O papa e o ecumenismo

Ghislain Lafont – 22/10/2016

“Em uma de suas respostas, Francisco disse brincando: “Eu sei o dia da unidade plena…: um dia depois da vinda do Filho do homem”. Em nenhum momento, ele menciona o interesse o atual, presente, desses encontros, nem prevê a hipótese de que essas discussões possam ter um impacto concreto sobre a oração e as obras de misericórdia.”

No retorno de suas duas últimas viagens ao Oriente Médio, em junho e outubro, o papa Francisco foi interrogado por jornalistas sobre o ecumenismo: acerca das divisões entre as Igrejas do Oriente e do Ocidente e a propósito do quinto centenário da Reforma a que chegaremos em 2017.

As respostas do papa em ambos os casos são surpreendentemente semelhantes, de modo que temos um bom resumo do que para ele parece recomendável numa conjuntura de divisão confessional.

Francisco distingue duas categorias de pessoas: os “teólogos” e “nós, o povo”.

Os teólogos, de ambos os lados, são fortes e bons, eles têm boa vontade: portanto, que eles estudem, que eles procurem, que eles dialoguem. O trabalho deles é a longo prazo, o seu resultado chegará no final, mas o caminho é longo, muito longo, e o papa parece ter algum ceticismo sobre o resultado final.

Em uma de suas respostas, ele disse brincando: “Eu sei o dia da unidade plena…: um dia depois da vinda do Filho do homem”. Em nenhum momento, ele menciona o interesse o atual, presente, desses encontros, nem prevê a hipótese de que essas discussões possam ter um impacto concreto sobre a oração e as obras de misericórdia.

Para os outros, “nós, o povo”, o caminho já está traçado. Duas coisas: é preciso rezar, rezar juntos, orar uns pelos outros. Depois é preciso trabalhar juntos, pelos outros: os pobres, os migrantes, os perseguidos, os refugiados, as pessoas que sofrem. Não se diz em quê que esta oração e esta atividade em comum têm um impacto sobre a união das Igrejas.

Francisco com patriarcas do Médio Oriente

 

Em resumo, “hoje, o ecumenismo deve ser feito caminhando juntos, rezando uns pelos outros. E que os teólogos continuem a dialogar entre eles, a estudar entre eles”.

Qual pode ser a reação de um teólogo, à vista desta “repartição de tarefas”?

Se ele aceita entrar na ordem de prioridades do papa, ele verá neste convite à ação uma expressão do primado da misericórdia: os que se dedicam às obras de misericórdia alcançam o próprio coração de Deus: eles entram de alguma forma na verdade e, neste sentido, eles estão uns com os outros.

Não se esperava do samaritano uma profissão de fé semelhante à que poderia formular o sacerdote ou o levita, mas uma conformidade ativa à fé, ou seja, uma atuação concreta do amor misericordioso de Deus.

Em segundo lugar, o teólogo reconhecerá a urgência concreta neste espaço onde estamos: da “terceira guerra mundial”, da miséria causada pela globalização econômica, dos perigos que ameaçam o planeta etc., e, portanto, de uma obra comum de pessoas de “boa vontade” (esta expressão aparece na palavra do Papa para o “povo”, mas também para os “teólogos”): em vista de uma tal urgência, as discussões doutrinárias não estão no centro do processo de unidade.

Como me dizia um primo meu que estava na África do Sul, e precisamente em Soweto, durante os últimos e mais trágicos dias do apartheid: “Você sabe, quando se está em plena luta, não há preocupação com a especificidade das denominações cristãs: faz-se uma aliança e age-se”.

O teólogo também se persuadirá, e com boas razões, de que, quando procedem do mais alto responsável da Igreja Católica, as iniciativas de beneficência e o apelo a se pôr em movimento estão penetrados pelo mandamentos do Evangelho.

Neste sentido, elas são obra de evangelização, porque levam a uma conversão finalmente evangélica, se não de fé, pelo menos de vida. Aproximam a Igreja dos homens e os homens da Igreja, e, portanto, de Jesus Cristo, se acreditarmos em Santa Joana d’Arc: “Parece-me que, de Cristo e da Igreja, é tudo um”.

Tudo isso dito com convicção, ainda tenho um mal-estar. Ouvindo o papa Francisco, não se tem a impressão de que o diálogo teológico possa ter qualquer impacto concreto sobre a oração e o trabalho comum dos cristãos. Também não se tem a impressão de que o povo cristão possa se interessar por este diálogo como um propósito essencial para a sua vida.

No entanto, o ecumenismo nasceu da urgência de uma evangelização comum, do escândalo de anunciar Jesus Cristo na divisão, e, se ele tem progredido, é mesmo assim em grande parte graças aos diálogos teológicos postos a serviço desta exigência do Evangelho: “Que eles sejam um”. Muitos cristãos que não são teólogos de profissão interessaram-se por isto e é de se desejar que o número deles aumente.

Por outro lado, é verdade que a unidade plena não chegará nunca e que a reconciliação, de um lado, pode suscitar ou radicalizar divisões, do outro, mas dito isto há um objetivo muito concreto no esforço ecumênico: a participação conjunta à mesa eucarística.

As Igrejas não são academias, mas comunidades; não se procura um acordo doutrinário por ele mesmo mas pela ação simbólica que sustenta a oração e as obras: celebrar a morte e a ressurreição de Cristo numa Eucaristia compartilhada.

Acho que isto deve estar muito vivamente no horizonte da consciência cristã, não somente dos “teólogos”, mas de “nós, o povo” a fim de encurtar um tempo que deve vir.

 

 

Ghislain Lafont  – Des moines et des hommes

 Publicado em 22 de outubro de 2016 no blog: ‘Des moines et des hommes’

Fonte: http://www.cittadellaeditrice.com/munera/le-pape-et-loecumenisme/

 

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