O Fidel Castro que eu conheci

Ignacio Ramonet – 26/11/2016

Fidel está morto, mas é imortal. Poucos homens conheceram a glória de entrar ainda vivos na história e na lenda. Fidel Castro, que acaba de morrer com a idade de 90, é um deles. Ele era o último “monstro sagrado” da política internacional.

Ele pertencia a essa geração de insurgentes míticos – Nelson Mandela, Ho Chi Minh, Patrice Lumumba, Amílcar Cabral, Che Guevara, Carlos Marighella, Camilo Torres, Mehdi Ben Barka – que, em busca de um ideal de justiça, se lançaram,  após a segunda guerra mundial, na ação política com a ambição e a esperança de mudar um mundo de desigualdades e discriminações marcado pelo início da guerra fria entre a União Soviética e os Estados Unidos .

 Enquanto governou (de 1959 a 2006), Fidel Castro enfrentou nada menos do que dez presidentes americanos (Eisenhower, Kennedy, Johnson, Nixon, Ford, Carter, Reagan, Bush Pai, Clinton e Bush Filho). Sob sua liderança, Cuba, um pequeno país de cem mil quilômetros quadrados e 11 milhões de habitantes conseguiu

  • desenvolver uma política de grande potência em escala global,
  • e sustentar, por mais de 50 anos, um braço de ferro com os Estados Unidos,

cujos dirigentes

  • não conseguiram derrubá-lo
  • nem eliminá-lo
  • nem sequer modificar ainda que pouco o rumo da revolução cubana.

A Terceira Guerra Mundial esteve a ponto de estourar em outubro de 1962 devido à atitude de Washington se opunha radicalmente à instalação de mísseis nucleares soviéticos em Cuba, cuja função era sobretudo defensiva e dissuasiva, para impedir uma nova invasão como a da Baía dos Porcos em 1961, conduzida diretamente pelos americanos para derrubar a revolução cubana.

Desde 1960, os Estados Unidos travam uma guerra econômica contra Cuba e lhe  impõem  unilateralmente, apesar da oposição da ONU e apesar do restabelecimento das relações diplomáticas entre Washington e Havana em 2015, um embargo comercial devastador,  que impede o seu desenvolvimento e dificulta o seu crescimento econômico. Com consequências terríveis para os habitantes da ilha.

  Apesar deste encarniçamento americano (em parte atenuado após a reaproximação iniciada em 17 de dezembro de 2015) e de cerca de seiscentas tentativas de assassinato fomentadas contra ele, Fidel Castro nunca respondeu com  violência.

Nem um único ato violento foi registrado nos Estados Unidos há mais de meio século que tenha sido patrocinado por Havana.

Pelo contrário, Fidel Castro declarou após os odiosos ataques cometidos pela Al Qaida em Nova York e Washington em 11 de setembro 2001:

Temos dito repetidamente que, quaisquer que sejam nossos agravos em relação ao governo de Washington, ninguém nunca sairá de Cuba para realizar um atentado contra os Estados Unidos. Não seríamos mais do que fanáticos vulgares se considerássemos o povo americano responsável pelas disputas que opõem os nossos dois governos“.

O culto oficial da personalidade é inexistente em Cuba. Embora imagem de Fidel Castro esteja  presente na imprensa, na televisão e nos cartazes, não há

  • nenhum retrato oficial,
  • nenhuma estátua,
  • nem dinheiro,
  • nem rua
  • nem edifício ou monumento qualquer

que leve o nome de Fidel Castro.

Apesar das pressões externas a que está submetido, este pequeno país, cioso da sua soberania e da sua singularidade política,  alcançou resultados notáveis em termos de desenvolvimento humano:

  • abolição do racismo,
  • emancipação das mulheres,
  • erradicação do analfabetismo,
  • redução drástica da mortalidade infantil,
  • elevação do nível cultural geral.

 Nas áreas da

  • educação,
  • da saúde,
  • da pesquisa médica
  • e do esporte,

Cuba atingiu níveis muito elevados que muitos países desenvolvidos  invejariam.

A diplomacia cubana é uma dos mais ativas do mundo. A revolução, nos anos 1960-1970, apoiou os movimentos de oposição armada em muitos países. As suas forças armadas, deslocadas para outros cantos do mundo, participaram de campanhas militares de grande  envergadura, em particukar nas guerras

  • da Etiópia
  • e de Angola.

A intervenção cubana neste último país terminou com a derrota das divisões de elite da República da África do Sul; fato que, sem dúvida, acelerou incontestavelmente a independência da Namíbia e a queda do regime racista do apartheid, permitindo a libertação da líder sul-africano Nelson Mandela, que nunca deixou passar uma ocasião sem recordar a amizade que o ligava a Fidel Castro e a sua dívida para com a revolução cubana.

Fidel Castro tinha um sentido da história profundamente enraizado nele, e uma extrema sensibilidade no que diz respeito à identidade nacional. Entre todas as personalidades ligadas à história do movimento socialista ou operário,  a que ele cita mais frequentemente é José Martí, “apóstolo” da independência de Cuba em 1898.

Impulsionada por uma compaixão humanitária, a sua ambição era de semear em todo o planeta

  • a saúde e o conhecimento,
  • os medicamentos e os  livros.

Sonho quimérico? A dmiração que ele devotava ao seu herói literário favorito,  Dom Quixote, não era casual. A maioria dos seus interlocutores, e até mesmo alguns de seus adversários, admitem que Fidel Castro era um homem habitado por nobres aspirações, por ideais de justiça e  de equidade.

 

No seu país e em toda a América Latina, Fidel Castro dispunha de uma autoridade que lhe conferia a sua personalidade quadrifacetada

  • de teórico da revolução,
  • de chefe militar vitorioso,
  • de fundador do Estado,
  • e de estrategista da política cubana.

A despeito dos seus detratores, Fidel Castro tem um lugar reservado no panteão mundial das personalidades que lutaram por justiça social e deu provas de solidariedade com todos os oprimidos da terra.

 

 

 

Ignacio Ramonet
Président de l’association Mémoire des Luttes

Fonte: http://www.medelu.org/Le-Fidel-Castro-que-j-ai-connu 

1 comment to   O Fidel Castro que eu conheci

  • martha pires ferreira

    Por admiração a Fidel Castro, fiel aos direitos humanos em defesa dos mais frágeis, exemplo de doação de si ao bem comum, com sua partida entrando para a História dos Grandes, achei, hoje, este Site. Excelentes artigos. Agradeço. Martha Pires Ferreira

Leave a Reply

You can use these HTML tags

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>