Benin, o hospital que une cristãos e muçulmanos

CRISTINA UGUCCIONI – 09/08/2016 – Em Tanguiéta

Histórias de convivência entre crentes em Cristo e muçulmanos. Viagem a Tanguiéta onde existe um centro médico fundado pela Ordem Hospitaleira de São João de Deus [conhecida na Itália como ‘Fatebenefratelli’]. 

Falam o diretor, frei Fiorenzo Priuli, e Cheikh Moussa Aboubacar, Califa do Níger (na foto)

  “A convivência de cristãos e muçulmanos, aqui no Benin, é pacífica: costumo dizer que, se as relações entre os fiéis das duas religiões fossem assim em todos os lugares, não assistiríamos aos dramas que hoje ensanguentam muitas áreas do mundo”. São palavras do irmão Fiorenzo Priuli, 70, médico cirurgião, um referencial para milhares de pacientes africanos, consultor da OMS (Organização Mundial da Saúde) para a AIDS e para as doenças infecciosas, agraciado com a Legião de Honra pelo Presidente da República Francesa.

Ele diz de si mesmo: “Agradeço ao Senhor que me chamou a colaborar com ele na maravilhosa obra de cuidar de quem sofre e proteger a vida.”

Há mais de 40 anos vive numa pequena cidade no norte do país, Tanguiéta, onde dirige o hospital São João de Deus, um centro de excelência da medicina africana, fundado em 1970 pelos religiosos da Ordem Hospitaleira de São João de Deus, conhecido como ‘Fatebenefratelli’ [na Itália]. Na época, oferecia 82 leitos, hoje são 415.

A história deste grande hospital, que se tornou também um centro universitário, fala das boas relações que surgem entre os seres humanos de diferentes religiões quando compartilham a responsabilidade para com o ser humano ferido e se aliam dando o seu melhor para reerguer vidas prostradas pelas doenças. Laços fortes que ultrapassam as fronteiras dos Estados.

Objetivo comum: a cura

Os médicos do hospital, incluindo os residentes, são 25, enquanto o pessoal paramédico e administrativo é formado por trezentas pessoas. “Muitos são muçulmanos (como por exemplo o meu assistente na sala de cirurgia, que se casou recentemente com uma enfermeira católica) e as relações entre todos nós são ótimas” – conta o irmão Fiorenzo.

“Trabalhamos juntos dia e noite movidos por um objetivo comum: tentar oferecer a melhor assistência possível aos milhares de doentes que chegam aqui, não raro, depois de enfrentar viagens longas e extenuantes. Todos os anos temos 18 a 20 mil novos pacientes (dos quais 5 mil crianças) provenientes dos países vizinhos (Togo, Burkina Faso, Níger, Nigéria): 14 mil são hospitalizadas, enquanto os outros são assistidos em ambulatórios”.

As crianças doentes

O clima nesta região é particularmente rigoroso: durante alguns meses as temperaturas atingem os 43 graus de dia e de noite; a estação seca dura mais de 6 meses, e isso favorece a disseminação das doenças, que às vezes se espalham até de forma epidêmica (como sarampo, febre tifoide, meningite).

“O trabalho a fazer é sempre muitíssimo” – diz o irmão Fiorenzo: “O setor de pediatria, que tem 111 leitos, nunca tem menos de 130-140 pacientes internados, às vezes até trezentos. Infelizmente ainda hoje acontece que as crianças cheguem ao hospital quando já se encontram em condições gravíssimas, porque os pais preferiram tentar curá-los entregando-os aos cuidados do feiticeiro local. A religião mais difundida, de fato, é o animismo, aqui no norte, e o fetichismo no resto do país. Nós, cristãos, somos cerca de 15% da população, e os muçulmanos 15 a 18% “.

As autoridades religiosas

“Com as autoridades religiosas islâmicas tenho relações excelentes” – continua o irmão Fiorenzo. “Encontramo-nos e colaboramos buscando ao máximo o bem-estar da população: por exemplo, quando vêm médicos especialistas do exterior que se colocam à disposição dos pacientes, eu falo com o presidente da União Islâmica do país para explicar-lhe os detalhes da missão médica e depois é ele que se encarrega de espalhar capilarmente a notícia nas mesquitas de modo que todos sejam informados”.

