O PAPA EM LUND E O ECUMENISMO DA CARIDADE

 Andrea Tornielli – 2016/10/29

Foto: Francisco estará na Suécia em 31/10/e 1/11

Francisco salienta que o diálogo com as outras confissões cristãs é acima de tudo uma viagem que vai além das controvérsias teológicas, e se concretiza no testemunho comum do compromisso para com os que sofrem

 

A visita do papa Francisco à Suécia, na segunda-feira, 31 de outubro, e na terça-feira, 1 de novembro, é certamente mais um passo importante no não fácil caminho ecumênico. Antes de tudo pela circunstância concreta: a comemoração dos 500 anos da Reforma e dos 50 do início do diálogo entre católicos e luteranos.

Mas, além das considerações sobre a excepcionalidade deste passo, é preciso reconhecer que a circunstância se insere plenamente num percurso inaugurado pelo Concílio Vaticano II.

“Papa Francesco a Lund? Un grande passo”

A catedral de Lund, na Suécia –  (foto da wikipedia)

Francisco, graças também à experiência vivida em Buenos Aires, enfatiza de modo particular que o diálogo com a outras confissões cristãs é acima de tudo um caminho que vai além das controvérsias teológicas e se concretiza no testemunho comum de compromisso para com os que sofrem, para com os pobres.

Isto não significa minimizar os resultados obtidos no diálogo teológico e no trabalho muitas vezes árduo dos peritos. Tanto no que concerne ao mundo da ortodoxia como no que concerne às igrejas evangélicas foram feitos passos positivos rumo à unidade, como atesta, por exemplo, a fundamental declaração conjunta sobre a justificação, assinada em 1998.

Significa, ao invés, reconhecer que o trabalho dos teólogos, das comissões, dos diálogos nos níveis mais elevados, simplesmente não é o bastante. E sobretudo que, se ficar isolado, corre o risco de adiar sempre tudo para um futuro indefinido.

 “Os sinais dos tempos nos instigam a um testemunho comum na plenitude crescente da verdade e do amor” – disse João Paulo II em Mainz, em 1980.

 “A fé, vivida a partir do íntimo de si mesmos, num mundo secularizado, é a força ecumênica mais vigorosa que nos une” – disse Bento XVI em Erfurt, em 2011. Como se testemunham hoje o batismo comum e a fé em Cristo?

Il Papa in Svezia per i 500 anni della riforma di Lutero

O papa na Suécia para os 500 anos da Reforma de  Lutero – Foto Iacopo Scaramuzzi

o ecumenismo do sangue”, do qual fala frequentemente Francisco e ao qual se tinha referido o próprio Papa Ratzinger em Erfurt, quando ele lembrou que os mártires da era nazista, os católicos e os luteranos mortos pelos nazistas, “nos conduziram uns em direção aos outros e suscitaram a primeira grande abertura ecumênica“.

Este ecumenismo do sangue pode ser percebido não só na trágica condição das perseguições aos cristãos em muitos países atormentados pela “terceira guerra mundial em pedaços”, mas também na unidade e na fraternidade que se respira entre as diversas confissões, nos lugares onde os seguidores de Cristo são exígua minoria.

  • Se “o ecumenismo do sangue” é infelizmente uma realidade,
  • há um outro ecumenismo sobre o qual Francisco insiste retomando o caminho empreendido pelos seus antecessores.
  • E é o trabalhar juntos testemunhando o amor pelos pobres, pelos rejeitados, pelos sofredores, pelos imigrantes.

Com os seus apelos neste sentido, o Papa salienta hoje que tocar “a carne de Cristo” nos que sofrem não é uma consequência sociológica, um a mais, um acessório não indispensável em relação à profissão de fé.

Não é, por exemplo, uma aplicação opcional da doutrina social da Igreja, mas tem a ver

  • com o coração da mesma fé,
  • com os fundamentos da fé cristã.

É algo intimamente ligado à mensagem do Evangelho.

Porque o rosto de Jesus é encontrado em quem tem fome, tem sede, está nu, é estrangeiro, está preso, como se lê no capítulo 25 do Evangelho de Mateus. E portanto os cristãos, pecadores regenerados continuamente pela misericórdia divina que sustenta o mundo, vão ao encontro dos últimos, não para “levar” a eles alguma coisa mas para serem evangelizados, encontrando o Nazareno no rosto e na carne do pobre.

Por exemplo, diante dos imigrantes e dos refugiados que fogem de guerras nas quais o Ocidente teve e tem graves responsabilidades, o cristão não pode deixar de ver os rostos daquela jovem de Nazaré e do seu esposo, obrigados a fugir para um país estrangeiro (mas acolhedor) para salvar a vida de um menino nascido na precariedade de um estábulo.

Os gestos ecumênicos

  • de “degelo”,
  • de cordialidade,
  • de fraternidade,

assim com como

  • o precioso trabalho de teólogos
  • e comissões de peritos,

são peças de um mosaico cujos elementos mais importantes são no entanto confiados ao testemunho de cada cristão das respectivas Igrejas.

“Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns pelos outros.” “Toda vez que fizestes isso a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes.”

 

Andrea Tornielli 1

Andrea Tornielli

Fonte: http://www.lastampa.it/2016/10/29/vaticaninsider/ita/vaticano/il-papa-a-lund-e-lecumenismo-della-carit-EH9RrfSLkVYYzAeDpEynCI/pagina.html

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