Madre Teresa, mulher e santa dos pobres

A Índia, sempre muito sensível ao sentido religioso, não a via «como uma mulher que curava os doentes, mas como o sinal humano de que Deus estava presente naqueles pobres e naquelas irmãs»

Andrea Tornielli – 03 de Setembro de 2016

Em apenas 50 anos desde a aprovação pontifícia querida por Paulo VI em 1964, as Missionárias da Caridade, fundadas por Madre Teresa de Calcutá, cresceram de algumas centenas a mais de 5300 religiosas em 758 casas espalhadas pelo mundo. Mas seria um erro grosseiro ler a história desta pequena mulher albanesa cheia de rugas, frágil como uma borboleta e corajosa como uma leoa, à luz das estatísticas ou dos “sucessos” numéricos.

 Madre Teresa levou com grande força ao centro da sua vida, e por isso do seu testemunho, o amor incondicional pelos pobres, pelos últimos. Por aqueles pobres e aqueles últimos que recolhia pelas ruas de Calcutá, conseguindo apenas, na maior parte dos casos, assegurar-lhes uma morte digna e rodeada de amor. Esse amor que nunca tinham podido experimentar ao longo da sua vida de mendigos ou descartados pela sociedade das castas.

A pequena grande irmã que agora vai ser proclamada santa não fundou uma ONG. Na casa-mãe das Missionárias da Caridade, à entrada destacou-se sempre um crucifixo com as palavras «I thirst!» («Tenho sede!). As palavras de Jesus no Calvário.

O amor pelos pobres, a assistência àqueles que ninguém quer assistir, tocar e curar foi originado e recobrou diariamente força na oração: uma hora de oração e ao todo três horas de oração ao dia.

«Não lhe parece demasiado longo este tempo dedicado à oração?», perguntou um dia um visitante. «Não – foi a resposta de Madre Teresa -, não se pode fazer o nosso trabalho se não por amor e por graça de Cristo. A nossa força são as horas de adoração».

Outro aspeto importante do seu testemunho foi a sua capacidade de ser indiana entre os indianos. Não se apresentou como uma missionária ocidental com o olho no proselitismo. Queria apenas fazer brilhar o rosto da misericórdia de Deus entre os miseráveis e os pobres. Deixando a Deus toda a iniciativa no coração daqueles que a contactavam.

 

A Índia, sempre muito sensível ao sentido religioso, observou o padre Piero Gheddo, não a via «como uma mulher que curava os doentes, mas como o sinal humano de que Deus estava presente naqueles pobres e naquelas irmãs». Viu-se isso nos seus funerais de Estado, em 1997.

Madre Teresa não fez

  • grandes planos,
  • complicados projetos pastorais,
  • estratégias mediáticas
  • ou de marketing religioso.

Curou o primeiro leproso que encontro no seu caminho. Depois o segundo, o terceiro e por aí diante. Reconhecendo no rosto do homem e da mulher sofredores e abandonados nos passeios o rosto de Jesus. Simplesmente porque assim Jesus pediu que fosse feito, como se lê no capítulo 25 do Evangelho segundo Mateus.

E não quis grandes estruturas ou grandes seguranças para as suas irmãs, às quais é pedida uma vida austera e de sacrifícios. Não quis ter conta no banco para garantir o futuro da sua congregação, gastando tudo o que recebia, «porque o nosso perigo maior é tornarmo-nos ricos».

Mostrou que no amor, no acompanhamento, na proximidade não há vida que não valha a pena ser vivida até ao último respiro.

Não foi evangelizar os pobres, deixou-se evangelizar por eles. «Os pobres são a reserva de humanidade de que todos temos necessidade, a reserva de amor, a reserva da capacidade de sofrer e de se alegrar. Dão-nos mais do que nós lhes damos», afirmou.

Foi e é uma santa “contracorrente” porque durante uma longa parte da sua vida experimentou a obscuridade, as dúvidas de fé. Por muitos anos não pôde escutar a voz de Deus. Esta humaníssima e trágica experiência torna-a infinitamente distante da imagem de uma pagela hagiográfica.

 

Foi e é contracorrente pela sua defesa da família e da vida. No discurso por ocasião do Prémio Nobel que lhe foi atribuído em 1979, disse: «Hoje o aborto é o maior destruidor da paz, porque se uma mãe pode matar o próprio filho, não há mais nada que me impeça de te matar e a ti de me matar».

Mas foi e é contracorrente também em relação a quantos pensam, na base de velhas agendas, que a necessária valorização da mulher – ainda por realizar na Igreja – passa através de uma sua “clericalização”, como sacerdotisas ou diaconisas ordenadas. Madre Teresa não tinha poder institucional na Igreja, e todavia cardeais e papas inclinaram-se diante dela.

Foi e é, por fim, contracorrente diante de um certo catolicismo contemporâneo que se reveste com o manto da virtude moral e da fixação doutrinal, que parece experimentar desconforto diante da insistência no amor concreto e incondicional pelos pobres.

Se hoje fosse viva, Madre Teresa estaria em Lesbos ou Lampedusa, a tratar as feridas dos migrantes e refugiados.

 

Andrea Tornielli 1Andrea Tornielli

In “Vatican Insider”  – Trad.: Rui Jorge Martins – Publicado em 03.09.2016

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