – entre outros – três grandes fundos de pensão suecos e empresas como Aviva Investors, Boston Common, Coller Capital, Folksam, Nordea e Robeco. A coalizão, que em conjunto administra fundos de 1.250 bilhões de dólares, pretende colocar pressão sobre dezesseis multinacionais de alimentos (entre as quais Heinz Kraft, Nestlé, Unilever, Tesco e Walmart) a fim de “limitar os riscos inerentes à criação de gado bovino”. E também colocando nas prateleiras “mais produtos adequados a encorajar uma mudança nos consumos proteicos” das pessoas.

 

“Nas estabelecimentos de criação –  observa a FAO –  as emissões de protóxido de azoto, de metano e de  dióxido de carbono são realmente perdas de azoto, de energia e de matéria orgânica. É preciso usar tecnologias e práticas capazes de melhorar a eficiência” da produção de carne. Por isso, o braço alimentar das Nações Unidas oferece uma série de recomendações, especialmente para a gestão dos estabelecimentos de criação de gado bovino:

  • melhorar a qualidade (e o tamanho) das raças criadas,
  • mudar a dieta para reduzir a produção de metano,
  • fazer a gestão adequada dos seus excrementos de modo a aproveitar o metano, em vez de liberá-lo na atmosfera.

Ainda que pareça impossível, talvez seja mais fácil tomar o caminho do falso hambúrguer da Impossible Foods.

 

Marco Magrini

Marco Magrini

 http://www.lastampa.it/2016/11/17/scienza/ambiente/il-caso/ecco-lhamburger-vegetale-che-salver-il-mondo-t1oiw24TkovVFOPAKcJAUJ/pagina.html

NOTA DA REDAÇÃO:

Sem querer questionar cientificamente os dados do artigo, a campainha do meu desconfiômetro tocou forte ao ler o artigo acima. Aparentemente essa corrida à Proteína vegetal está muito preocupada com o Efeito Estufa. Nem afirmo nem contesto, pois me faltam dados para isso.

Mas fico bem preocupado quando vejo que:

  • vamos ficar escravos dos enlatadas, com todos os seus corantes, espessantes, conservantes, etc.
  • vamos ficar dependentes de muito poucas empresas globais que buscam muito mais o lucro imediato, em assunto que interessa a toda a humanidade
  • varias dessas já estão sendo acusadas de tendências monopolista ou oligopolistas, de exploração de mão de obra barata e de privatização. Como, por exemplo, a Nestlé, que espalha a ideia de que a água tem de ser privatizada e, com outras empresas, estão tentando privatizar o Aquífero Guarani, ou parte dele.
  • os grandes donos de capital estão muito interessados em investir fortemente nesse novo filão de lucros.
  • há o grande perigo de patenteação de sementes e de seres vivos e de destruição das muitas variedades delas pela ganância do lucro e pela vontade imperial de dominação.
  • aumentaria a possibilidade de amplo uso da engenharia genética para fins de lucro fácil e rápido, sem os devidos controles democráticos, nacionais e internacionais, para a preservação da saúde coletiva.

João Tavares – Editor

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