Utopias, distopias, retrotopia

Anselmo Borges – 22/10/016

Coube-me a honra de um convite para participar no magno evento cultural Folio, na bela Óbidos, com uma fala sobre utopias e distopias, a que acrescentei retrotopia, pelas razões que direi.Utopia é um não lugar; de qualquer forma, um ideal que indica o caminho. A utopia supõe a distopia (também do grego: dys, que significa mau, duro: portanto, um mau lugar, o oposto a utopia).

1. Foi Thomas More que cunhou o termo utopia, com a publicação, há 500 anos, de A Utopia, cujo título em latim é mais longo: De Optimo Reipublicae Statu Deque Nova Insula Utopia (sobre o melhor estado de uma República e sobre a nova ilha da Utopia). Ele sabia do que falava, concretamente do poder, pois foi chanceler.

A Igreja canonizou-o em 1935. A Utopia é uma ilha imaginada lá longe no oceano (utopia tem o seu étimo no grego: ou, que se lê u, que significa não) e tópos, com o significado de lugar. Portanto, Utopia é um não lugar; de qualquer forma, um ideal que indica o caminho.

A utopia supõe a distopia (também do grego: dys, que significa mau, duro: portanto, um mau lugar, o oposto a utopia). Assim,

na primeira parte, More critica os males que atravessavam a sociedade inglesa,

  • do despotismo e venalidade dos cargos públicos
  • à sede de luxo por parte dos privilegiados
  • e à injustiça e opressão que provocam.

Na segunda parte, descreve uma sociedade ideal, que imaginariamente já se encontra realizada na ilha da Utopia. Neste sentido, embora haja vários tipos de utopias, a utopia nasce como eutopia (mais uma vez, do grego: eu – bom, feliz, e tópos, um lugar bom e felicitante, como na palavra Evangelho: eu+angelion, notícia boa, feliz, felicitante).

2. Com Thomas More encontramo-nos no Renascimento e na dinâmica do Humanismo. A sua Utopia deriva também, de algum modo, da secularização do messianismo, do Reino de Deus e sobretudo da escatologia.

Se, na perspectiva cristã, o Reino de Deus será consumado na meta-história, agora, com as utopias, pretende-se realizá-lo já neste mundo, na nossa história, na imanência terrena.

Por outro lado, se, em certos casos, eventualmente, a ideia utópica nasceu do sonho de levar adiante o que aconteceria se não tivesse havido pecado original – neste quadro o Reino de Deus já estava no princípio e não no fim -, o que é facto é que as utopias começaram por ser espaciais (A Utopia de More é uma ilha), mas, sobretudo por causa dos desenvolvimentos

  • da técnica
  • e da nova consciência histórica,

passaram a ter uma dinâmica mais temporal: a utopia não está ainda imaginariamente realizada num lugar, mas tem o seu tópos no “ainda não” do futuro.

As utopias têm duas funções fundamentais :

  • por um lado, são crítica da situação presente
  • e, por outro, impulso para transformá-lo, olhando para um futuro outro, numa sociedade livre e justa, de bem-estar para todos.

Parte-se do princípio de que o ser humano é constitutivamente utópico, porque é um ser desejante e esperante, que aspira à felicidade.

Por outro lado, se a utopia não há-de cair no mero escapismo, na ilusão ou no wishful thinking, é necessário estudar as possibilidades de transformação da realidade. A utopia é constituinte do ser humano, porque

  • ele deseja mais e melhor, a perfeição,
  • e, por outro, há condições objectivas na realidade para a concretização do desejo.
  • É toda a dinâmica entre “o que é” de facto e o que “pode e deve ser”.

Há perigos reais nas utopias. Eles têm que ver concretamente com a “geometrização” da sociedade utópica, de tal modo que

  • se cai na distopia da ditadura,
  • esquecendo o indivíduo e a pessoa.

Quando, por exemplo, o socialismo de utópico passou a científico e se implantou como “socialismo real” foi a tragédia que se sabe. Agora, está aí a utopia, a caminho de realizar-se, do transhumanismo e mesmo do pós-humanismo, na busca de uma nova espécie e da imortalidade, a partir do cruzamento das NBIC

  • (nanotecnologias,
  • biotecnologias,
  • informática,
  • inteligência artificial,
  • ciências cognitivas).

Projecto grandioso, mas é necessário ter consciência dos perigos e intervir política e eticamente. Que queremos verdadeiramente?

3. Significativamente, se esta utopia sobretudo técnica, que inclui a Uberlândia, goza de fascínio, no nível social e político reina mais o pessimismo e, assim, o sociólogo famoso Zygmunt Bauman perguntou recentemente ao jornalista da Der Spiegel (3-9-2016): “Já ouviu falar do conceito de retrotopia?” “Será o título do meu próximo livro.”

Hoje, é “a desilusão” face ao futuro: “Vivemos catástrofe após catástrofe:

  • terrorismo,
  • crise financeira,
  • estagnação da economia,
  • desemprego,
  • precariedade…,
  • desconfiança,
  • cada um é para o outro um potencial opositor e concorrente”, os perigos são omnipresentes. “Por isso, voltamo-nos para o passado e, no entanto, movemo-nos de modo cego para diante.”

“É notável que precisamente o Papa Francisco clame expressamente por uma cultura do diálogo. Só ela nos possibilitará perceber e respeitar o outro como parceiro legítimo.”

4. Também participou no Folio Salman Rushdie, com quem dialoguei da primeira vez que veio a Portugal, em 2006, sobre “O Deus do Mediterrâneo”. Ele veio relembrar como as religiões institucionais podem ser e são tantas vezes distópicas. Como eu o compreendo!

Mas estou convicto de que Deus não desaparecerá da vida da humanidade. Ele continuará presente, em primeiro lugar, na pergunta por Ele. Porque o ser humano é constitutivamente utópico e esperante. E só Deus pode preencher e dar Sentido último, por graça, ao seu desejo e esperança infinitos.

Anselmo Borges x

Anselmo Borges

Fonte:http://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/anselmo-borges/interior/utopias-distopias-retrotopia-5456732.html

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