cardeal Comastri: o Evangelho vivido 100% – é esta a mensagem de Madre Teresa

Madre Teresa e Angelo Comastri - RV

Alessandro Gisotti – 03/09/2016 

Foto: Madre Teresa e Angelo Comastri – RV

Uma Santa testemunha do Evangelho, “uma cristã 100 por cento”.  É assim que o cardeal Angelo Comastri define Madre Teresa. O cardeal encontrou-se muitas vezes com a fundadora das Missionárias da Caridade e publicou recentemente um livro sobre ela intitulado “Eu conheci uma Santa”. 

Entrevistado por Alessandro Gisotti, o Cardeal Comastri enfatiza o valor da canonização de Madre Teresa para a Igreja e para o mundo

R – Madre Teresa todas as vezes que encontrava as pessoas, deixava uma marca no coração e certamente a canonização vai deixar uma marca nos corações de muitas pessoas lembrando-nos o testemunho que nos deu. A síntese podemos encontrá-la nas palavras de Ricciardetto, o famoso Augusto Guerriero, quando se encontrou com Madre Teresa e afirmou: ‘Eu nunca tinha visto um Santo. De repente, percebi a futilidade dos interesses que marcaram a minha vida: a vaidade das paixões, a vaidade das ambições. E imediatamente entendi que há um só ideal pelo qual vale a pena viver: a caridade’. Eis aí, quando você se encontrava com Madre Teresa, ela fazia você sentir vergonha de ser egoísta. Você percebia que o egoísmo é estridente, é absurdo! Porque devemos compartilhar tudo o que temos.  Ela costumava dizer: ‘O escândalo não são as desigualdades, porque há os que são mais inteligentes e os que são menos inteligentes, os que têm mais saúde e os que têm menos saúde, os que são mais laboriosos e os que são menos laboriosos. O escândalo está em não compartilhar’. Madre Teresa, quando falava nas reuniões, nas ruas, nas igrejas, dizia frequentemente: ‘Saiam do egoísmo! Venham para o lado do amor. Estamos esperando vocês para fazer-vos felizes!’. Esta é em síntese a mensagem de Madre Teresa, mas, no fim das contas, é o Evangelho!

Madre Teresa, quando lhe perguntavam qual era o seu segredo, muitas vezes respondia com simplicidade: ‘Rezo’. Portanto, há claramente este elemento fortíssimo da oração como fonte de tudo o que ela conseguiu fazer. É um exemplo que obviamente é visto como inatingível, mas ela mesma dizia que todos somos chamados à santidade …

R – A santidade é o objetivo da vida de todos; a santidade não é senão viver a caridade, viver dando, pois ela dizia sempre: ‘Fomos criados para amar e é amando que se atinge a meta da vida; e é amando que se alcança a felicidade’.

Quando em 1969 Malcolm Mudgeridge, famoso jornalista da BBC foi a Calcutá para fazer um documentário sobre a vida de Madre Teresa e das suas irmãs, ficou chocado quando entrou na Casa do Coração Imaculado, dois quartos enormes onde Madre Teresa e as irmãs acolhiam as pessoas pobres jogadas nas ruas de Calcutá, na verdade poderíamos dizer, nos esgotos de Calcutá.

  • Então este jornalista disse: ‘Mas aqui dentro há pobreza, há miséria, há pessoas esqueléticas … Aqui há o suficiente para se poder chamá-lo de inferno. No entanto aqui todos sorriem. Por quê?’.
  • Madre Teresa respondeu: ‘Senhor, este não é um inferno. Este é um paraíso, porque aqui há amor. E é o amor que faz o paraíso’.
  • E ele retrucou: ‘Sim, Madre, isso pode até ser verdade, mas onde vocês encontram a força para sorrir?’.
  • A Madre disse: “Venha amanhã de manhã às 6 horas’. Madre Teresa esperou-o na entrada da Casa de Calcutá e levou-o à capela onde o grupo de freiras, ajoelhadas no chão, participava da Eucaristia. Terminada a missa, a Madre disse ao jornalista: ‘O senhor vê, o segredo está todo aqui. Na missa, Jesus põe-nos o amor no coração. E depois nós vamos levá-lo aos pobres que encontramos’.  Malcolm Mudgeridge acrescentou: ‘Fiquei verdadeiramente impressionado. Com o passar dos dias eu me interrogava sobre este segredo que eu não conseguia entender, até que finalmente –  foi ele que o contou –  eu decidi: quero tornar-me católico para participar daquela Eucaristia que produz naquelas irmãs a caridade’. Esta é a motivação. E tornou-se católico!