A amizade com o califa de Kiota

Cerca de trinta anos atrás, entre os pacientes do hospital havia um muçulmano originário de Kiota (cidade do Níger, a 700 quilômetros de Tanguiéta), que, depois de voltar para casa, contou da ótima assistência recebida ao califa de Kiota, guia espiritual respeitado da Irmandade Tijaniyya, de inspiração Sufi.

Desde então o califa começou a mandar regularmente os doentes para o hospital de Tanguiéta, dando a cada um uma carta na qual descrevia ao irmão Fiorenzo o caso clínico prometendo-lhe que se lembraria dele nas orações de sexta-feira na mesquita.

“O califa era um homem de paz, muito aberto, sinceramente comprometido com o diálogo inter-religioso: quando morreu, a primeira pessoa que acorreu para velar os seus restos mortais foi o Arcebispo de Niamey” – recorda o irmão Fiorenzo. “O nosso relacionamento foi apenas epistolar, nunca nos encontrámos, mas ficámos amigos, ligados por estima e afeição recíprocas”.

De pai para filho

A continuar o trabalho do califa está agora o filho, Sheik Moussa Aboubacar Hassouni, 56 anos, casado e pai de quatro filhos, líder religioso e diretor da Universidade El Azhar, em Kiota. Faz parte da comissão inter-regional para o diálogo inter-religioso, é presidente do “Comitê do Diálogo Inter-religioso” da região de Niamey e está concluindo a elaboração de um manual de formação sobre este tema como consultor de uma organização parceira da União Europeia.

 A situação no Níger

“Nas reuniões dedicadas ao diálogo – diz ele – levo o exemplo do Níger, onde as relações entre cristãos e muçulmanos são cordiais e tranquilas, baseadas na colaboração e no respeito mútuo. É sempre minha vontade apoiar e defender um Islã pacífico, neste caso, o Islão Sufi e a Irmandade Tijaniyya, que é majoritário no meu país”.

O irmão Fiorenzo descreve o califa como um homem fiel à obra e ao estilo do pai.

“Esta continuidade tem para mim um grande valor. Ainda me lembro com emoção da festa que ele organizou em minha honra em Kiota, alguns anos atrás: foram convidados muitos dos meus pacientes de todas as partes do Níger. Recebi manifestações extraordinárias de afeto e gratidão”.

O califa Moussa Aboubacar, por sua vez, tem palavras de admiração pelo frade:

“Nele impressionam-me a generosa disponibilidade e simplicidade: aprecio muito o seu desejo de tornar-se o servo de todos, sem fazer distinções com base na cor da pele, na crença religiosa ou política. É um homem de grande humanidade”.

A presença católica

E refletindo sobre a presença dos cristãos na África, observa:

“Estou convencido de que eles podem trazer para o continente africano paz, fraternidade, desenvolvimento. Os católicos no Níger construíram escolas e hospitais, colocando-os generosamente à disposição da população, que é predominantemente de fé islâmica. Também foram capazes de ficar ao lado das pessoas, partilhando as suas alegrias e dores. São gestos que os muçulmanos realmente apreciam muito”.

Fraternidade fecunda

As pessoas autenticamente religiosas (cristãs e muçulmanas) que trabalham juntas “podem apresentar ao mundo um testemunho importante, oferecer a prova de que a fraternidade e a compreensão mútua são possíveis” diz frei Fiorenzo.

De acordo com o califa Moussa Aboubacar

“elas constituem a base de que o mundo precisa hoje para construir a paz de amanhã. O exemplo mais concreto é oferecido exatamente pelas relações exemplares de amizade e fraternidade que unem o califado de Kiota e frei Fiorenzo: não se trata de simples amizade entre dois homens, mas de uma amizade de que participa a população, que é a sua primeira testemunha e a primeira  beneficiária”.

 

CRISTINA UGUCCIONI

http://www.lastampa.it/2016/08/09/vaticaninsider/ita/inchieste-e-interviste/tanguita-quellospedale-che-in-africa-unisce-cristiani-e-musulmani-zFvppxU1oxZWLBLm5PNtPO/pagina.html

 

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