Ratzinger: “Comunhão profunda e amizade com Francisco”

 ANDREA TORNIELLI  – CIDADE DO VATICANO – 24/08/2016

Foto: Francisco e Bento XVI 

O colóquio do Papa Emérito com Elio Guerriero: “O que ele diz da disponibilidade para com os outros homens, não são somente palavras. Ele a põe em prática comigo”. Decisivo para a renúncia o não sentir-se em condições de enfrentar a viagem ao Rio para a JMJ

“A obediência ao meu sucessor nunca estevem discussão. Mas além disso há o sentimento de comunhão profunda e de amizade”. São palavras do Papa Emérito. Dentro de poucos dias será publicado o livro-entrevista de Peter Seewald com Bento XVI, conversas que ocorreram após a histórica decisão de renunciar ao papado. O livro intitula-se “Ultime conversazioni” [Últimas conversas].

Mas, como um “amostra” desses colóquios, o jornal ‘La Repubblica’ publicou um diálogo entre Ratzinger e o editor das suas obras em língua italiana, Elio Guerriero, que teve a oportunidade de conversar com o Ex-Pontífice.

Guerriero é autor de uma biografia de Ratzinger que sairá no dia 30 de agosto, intitulada Servo de Deus e da humanidade. A biografia de Bento XVI(Milão, Mondadori, 2016, 542 páginas, € 24). Elio Guerriero foi por muito tempo responsável editorial da editora Jaca Book e de Edizioni San Paolo, e diretor por mais de 20 anos da edição italiana da revista “Communio”.

São portanto significativas, na entrevista publicada no ‘La Repubblica’, as confirmações sobre os tempos em que amadureceu a decisão da renúncia e o papel das viagens intercontinentais, em particular, a prevista ao Rio de Janeiro em julho de 2013, para a JMJ, que Bento não se sentia em condições de fazer.

A 3  anni dalla rinuncia-Ratzinger, Paglia: lo spinse la misericordia

Francisco, aberta a Porta santa, espera Bento XVI, que a atravessa como um simples fiel (8 de dezembro de 2015)

 

“Havia uma série de compromissos que eu achava não poder concluir – contou Ratzinger. – Em particular já havia sido definida a data do Dia Mundial da Juventude, que devia acontecer no verão de 2013, no Rio de Janeiro no Brasil. Ora, a este respeito, eu tinha duas convicções bem precisas.

Depois da experiência da viagem ao México e a Cuba, já não me sentia em condições de realizar uma viagem tão cansativa. Além disso, com o formato estabelecido por João Paulo II para estas jornadas, a presença física do Papa era indispensável. Não se podia pensar numa comunicação pela TV ou em outras formas oferecidas pela tecnologia. Esta também era uma circunstância devido à qual a renúncia era para mim um dever”.

“A viagem ao México e a Cuba – continuou o Papa emérito referindo-se à viagem de março de 2012 – tinha sido para mim boa e tocante sob muitos pontos de vista. No México, fiquei impressionado ao encontrar a profunda fé de muitos jovens, experimentando a sua alegre paixão para com Deus. Fiquei igualmente impressionado pelos grandes problemas da sociedade mexicana e pelo compromisso da Igreja para encontrar, com base na fé, uma resposta ao desafio da pobreza e da violência.

Não há, ao contrário, necessidade de lembrar expressamente como em Cuba fiquei impressionado ao ver o modo com que Raul Castro quer conduzir o seu país por uma nova estrada sem romper a continuidade com o passado imediato. Também aqui me impressionou muito a maneira como os meus irmãos no episcopado procuram encontrar a orientação, com base na fé, neste difícil processo.

No entanto, naqueles mesmos dias, experimentei muito intensamente os limites da minha resistência física. Percebi sobretudo que eu não estava mais em condições de enfrentar no futuro voos transoceânicos devido ao problema do fuso horário. Naturalmente falei destes problemas também com o meu médico, o professor Patrizio Polisca.

Desta maneira ficou claro que eu já não teria condições de participar da Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro, no verão de 2013, pois a isso se opunha claramente o problema do fuso horário. Desde então tive que decidir num prazo relativamente curto sobre a data da minha aposentadoria”.

Na parte final do colóquio, Bento XVI fala do seu sucessor Francisco.

“A obediência ao meu sucessor nunca esteve em discussão. Mas, além disso, há o sentimento de profunda comunhão e amizade. No momento da sua eleição eu experimentei, como muitos outros, um sentimento espontâneo de gratidão para com a Providência.

Depois de dois papas provenientes da Europa Central, o Senhor volvia por assim dizer o seu olhar para a Igreja universal e convidava-nos a uma comunhão mais ampla, mais católica. Pessoalmente fiquei profundamente tocado desde o primeiro momento pela extraordinária disponibilidade humana do Papa Francisco em relação a mim.

Imediatamente após a sua eleição, ele tentou falar comigo por telefone. Não tendo êxito nessa tentativa, telefonou-me mais uma vez imediatamente após o encontro com a Igreja universal do balcão de São Pedro e falou-me com grande cordialidade. Desde então, ele tem me presenteado com um relacionamento maravilhosamente paterno-fraterno.

Frequentemente chegam-me aqui em cima pequenos presentes, cartas escritas pessoalmente. Antes de realizar grandes viagens, o Papa nunca deixa de me visitar. A benevolência humana com que ele me trata, é para mim uma graça especial desta última fase da minha vida pela qual eu só posso ser grato.

O que ele diz da disponibidade para com os outros homens, não são apenas palavras. Ele a põe em prática comigo. Que o Senhor o faça sentir por sua vez cada dia a sua benevolência. Por isso eu rezo ao Senhor por ele“.

 

Andrea Tornielli 1

Andrea Tornielli

 Fonte : http://www.lastampa.it/2016/08/24/vaticaninsider/ita/vaticano/ratzinger-comunione-profonda-e-amicizia-con-francesco-98RM2BPOc4aeHSmN5Elv3H/pagina.html

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