Aumenta o tom opositor ao Papa?

Jaime Escobar – 01/08/2016Sarah e Muller

Sabe-se com certeza que depois do Sínodo da Família e da carta dos 13 prelados dissidentes, são vários os cardeais da Cúria Vaticana que manifestam mais do que uma simples oposição e, veladamente, reconhecem que não toleram mais os propósitos reformistas do Papa Francisco.

Muitos pensaram que esta oposição ao Papa Bergoglio diminuiria ao concluir-se o Sínodo, mas muito pelo contrário este ano tem acontecido uma série de eventos que mostram que cardeais como

  • Angelo Sodano,
  • Tarcisio Bertone,
  • Marc Ouellet,
  • George Pell,
  • Camilo Ruini,
  • Carlo Cafarra,
  • Giovanni Batista Re,
  • Angelo Scola,
  • Elio Sgreccia,
  • Walter Brandmüller,
  • Antonio Rouco …, encabeçados pelos purpurados-prefeitos de Dicastérios,
  • Gerhard Müller
  • e Robert Sarah, estão passando de suas posições ultraconservadoras da oposição direta à conspiração silenciosa contra Bergoglio.

Em Roma, este ambiente ocultado por muitos é observado e calado, mas é cada vez mais clara a rede sincronizada de operadores protegidos por estes poderosos cardeais que não hesitam em manifestar perante a imprensa uma “lealdade ao Santo Padre“, mas que das sombras semeiam medo, desconfiança e desobediência a certas linhas de ação propostas pelo Papa. Além disso, irrita-os o que ele pediu na Praça de São Pedro, no início do seu mandato: “uma Igreja pobre para os pobres“.

O Cardeal Müller: da carta e livro à desqualificação

Tudo o que queria o cardeal Müller quando terminou de redigir a polêmica Carta dos treze cardeais no final do último Sínodo, era que o Papa Francisco tivesse uma reação de imediata contrariedade … Mas esse fato não ocorreu e a Carta, no momento oportuno, teve mais uma resposta pontifícia de entendimento e compreensão para aquilo que os prelados criticavam tão duramente.

Recentemente a ação dos “cardeais inquietos” repetiu-se. Foi quando Francisco, na sua viagem à Armênia, reivindicou com palavras adequadas e prudentes um necessário diálogo ecumênico, acrescentando que a reforma de Lutero foi “um remédio para a Igreja“.

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Diante desta afirmação papal, Müller lançou uma rajada de fortes críticas a este reconhecimento histórico e globalizou a sua famosa sentença de “protestantização” da Igreja; apoiada pelas mais altas esferas do Vaticano, esta afirmação circulou com força e aceitação nos vários dicastérios.

Como é bem conhecida a distância e as diferenças – não apenas de índole teológica – que existem entre o cardeal Müller e o Papa, agora só vamos referir uma das últimas “diferenças” entre os dois e conhecida pela imprensa especializada romana.

A três meses da ida de Francisco à cidade sueca de Lund para participar da comemoração dos 500 anos da Reforma iniciada por Lutero, num tom desafiador Müller enfatizou que “nós católicos não temos nenhum motivo para celebrar o dia 31 de outubro 1517, ou seja, o início da Reforma que levou à ruptura da cristandade ocidental“.

É evidente que a forma, a oportunidade e o tom usado pelo cardeal alemão produziu perplexidade e não pouco desconcerto perante o governo da Suécia e na Federação Luterana Mundial.

O cardeal Müller também aproveitou a sua viagem a Madrid e Oviedo onde apresentou o seu polêmico livro “Informe sobre la esperanza” (Ed. BAC) para reafirmar posições doutrinárias diferentes das que postula Papa Francisco em Amoris Laetitia, reafirmando que é “uma contradição ” estar divorciado e recasado e querer comungar e insistiu em que “nenhum Papa pode mudar a doutrina sobre os sacramentos do matrimônio e da Eucaristia“.

