UMA NOVA REVOLUÇÃO CULTURAL                

Frei Bento Domingues, O.P. – 27/11/2016

Somos, por isso, chamados a fazer crescer uma cultura de misericórdia, uma cultura na qual ninguém olhe para o outro com indiferença, nem vire a cara quando vê o sofrimento dos irmãos. As obras de misericórdia são «artesanais»: nenhuma delas é cópia da outra, são a possibilidade de criar uma verdadeira revolução cultural.

Pelos vistos, o Papa continua fiel às exigências dos seus três tês: terra, trabalho e tecto.

1. O Ano litúrgico terminou com a carta apostólica Misericordia et Misera[i]do Papa Francisco, que marca o encerramento do Ano Jubilar da Misericórdia, mas não da misericórdia.

Aproveitou para afirmar:

“Quero reiterar, com todas as minhas forças, que o aborto é um grave pecado, porque põe fim a uma vida inocente, mas, com igual força, posso e devo afirmar que não existe nenhum pecado que a misericórdia de Deus não possa alcançar e destruir, quando encontra um coração arrependido que pede para se reconciliar com o Pai. (…) Para que não exista qualquer obstáculo entre o pedido de reconciliação e o perdão de Deus, concedo a partir de agora, a todos os sacerdotes, em virtude do seu ministério, a faculdade de absolver todas as pessoas que tenham incorrido no pecado do aborto.”

É normal que os grandes meios de comunicação tenham realçado esta coroa da misericórdia. Mas Bergoglio procura integrá-la numa perspectiva mais envolvente, destacando acontecimentos, mensagens e figuras que são a própria respiração dos Evangelhos.

  • Se ficasse por aí, continuávamos a olhar para a beleza de há dois mil anos: uma galeria da misericórdia do passado.
  • Se ficássemos, apenas, com as expressões devocionais e sacramentais do Ano Jubilar não saíamos dos espaços e dos ritmos do culto católico.
  • A misericórdia não se exerce apenas, nem sobretudo nas missas, em resposta à carinhosa exortação saudai-vos na paz de Cristo!

 

 

2. Nesta carta, Bergoglio assume todas as dimensões do que tem sido a sua intervenção desde que foi eleito Papa, a começar pelo salto que é preciso dar desde a prática de Jesus até aos nossos dias:

  • ”Ainda hoje, populações inteiras padecem de fome e sede.
  • Imagens de crianças que não têm nada para se alimentar percorrem o mundo.
  • Multidões de pessoas continuam a emigrar à procura de alimento, trabalho, casa e paz.
  • As doenças são um permanente motivo de dor e aflição que requerem ajuda, consolação e apoio.
  • Muitas vezes, os estabelecimentos prisionais, além da pena de privação da liberdade, devido às suas condições, são fonte de desumanidade.
  • O analfabetismo ainda é enorme. Impede as crianças de se formarem, expondo-as a novas formas de escravidão.

A cultura do individualismo exacerbado, sobretudo no Ocidente, leva a perder o sentido de solidariedade e responsabilidade para com os outros.

O próprio Deus continua a ser hoje um desconhecido para muitos; isto constitui a maior pobreza e o maior obstáculo para o reconhecimento da dignidade inviolável da vida humana. Por isso, as obras de misericórdia constituem um evidente valor social. Impelem a arregaçar as mangas para restituir a dignidade a milhões de pessoas que são nossos irmãos e irmãs».

Somos, por isso, chamados a fazer crescer uma cultura de misericórdia, uma cultura na qual ninguém olhe para o outro com indiferença, nem vire a cara quando vê o sofrimento dos irmãos. As obras de misericórdia são «artesanais»: nenhuma delas é cópia da outra, são a possibilidade de criar uma verdadeira revolução cultural.

Pelos vistos, o Papa continua fiel às exigências dos seus três tês:

  • terra,
  • trabalho
  • e tecto.

São as condições mínimas de respeito pela dignidade das pessoas, mas não só. A sua criatividade simbólica encontra sempre gestos realistas para abrir o futuro. Como ele próprio diz, à luz do «Jubileu das Pessoas Excluídas Socialmente», celebrado quando já se iam fechando as Portas da Misericórdia em todas as catedrais e santuários do mundo, intuí que, como mais um sinal concreto deste Ano Santo extraordinário, se deve celebrar, em toda a Igreja, na ocorrência do XXXIII Domingo do Tempo Comum, o Dia Mundial dos Pobres.

 

3. Tudo isso e muito mais, que não cabe nesta crónica, foi escrito na Solenidade de um Rei, coroado de espinhos e cruxificado, imagem do mundo, no Ano do Senhor de 2016, quarto do seu pontificado.

O profeta Isaías, a grande figura profética do Advento, lançou um novo desafio ao Papa Francisco: convocar a Igreja, as Igrejas, as outras religiões, os sem religião, os agnósticos e os ateus para acabar com as indústrias da guerra. Diz o profeta: converterão as espadas em relhas de arado e as lanças em foices. Não levantará a espada nação contra nação, nem mais se há-de preparar para a guerra[ii].

Nada disto acontecerá só porque se sonhou, nem por qualquer decreto das Nações Unidas. Mas

  • quando se deixar de sonhar,
  • quando se deixar de responsabilizar as Nações Unidas e cada um dos países do mundo,
  • quando se deixar de apelar à conversão das pessoas, de cada um de nós, por se julgar que tudo isto são utopias,

é porque já desistimos da humanidade, dos seus pequenos e grandes passos e, os cristãos ter-se-ão perdido de Cristo, nossa Paz, esperança do mundo.

Começou hoje o Advento, recomeçaram os trabalhos do futuro.

 

[i] As citações e as paráfrases deste documento são da minha escolha e responsabilidade

[ii] Is 2, 1-5

 

Frei_bento_domingues

 

Frei Bento Domingues

Fonte: https://www.publico.pt/2016/11/26/sociedade/noticia/uma-nova-revolucao-cultural-1752402

2 comments to   UMA NOVA REVOLUÇÃO CULTURAL                

  • Geraldo

    Lamentável apenas que o papa Francisco nunca ataque o diabólico comunismo e ditadores associados a essa ideologia maçonista com seus déspotas governantes carniceiros, irmãos gemeos dos nazifascistas, todos 3 material-ateístas, escravagistas, totalitaristas, possuidores de figadal ódio ao Senhor Deus e à sua Igreja!
    Onde se instala a peste comunista do martelo e foice temos atraso, miseria, muita violencia, destruição e morte, além de adesão de todos tipos de mazelas, caso do aborto, pedofilia, sodomia etc.
    Confiram a misérrima Cuba do déspota ex Castro, agora a caótica Venezuela na desgraça total, Coreia do Norte, China, os ex da Cortina de Ferro…
    Negar que as anarquistas esquerdas e suas milicias estão satisfeitas com o papa Francisco e detestavam Bento XVI é inegável.
    Nem as pragas do Egito são piores, pois o marxismo destrói o corpo e a mente do incauto via lavagem cerebral; os comunistas são experts no assunto!
    O que aprontou a quadrilha do satanista stalinista PT no Brasil dá uma leve ideia que seja a maldição comunista!

  • giba

    Quanta ignorância religiosa, histórica e política e quanta visão curta, Geraldo. É impressionante…

    João Tavares

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