O bispo clandestino: o “acordo China-Santa Sé, quanto mais cedo chegar, melhor”

GIANNI VALENTE – 12/08/2016

Foto: Fiéis chineses em oração – Lapresse

Fala Mons. José Wei Jingyi, bispo não reconhecido pelo governo chinês: “Para permanecer fiel à Sé apostólica, aceitei tornar-me um bispo ‘clandestino’. Como poderia agora rejeitar o que vem do Papa e da Santa Sé? “

Uma “Conferência Episcopal chinesa em comunhão com o Papa” é “o que nós esperamos ver e [o motivo] pelo qual temos orado por muito tempo”. É assim que pensa José Wei Jingyi, bispo católico “clandestino” de Qiqihar, na província de Heilongjiang.

Wei é um conhecido expoente da Igreja chinesa dita ‘clandestina’: expressão infeliz e enganosa usada para indicar a parcela de bispos, sacerdotes e fiéis que não se submetem aos organismos e métodos da política religiosa de Pequim. No passado, Wei viveu três períodos de detenção e de restrição das liberdades pessoais, o mais longo dos quais durou mais de dois anos, entre setembro de 1990 e dezembro de 1992.

Vatican Insider fez-lhe algumas perguntas, tendo em vista o recente artigo publicado pelo cardeal John Tong sobre possíveis desenvolvimentos do diálogo China-Santa Sé em torno dos procedimentos para a nomeação de bispos chineses. Processo sobre o qual o Bispo se expressa com a liberdade e a sensibilidade do pastor que cuida das almas: manifestando também a esperança de que este tempo de possíveis e desejadas mudanças “seja acompanhado por frutos de conversão em todos nós”.

 

Eis a Entrevista

Dom José Wei, (foto abaixo) como bispo chinês, o que impressionou mais na intervenção do cardeal John Tong sobre os possíveis desenvolvimentos nas relações entre a Santa Sé, a Igreja na China e o governo chinês acerca da nomeação dos bispos?

O argo do cardeal Tong sobre a “comunhão da Igreja na China com a Igreja universal” impressionou-me pela sua novidade. O que mais me impressionou foi a luz que Tong recebeu do céu, que o iluminou e o fez ver com novos olhos toda a questão. Ele parte do modo escolhido por Deus para dialogar com o homem, e sugere que também se olhe com esse mesmo olhar o diálogo entre a Santa Sé e Pequim. Por isso ele consegue prefigurar desenvolvimentos tão importantes e positivos.

O Cardeal Tong escreve que “a Santa Sé tem a autoridade para estabelecer a modalidade mais oportuna para a nomeação dos bispos na China”, e que o Papa “tem autoridade específica para considerar as condições particulares da Igreja no País e estabelecer leis especiais, que porém não violem os princípios da fé e não destruam a comunhão eclesial “. Os bispos ditos ‘clandestinos’, incluindo o senhor, estão prontos a reconhecer esse fato?

Exercendo a sua autoridade nestas questões, o Papa e a Santa Sé certamente não contradizem a fé e não prejudicam a comunhão e unidade da Igreja. Os fiéis chineses que vivem na China, clandestinos ou oficiais, todos são católicos. E os católicos são fiéis à Sé apostólica. É para permanecer fiel à Sé Apostólica de Roma que eu aceitei tornar-me um bispo ‘clandestino’! Como poderia agora não aceitar o que é indicado pela Santa Sé? É para confessar explicitamente a nossa fidelidade ao Papa e à Sé apostólica que nos tornamos um comunidade ‘clandestina’, isto é, não registrada oficialmente nos órgãos civis. E então, como poderíamos agora rejeitar o que vem do Papa e da Santa Sé?

Em seu longo ensaio, o cardeal Tong escreve: “Alguns estão preocupados [com a possibilidade de] que as negociações entre a China e o Vaticano tenham como consequência o abandono dos bispos não oficiais”. O senhor, que é um bispo não reconhecido pelo governo, o que acha disso?