Diante desses fatos preocupantes, observadores atentos da ‘nomenclatura’ vaticana indicam que estas ações e operações de cardeais “opositores ao Papa“, estão chegando a um limite inaceitável, não só porque prejudicam a necessária unidade eclesial para a missão, mas porque são sinais de que estão ativos poderosos interesses que querem desestabilizar a enorme liderança de Francisco, que persiste em seus propósitos de fazer algumas reformas determinantes na pesada e burocrática estrutura da Cúria vaticana que se protege como um só corpo diante desses propósitos de mudança, especialmente dos que têm relação com o âmbito das finanças e das funções do poderoso IOR.

Nesta estratégia, desgastante e cansativa para o Sumo Pontífice, emerge agora com força outra voz, a do cardeal Robert Sarah, que chegou da África em 2001, chamado entusiasticamente por João Paulo II. Anos mais tarde, em 2010, Bento XVI nomeou-o cardeal e em 2014 foi Francisco que o nomeou Prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos.

O cardeal Sarah e o apoio dos purpurados italianos

Desde que chegou a Roma vindo da sua Guiné natal, Robert Sarah soube ganhar a confiança e as simpatias de um núcleo seleto de bispos e cardeais italianos. Quando estudante em Roma, observou atentamente a sabedoria e o carisma do Reitor do Biblicum que nos anos 70 era o ilustre professor jesuíta Carlo Maria Martini.

Com o passar dos anos e de volta a Roma, ficou ao lado do grupo de visitantes renomados e de membros da Casa Generalícia da organização Opus Dei: eram os anos de glória de José Maria Escrivá de Balaguer, que com santa esperteza obteve do Papa Wojtyla a ansiada Prelazia Pessoal.

Desde esses anos, a amizade e sintonia com os cardeais Sodano, Ruini, Bertone e Herranz nunca sofreu alteração alguma, pelo contrário, nestes três anos de pontificado Bergogliano consolidou-se e ampliou a sua rede de influências não só dentro da cúria vaticana, mas também entre os episcopados da África e, por intermédio do cardeal chileno Jorge Medina – que trabalhou no mesmo dicastério vaticano – com não poucos bispos e cardeais da América Latina.

Portanto, o Cardeal Sarah conhece bem os centros de poder e de influência dos dicastérios. Não é de estranhar que principal apoio que hoje tem o cardeal africano seja o poderoso e inefável purpurado alemão Gerhard Müller que se atreveu a contradizer publicamente algumas orientações do Papa Francisco na sua passagem por Astúrias e Madrid, como já dissemos antes.

Voltando a Sarah, é interessante saber que se comprometeu com o Papa quando o nomeou em confiança para tão alto posto. Observemos com atenção o que o cardeal diz de sua conversa com o Santo Padre, quando foi nomeado Prefeito da Congregação para o Culto Divino e para a Disciplina dos Sacramentos:

“Quando o Santo Padre, o Papa Francisco, me pediu para aceitar o ministério de Prefeito da Congregação para o Culto Divino e para a Disciplina dos Sacramentos, perguntei-lhe:  Santidade, como quer que eu exerça este ministério? O que quer que eu faça como prefeito desta Congregação? A resposta do Santo Padre foi clara: ‘Quero que continue a implementar a reforma litúrgica do Concílio Vaticano II… ‘.

Então, que o cardeal Sarah obedeça e pare com as suas tentativas contestadoras e prejudiciais às linhas de ação que o Papa Bergoglio indica e recomenda incansavelmente.

 

É urgente fazer novas mudanças nos dicastérios

Desde o início de seu pontificado, Francisco enfrenta uma campanha persistente não apenas de oposição ao seu desejos de reforma na Igreja Católica, mas também um aumento das críticas sobre como leva adiante uma série de mudanças que põem em questão o desmedido poder dos cardeais da cúria romana. Felizmente o Papa argentino – como o chamam os seus detratores – conquistou uma liderança mundial impressionante devido à sua modéstia, informalidade e sinceridade para dizer com plena liberdade o que pensa. É este ambiente e práxis que irrita poderosos cardeais que de vários lados e das sombras semeiam e promovem especulações, “fofocas” e mal-entendidos que procuram colocar dúvidas e rejeições ao trabalho diário do Papa, em especial quando partilha suas reflexões a partir da casa de Santa Marta ou quando improvisa conferências de imprensa em suas viagens apostólicas.

