Fé, entre fragilidade humana e força de Deus

Enzo Bianchi – 30-09-2016

“A fé, que deve ser entendida em primeiro lugar como adesão, só pode estar presente onde existe uma relação pessoal e concreta com Jesus. A fé não é um conceito de ordem intelectual, não é colocada antes de tudo numa doutrina ou numa verdade, muito menos em fórmulas, nos dogmas.”

 Os apóstolos disseram ao Senhor: «Aumenta a nossa fé». O Senhor respondeu: «Se tivésseis fé como um grão de mostarda, diríeis a esta amoreira: “Arranca-te daí e vai plantar-te no mar”, e ela obedecer-vos-ia.

Quem de vós, tendo um servo a lavrar ou a guardar gado, lhe dirá quando ele voltar do campo: “Vem depressa sentar-te à mesa”? Não lhe dirá antes: “Prepara-me o jantar e cinge-te para me servires, até que eu tenha comido e bebido. Depois comerás e beberás tu”?. Terá de agradecer ao servo por lhe ter feito o que mandou? Assim também vós, quando tiverdes feito tudo o que vos foi ordenado, dizei: “Somos inúteis servos: fizemos o que devíamos fazer”. (Lucas 17, 5-10, Evangelho do 27.º Domingo)

Aqueles que escutaram as exigências “duras” proclamadas por Jesus como decisivas para o seguir, conhecendo a própria fraqueza pedem-lhe: «Aumenta a nossa fé”. Este pedido arrisca-se, todavia, a não ser compreendido no seu real alcance, pelo que é oportuno refletir sobre a confiança-adesão absolutamente necessária para se ser discípulo de Jesus.

A fé, que deve ser entendida em primeiro lugar como adesão, só pode estar presente onde existe uma relação pessoal e concreta com Jesus. A fé não é um conceito de ordem intelectual, não é colocada antes de tudo numa doutrina ou numa verdade, muito menos em fórmulas, nos dogmas.

A fé não é, antes de tudo, um “crer que” (por exemplo, que Deus exista), mas é um ato de confiança no Senhor. Trata-se de aderir a Ele, de a Ele se ligar, de colocar nele a confiança até ao abandono a Ele numa relação vital, pessoalíssima. A fé é reconhecer que da parte do ser humano há fragilidade, portanto não é possível ter fé-confiança em si próprio. Precisamente por isso, sobretudo na boca de Jesus, é frequente o uso do verbo “crer” e do substantivo “fé” em modo absoluto, sem complementos ou especificações.

«Não tenhas receio, crê somente» (Lucas 8, 50) «;A tua fé te salvou» (Lucas 7, 50); «Vai, que tudo se faça conforme a tua fé» (Mateus 8, 13); «Ó mulher, grande é a tua fé! Faça-se como desejas» (Mateus 15, 28). Crer sem complementos, ter fé sem especificações é para Jesus determinante na relação com Deus e consigo próprio.

É verdade que a fé é um ato que se situa na fronteira entre fragilidade humana e força que vem de Deus, força que torna possível precisamente o ato de fé. Trata-se de passar da incredulidade à fé, mas esta passagem, esta “conversão”, requer a invocação de Deus e, em resposta, o seu dom, a sua graça, que na realidade são sempre prevenientes.

Com efeito, é difícil e trabalhoso para cada um de nós renunciar a contar em si para se descentrar e colocar no centro a Palavra de Deus a nós dirigida. Não nos esqueçamos que a incredulidade ou a pouca fé denunciadas por Jesus caracterizam a situação do discípulo, não de quem não encontra ou não escuta Jesus. E como não nos impressionarmos perante o grito de Jesus, «a tua fé te salvou», proclamado diante de doentes, pecadores, estrangeiros e pagãos que, encontrando-o, lhe pedem com fé para serem por Ele ajudados e salvos?