Eu me pergunto: quais são as prerrogativas legítimas das comunidades clandestinas que correm o risco de ser contrariadas ou frustradas nas negociações entre a China e a Santa Sé? Há o Direito canónico e o Direito civil, mas de ambos os pontos de vista, o diálogo entre a Santa Sé e o governo chinês não sacrificará nenhuma instância legítima das comunidades clandestinas.

Acerca das preocupações de que na negociação a Sé Apostólica possa esquecer os bispos presos, elas parecem completamente sem fundamento. Como pode a Igreja, que é mãe, esquecer os próprios filhos que, mesmo à custa de sofrimentos, confessam a sua fé? É impossível, porque é impossível que o Espírito Santo abandone a Igreja.

O cardeal Tong escreve que a Santa Sé, com o acordo em discussão, quer promover a plena comunhão da Igreja na China, e imagina uma Conferência episcopal que reúna todos os bispos em comunhão com o Papa, após serem resolvidos os casos de bispos ilegítimos e excomungados. Poderiam existir resistências nas comunidades chinesas, depois de tantas décadas de divisão?

A Igreja de Deus que caminha na história é feita de pecadores. Se tomar forma uma Conferência Episcopal Chinesa em comunhão com o Papa, todos esses bispos serão pessoas convertidas para caminharem juntas para o Reino de Deus. Essa visão, essa perspectiva é belíssima. É o que nós esperamos ver há muito tempo, pelo que rezamos há tanto tempo. A comunidade dos fiéis chineses não terá objeções. Mas esperamos também que isto seja acompanho por frutos de conversão em todos nós.

É um tempo em que todos nós temos que olhar a condição concreta do Filho Pródigo narrada no Evangelho, do filho que havia estado longe durante anos e que para viver tinha acabado cuidando dos porcos. Pode-se imaginar que ele também cheirasse a porco, e que portanto, ao voltar para casa, se tenha lavado assim que foi possível, porque ninguém quer ficar perto de pessoas que fedem.

Não queremos ver o Filho Pródigo que, depois de ser abraçado pelo pai, volta a mexer com os porcos, a revolver-se na lama deles, e não pede para ser libertado da sujeira e do mau cheiro. Se alguém se comporta assim, e volta para a lama, quer dizer que não tem nenhuma identidade, nenhum sentimento de pertença, e todos fugirão para longe dele.

O senhor ouviu alguma coisa sobre os conteúdos das negociações entre a Santa Sé e o Governo chinês?

Não conhecemos os detalhes, mas sabemos que estão trabalhando, que os trabalhos prosseguem, e portanto significa que as coisas estão avançando. Não se deve ter pressa, porque é bom que se trabalhe com calma. Mas, ao mesmo tempo, esperamos que em breve se chegue a um resultado concreto, que seja bom para todos. E quanto mais cedo chegar, melhor será.

Segundo alguns comentadores, o diálogo é ilusório e até mesmo prejudicial se primeiro não se elimina o peso da Associação Patriótica. As coisas são assim?

Quando duas realidades começam a negociar devem estar livres para falar sobre tudo. Também sobre a Associação Patriótica. Mas sem impor pré-condições. Temos de dizer o que pensamos, até dar sugestões, mas o Papa deve sentir principalmente o nosso total apoio, e que confiamos nele. Não devemos pretender condicioná-lo, dizer o que deve ou não fazer, ou mesmo pretender impor-lhe as nossas ideias. No Evangelho, Jesus deu a Pedro a tarefa de confirmar os irmãos na fé. O próprio Jesus ajuda o Papa nesta tarefa. E nós não devemos ter a pretensão de ensinar a ele como se faz.

Mas se alguém, em sã consciência, tem dúvidas?

O critério a ser seguido não são as próprias opiniões, mas o Evangelho e a fé dos Apóstolos. Ninguém pode acreditar que as suas ideias são superiores às palavras de Jesus. E Jesus, no Evangelho, disse-nos também para confiar em Pedro, o Apóstolo que o havia traído e que Ele perdoou, porque é Ele mesmo que sustenta Pedro. Claro, temos que seguir a verdade que percebemos na nossa consciência. Mas é a fé que ilumina a nossa consciência, e não vice-versa.

Quais são as grandes oportunidades e também as insídias mais perigosas que o senhor vê, como pastor, o presente e no futuro da Igreja na China?