Apenas dois exemplos que retratam um certo mal-estar devido à sinceridade e liberdade com que Francisco se expressa quando compartilha suas aspirações diante de seus irmãos bispos. É o que aconteceu em 16 de maio deste ano, quando se dirigiu aos bispos italianos na sua 69a assembleia geral e lhes disse: “Já nos perguntámos qual é a razão última da entrega do nosso presbítero? Quanta tristeza dão aqueles que na vida estão sempre um pouco na metade, com o pé levantado! Calculam, avaliam, não arriscam nada por medo de perder-se … São os mais infelizes! O nosso presbítero, ao contrário, com os seus limites, é um que arrisca até ao fim: nas condições concretas em que a vida e o ministério o colocaram, oferece-se com gratuidade, com humildade e com alegria. Mesmo quando ninguém parece notar. Mesmo quando ele intui que, humanamente, talvez ninguém lhe irá agradecer suficientemente a sua entrega sem medida“.

O segundo exemplo, cheio de verdade e que obviamente não agradou ao clã de cardeais do Vaticano que reiteradamente criticam Bergoglio, foi quando em outubro de 2013 compartilhou com Eugenio Scalfari que: “Os chefes da Igreja têm sido amiúde narcisos adulados e mal encorajados por seus cortesãos. A corte é a lepra do papado …. “.

Por isso e mais, cardeais obstinados como Sarah e Müller se aferram a essa Igreja-poder que pune nos tribunais antes do necessário diálogo. Estes purpurados opositores do Papa também não estremecem ao ignorar o que lhes indica o Sant Padre a respeito do princípio da misericórdia, como um elemento central da pastoral missionária católica; ao contrário, essa camarilha de cardeais insiste em uma variável já fracassada: impor pelo medo ou, sob pena de excomunhão. Essa regra que obscureceu a Igreja durante anos ficou felizmente obsoleta desde os tempos do Concílio Vaticano II.

Finalmente, nós da América Latina esperamos que esta “revolução de Francisco” – nas palavras do cardeal Kasper – não pare e que as previsões de que pessoas poderosas passem da oposição à conspiração sejam apenas um dos muitos boatos que saem de certos dicastérios romanos. Sabe-se que o Papa tem um tempo muito limitado para desencadear os ventos da reforma que uma maioria das religiosas, padres e leigos espalhados pelo mundo quer e reclama, mas se não se detém essa oposição temerária que existe, corre-se o risco de interromper abruptamente esta primavera de esperança de fazer da Igreja um instrumento fiel ao discipulado de Jesus.

Proféticas são hoje as palavras que o cardeal Jorge Mario Begoglio compartilhou com os cardeais horas antes do início do conclave: “Tenho a impressão de que Jesus esteve preso na Igreja e bate na porta, porque quer sair.”

 

Jaime Escobar, en RyL

Jaime Escobar

Editor da revista “Reflexão e Libertação” – Chile.

 

Fonte: http://www.reflexionyliberacion.cl/ryl/2016/08/01/de-la-oposicion-a-la-conspiracion/#.V57iEkllP7U.hotmail

 

2 comments to Aumenta o tom opositor ao Papa?

  • Irene Cacais

    Aprendi em Roma tudo sobre a infalibilidade do Papa. Mas parece que o cardeal Gerhard Müller se acha mais infalível do que o Papa. E ainda por cima parece que ele nunca estudou direitinho a história da Igreja, especialmente tudo sobre o protestantismo. Boa herança que Bento XVI nos deixou…..

  • Ir. Francisco

    Rezarei por quem escreveu esse artigo para que Nosso Senhor tenha misericórdia e leve para a verdadeira fé em Cristo. Irmãos, como negam agora aquilo que a Santa Igreja foi durante tantos anos? Não se encontra a Cristo colocando-se o homem no centro, esse é o grande erro das interpretações equivocadas do Concílio. A tradição permite-nos ver o divino, ela nos leva ao verdadeiro respeito a Deus. Os cardeais mencionados são exemplo de profundo zelo pela fé católica. Devem ser imitados, e não tidos como objeto de intrigas.

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