Há um episódio descrito com particular cuidado por Marcos (9, 14-29), mas presente também em Lucas e Mateus, que pode ajudar-nos a compreender melhor a passagem que estamos a comentar. Um pai tem um filho endemoninhado e os discípulos de Jesus não conseguem curá-lo. Desencorajado, quando encontra Jesus diz-lhe:

«Se podes alguma coisa, socorre-nos, tem compaixão de nós». E Jesus, depois de ter repreendido os discípulos – «geração incrédula» -, responde-lhe: «“Se podes…! Tudo é possível a quem crê». Ou: «Se tens fé, tudo te é possível através da fé que te salva». É como se Jesus lhe dissesse: «Basta-te crer, ter confiança», isto é, confiar que tudo é tornado possível por Deus porque «tudo é possível a quem crê». Então o pai responde: «Eu creio! Ajuda a minha pouca fé!».

Basta oferecer a Jesus a própria incredulidade, deixar que seja Ele a vencer as nossas dúvidas. E assim Jesus cura não só o filho, mas também o pai, presa da desconfiança em relação à vida.

Ao pedido dos apóstolos, «aumenta a nossa fé», Jesus responde que lhes basta ter «fé como um grão de mostarda», e então poderiam dizer a uma amoreira para se arrancar do solo e plantar-se no mal, que ela haveria de lhes obedecer.

Os apóstolos estão conscientes de ter uma fé pequena: gostariam de ser gigantes da fé, mas Jesus faz-lhes compreender que a fé, ainda que pequena, se é adesão real a Ele, é suficiente para alimentar a relação com Ele e acolher a salvação. É verdade, a nossa fé é sempre de curto prazo, mas basta ter em nós a semente desta adesão ao poder do amor de Deus operante em Jesus Cristo.

Crer significa, em última análise, seguir Jesus: e quando se o segue, caminha-se atrás dele, muitas vezes vacilando, mas acolhendo a ação com que Ele nos reergue e nos apoia, para que possamos estar sempre onde Ele está.

Nós, cristãos, devemos olhar com frequência para o pequeno grão de mostarda, tê-lo na palma da mão, ter consciência de quanto é minúsculo; mas deveremos também vê-lo com semente semeada, morta debaixo da terra, germinada e crescida, até se tornar grande como uma planta que dá abrigo às aves do céu – imagem usada por Jesus para descrever o Reino de Deus – e, por isso, surpreender-nos. Assim é a nossa fé, pequeníssima, talvez; mas não temamos, porque se a fé existe, é suficiente, porque é mais forte de toda a nossa outra atitude. A fé é a fé: sempre, mesmo se pequena, é adesão a uma relação, é obediência.

A resposta de Jesus aos apóstolos prossegue com uma parábola que lhes diz particularmente respeito, enquanto enviados a trabalhar no campo, na vinha cujo proprietário é Deus. Jesus adverte-os para o risco de confiarem em si próprios, porque esse é o pecado que se opõe radicalmente à fé. É a atitude que Jesus condenará na parábola do fariseu e do publicano no templo (cf. Lucas 18, 10-14), dirigida a alguns que, como o fariseu, «confiavam em si mesmos porque eram justos».

Isto poderá acontecer também aos enviados que, conscientes de terem feito pontualmente a vontade de Deus, desejariam ser reconhecidos, premiados. Mas Jesus, com realismo, pergunta-lhes: poderá acontecer isso no mundo, na relação entre dono e escravo? Quando o escravo regressa do trabalho, porventura o dono lhe dirá: «Vem e senta-te à mesa»? Não lhe dirá antes: «Prepara a refeição, serve-me, e depois comerás e beberás tu»? Deverá acaso agradecer-lhe por ter feito a sua tarefa? Não, isto não pode acontecer, e assim os apóstolos, enviados a trabalhar na vinha do Senhor, quando terminarem o trabalho deverão dizer: «Somos servos inúteis, fizemos o que devíamos ter feito».

No seguimento de Jesus não se reivindica nada, não se pretendem reconhecimentos, não se esperam prémios, porque nem sequer a tarefa realizada se torna garantia ou mérito. O que se faz pelo Senhor, faz-se gratuitamente e bem, por amor e na liberdade, não para ter um prémio… Infelizmente na vida da Igreja os prémios, os méritos são dados por si para si mesma, e nem sequer há algo a esperar de Deus!

 

Enzo Bianchi
In “Monastero di Bose”


Trad. / edição: Rui Jorge Martins
Publicado em 30.09.2016

Leave a Reply

You can use these HTML tags

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>