Madre Teresa também entrou na linguagem, na cultura. A toda a hora ouvimos: “Não sou a Madre Teresa!”, como para identificar esta pessoa com o bem, de alguma forma o bem absoluto. Como foi possível o sucesso também em termos de popularidade de uma mulher que no entanto tinha posições muito fortes, mesmo contra a opinião da maioria, como por exemplo sobre o aborto, ou o que disse ao receber o Prêmio Nobel da Paz …

R –  Não devemos mitificar Madre TeresaEra simplesmente uma cristã: 100% cristã!

Quando um grupo de professores americanos foram a Calcutá após o Prêmio Nobel da Paz, ficaram impressionados ao ver a sua caridade.

  • Disseram-lhe: ‘Madre, quando voltarmos para casa, há alguma coisa que devemos fazer? Nós também queremos fazer alguma coisa. O que podemos fazer?’.
  • E Madre Teresa respondeu, com simplicidade: ‘Voltando para casa, sorriam para as vossas esposas, sorriam para os vossos filhos, porque o amor começa em casa. Se vocês levarem o amor para as vossas casas, o amor irá se espalhar pelo mundo, porque o mundo é como são as famílias: se vocês formam boas famílias, vocês renovam o mundo. Tudo começa com um sorriso, o resto vem depois’.

“A paz começa com um sorriso,” uma outra frase famosa de Madre Teresa. Às vezes parecem quase frases simples demais, mas na realidade são as mais difíceis de pôr em prática. Talvez nisto lembre um pouco também o Papa Francisco, com a simplicidade das suas palavras …

R –  Exatamente. O Evangelho, no fim das contas, é muito simples. É o que nos lembra Madre Teresa, o que nos lembra o Papa, o que nos lembrava João Paulo II, o que nos lembram todos os Santos. Quando se vive o Evangelho, então percebe-se que o mundo pode realmente mudar. Madre Teresa dizia: ‘Todos podeis arrumar um pequeno pedaço de história’. E quando uma vez lhe disseram: ‘Madre, a senhora vê tanta injustiça no mundo. Por que não protesta? Por que não grita?’, ela respondeu: ‘Enquanto gritamos, há escuridão, há escuridão. Não se acende a luz. Acendam a luz’. Esta é a coisa mais importante!

Após esta Canonização de Madre Teresa no Jubileu da Misericórdia, qual é a sua esperança? O que devemos esperar todos nós como fruto desta semeadura começada há tantos, tantos anos atrás, com a escolha feita por Madre Teresa de dedicar-se inteiramente a Deus e aos últimos?

R – Eu creio que a mensagem pode ser sintetizada com as palavras que ela disse na ONU em 1985, quando o Secretário-Geral Pérez de Cuéllar a apresentou de uma forma pomposa e disse: ‘Desta tribuna falaram todos os grandes da Terra. Hoje eu vos apresento a mulher mais poderosa da Terra’. Madre Teresa, ao lado, simples, humilde, quando ouviu estas palavras certamente não aprovou. Mas quando tomou a palavra disse: ‘Eu tento trazer ao mundo o amor que Jesus me põe no coração. Rezando, Jesus me enche o coração de amor’. E dirigindo-se à assembleia da ONU, com o indefectível terço na mão, disse: “Rezai também vós. Jesus vos porá no coração o seu amor e notareis a presença dos pobres que tendes ao lado, talvez no patamar da vossa casa; talvez na vossa família haja alguém que precisa do vosso amor. Façam alguma coisa! Imediatamente! Algo concreto. O mundo muda assim’.

 

 Alessandro Gisotti ن

Alessandro Gisotti

Fonte: http://it.radiovaticana.va/news/2016/09/03/comastri_madre_teresa,_testimone_vangelo_al_100_per_cento/1255385

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