Sofrimento, medicina e o transcendente.

Homenagem a João Lobo Antunes

Anselmo Borges – 04/10/2016

Na busca de uma definição de espiritualidade, poderíamos dizer de modo simples que “é uma atitude ou uma procura de um sentido intimamente ligado à relação que cada um de nós tem com o transcendente”, sendo de notar que “a espiritualidade não está necessariamente ligada à religiosidade. Esta implica a adesão pessoal a uma crença ou à prática de uma religião organizada. De facto, pode admitir-se que um não crente tenha a sua forma própria de “espiritualidade”, ou seja, uma relação com valores transcendentes”.

“A prática da medicina bem como a experiência da doença levantam problemas críticos de significado e sentido – questões fundamentais, como apontou Renée Fox, sobre os “porquês da dor, do sofrimento e da angústia, os limites da vida humana, e a morte, e as suas relações com o mal, o pecado e a injustiça”.”

Tudo indicaria que os avanços da ciência e, nomeadamente, da medicina, a explosão da realidade virtual e do ciberespaço, teriam “como consequência, como se de um jogo de forças antagónicas se tratasse, um recuo na crença religiosa. De facto, o oposto parece verificar-se, e o interesse pelos debates sobre a relação entre ciência e fé tem crescido de forma surpreendente.”

A sociedade portuguesa é hoje “uma sociedade laicizada e avessa à discussão dos problemas da religião e da espiritualidade, como se não tivéssemos recuperado do jacobinismo dos princípios do século passado. Vale a pena citar, como contraste, o que se passa com os Estados Unidos, onde

  • 80% da população acredita no poder da religião
  • e 77% dos doentes hospitalizados desejam que os médicos lhes falem sobre estes temas. 

Sublinhe-se ainda que pelo menos 30 faculdades de Medicina têm cursos sobre espiritualidade, religião e saúde”.

Referindo longamente esta temática, sublinhou a atenção crítica necessária na abordagem “científica” destas questões. Mas disse que “a ideia de que a espiritualidade e a religião trazem benefícios à saúde deveria não chocar os mais cépticos. Sir William Osler, o fundador da medicina clínica tal como hoje a entendemos, já falava em 1910 na faith that heals.”

“O que não se pode questionar é que a doença é, como alguém disse, um acontecimento espiritual que nos agarra pelo corpo e pela alma e que a ambos perturba”.

E, percebendo que “a visão reducionista e mecanicista da moderna medicina já não é satisfatória”, “doentes e médicos começam a realizar o valor de elementos como a fé, a esperança ou a compaixão, esta última tão inexplicavelmente ausente do discurso bioético contemporâneo”.

Como afirmou o filósofo A. Heschel, “to heal a person, we must first be a person” (para curar uma pessoa, precisamos primeiro ser pessoas – NdR).

Concluiu que “a espiritualidade na prática médica exige grande virtude, coragem, perseverança e o que alguém chamou de “fidelidade criativa”. E, evidentemente, esperança, pois, como dizia S. Paulo, “é na esperança que somos salvos”.”

E não resistiu a contar duas breves histórias da clínica.

“Já há largos anos, num domingo de Verão, telefonou-me um colega neurologista, dizendo-me que tinha uma menina internada num hospital particular de Lisboa, pedindo-me que a observasse. Perguntei-lhe se era uma situação urgente e ele respondeu-me que não lhe parecia, pelo que foi combinado eu visitá-la depois do jantar.

Eu estava em Cascais, num almoço à beira de uma piscina, num animado convívio social. Subitamente, sem qualquer motivo, decidi interromper o almoço e parti para Lisboa. Quando cheguei, a menina tinha entrado em coma naquele momento, e foi salva por uma intervenção urgente. Ela é hoje mãe de uma Madalena.

A segunda história passou-se, estava eu ainda em Nova Iorque, e regressava de avião de um congresso quando, a caminho de casa, decidi parar no meu hospital. Lá também, por uma qualquer razão que ainda hoje me escapa, desloquei-me ao hospital de crianças anexo ao meu edifício para ver um rapazinho que operara dias antes. No momento em que entro no quarto ele fez uma paragem respiratória de que é salvo in extremis por uma nova intervenção.

Tenho contado estas histórias (e poderia acrescentar outras) a alunos, internos e colaboradores. Não me atrevo a atribuir-lhes um sentido transcendente, mas também não as reduzo a situações de simples acaso ou sorte. Digo apenas que é preciso estar atento a uma voz interior e responder sem hesitações ao seu comando. Para tal, é preciso, pois, estar sempre à escuta, como se conta do jovem profeta Samuel.”

*Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

Anselmo Borges

Fonte:http://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/anselmo-borges/interior/sofrimento-medicina-e-o-transcendente-homenagem-a-joao-lobo-antunes-5480853.html

 

 

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