Neste momento, na sociedade chinesa sente-se que há necessidade de pontos de referência morais, porque a corrupção arruína e destrói tudo. Portando percebe-se uma aspiração generalizada ao bem, a fazer as coisas respeitando os outros e o bem comum. E deste modo, no meu entender, está se difundindo também um clima favorável ao espírito do Evangelho. Vemos que podemos colaborar. A sociedade chinesa espera de nós cristãos uma contribuição positiva e construtiva. O risco é que não aproveitemos esta circunstância favorável, porque estamos ocupados e nos perdemos com outras coisas. Seria como uma renúncia a anunciar o Evangelho, num momento em que muitos poderiam recebê-lo com alegria.

Cina-Santa Sede, parla  Tong “per evitare incomprensioni”

Ainda o cardeal Tong  (Foto):  há alguns meses, ele tinha reiterado a necessidade de “achinesar” a Igreja na China, de modo que nunca seja percebida como um fator de colonização religiosa. É um processo insidioso?

Mas já Matteo Ricci não trouxe para a China o “Evangelho italiano” ou o “Evangelho francês.” Ele trouxe o Evangelho. E seguiu a maneira chinesa para fazê-lo chegar aos chineses.

As homilias e os discursos do Papa Francisco continuam a ser facilmente acessíveis, em terra chinesa?

Sim. São publicados em muitos ‘sites’ da internet, e passam de pessoa a pessoa. Estamos seguindo passo a passo todas as sugestões relacionadas com o Ano Santo da Misericórdia. Vejo também na internet que muitos chineses vão ver o Papa nas audiências gerais, em Roma, e se encontram com ele na Praça São Pedro. Ele saúda-os frequentemente. Em comparação com o passado, para os chineses tornou-se mais fácil chegar a Roma e ver ou até mesmo cumprimentar o Papa. Há uma proximidade visível com o Bispo de Roma, que não existia antes. As coisas mudaram e continuam a mudar.

Poderá também evoluir o papel da Associação Patriótica?

Pessoalmente, espero que com o tempo ela se torne uma coisa do passado. Porque muitos têm uma má lembrança do papel desempenhado por ela, em muitas situações. O importante é encontrar novas formas de ajudar os católicos a expressar também o seu amor pela Pátria.

Imagem relacionada

O senhor deverá ter acompanhado o caso de Thaddeus Ma Daqin (Foto), bispo de Xangai, e da sua manifestação sobre o papel positivo da Associação Patriótica. Alguns rotularam-no como um vira-casaca, um traidor.

Ninguém se pode dar ao luxo de julgar, difamar e malhar os outros como traidores. Ninguém tem o direito de fazê-lo, e quem o faz, faz uma coisa muito ruim. O que sabemos nós sobre o que há no coração de Thaddeus Ma Daqin, depois da experiência que ele viveu, e depois ter sido impedido por quatro anos de exercer o múnus de bispo?

O senhor pode imaginar melhor do que nós o que se passou no coração do Bispo Ma.

Eu não tive as mesmas experiências. Mas a solidão sim, e também o fato de ser levado de um lugar para outro. Nessas circunstâncias, nunca estás sozinho: estás diante de Deus, e o que pensas e fazes, tu o pensas e o fazes diante de Deus. Talvez não vejas os fiéis, talvez outros te tenham traído, mas estás sempre diante de Deus. E isso vale mais. Rezemos por Ma Daqin com respeito, sem nos permitirmos julgar o coração dos outros.

O Padre Lombardi, diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, disse que o Papa reza por Ma Daqin e por todos os chineses.

O Papa é um pai, vê e julga as coisas com olhar de pai. O bispo Ma Daqin é um homem que reza, o Papa sabe disso e confia nele. Para um pai, a coisa mais importante é mostrar o seu amor pelos seus filhos.

 

Gianni Valente xx

Gianni Valente

Fonte: http://www.lastampa.it/2016/08/12/vaticaninsider/ita/inchieste-e-interviste/il-vescovo-clandestino-laccordo-cinasanta-sede-prima-arriva-meglio-tWFfTI9wP1iR8mkjV5VO1J/pagina.html

 

 

 

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