Escola sem partido: Uma ideologia a serviço do retrocesso educacional

 Tiago França – 07/07/2016

        Pediram-me uma palavra sobre a nova ideologia que anda se alastrando nas redes sociais e que tem causado grande confusão na mente de muitas pessoas. Na qualidade de docente, após ter estudado o que chamam de “escola sem partido”, atendendo ao pedido de amigos e alunos, resolvi fazer algumas anotações e resumi-las no presente artigo.

O objetivo é explicar que a chamada escola sem partido é, na verdade, uma ideologia conservadora, que está a serviço do retrocesso da educação no Brasil.

 Inicialmente, algumas perguntas são imprescindíveis para a compreensão daquilo que iremos discorrer: 1) Por que somente agora estão falando em escola sem partido? 2) Quem são os idealizadores desta ideologia? 3) O que, na verdade, estão querendo alcançar? 4) Qual o papel da escola no progresso humano e científico de um país? 5) Qual a relação entre educação e doutrinação? Iremos dividir a nossa reflexão em três breves partes, tentando responder às questões levantadas.

 

  1. Por que somente agora estão falando em escola sem partido?

Vivemos em um País marcado pelo conservadorismo. Sempre foi assim. A educação que recebemos, desde o estabelecimento das primeiras escolas, é conservadora. Educação conservadora é aquela que estabelece, ideologicamente, um padrão de valores a serem observados, rigorosamente. É considerado padrão o sistema elaborado, previsto como adequado e necessário, que deve ser observado porque constitui um modelo.

Mesmo sendo um povo marcado pela miscigenação, temos uma educação padronizada, alicerçada nos valores tradicionais da Família, da propriedade e da moral construída por uma elite que sempre governou o País. Nosso padrão educacional não foi construído a partir do diálogo com o povo, mas uma elite intelectual pensou um modelo educacional e o estabeleceu como necessário para a educação de nossa crianças, adolescentes e jovens. Sem considerar esta premissa, não se entende os conflitos que andam ocorrendo no âmbito da educação.

Desde sempre, a discussão em torno da situação política e social do País nunca foi a marca da educação brasileira. Os professores sempre foram orientados a aplicar, rigorosamente, os conteúdos escolhidos para compor a grade curricular. Os alunos sempre foram orientados a decorar tais conteúdos em função de avaliações escritas, sendo estas constituídas por questões que aferiam o conhecimento. Neste sentido, o aluno era considerado inteligente quando tinha boa memória para responder às questões da mesma forma que aprendeu em sala de aula e nos livros e enciclopédias.

O aluno repetia nas avaliações aquilo que escutava de seu professor. Não tinha o direito de expressar o que sabia com palavras diferentes das do professor, mas era um mero reprodutor daquilo que estava no livro e nas falas do professor. Desse modo, era considerado intelectual aquele que tinha o conteúdo gravado na memória e sabia dizê-lo quando solicitado. Articular ideias e criar pensamento eram consideradas atitudes subversivas. O aluno não precisava pensar, mas apenas repetir o que escutava e lia.

Em épocas passadas, este modelo era aceitável porque não se pensava em outra alternativa. E quando se pensava, não vingava porque a maioria estava acomodada no modelo estabelecido. Este modelo era cômodo tanto para o governo quanto para o professor porque impossibilitava o surgimento do debate de ideias. Debater ideias é algo que dar trabalho porque obriga os sujeitos envolvidos na discussão à abertura, ao diálogo, à compreensão, à escuta do outro e à revisão de pontos de vista. Estas coisas não cabem num modelo tradicional de educação porque este obedece a uma hierarquia de poder.

Esta hierarquia impõe uma regra clara: O professor é o mestre (magister), aquele que conhece e sabe; o aluno (alumnus), aquele que não sabe e que precisa saber, ser “nutrido” de conhecimento. Era assim que se dava a relação mestre e discípulo: O mestre é maior porque detém o conhecimento; o discípulo é inferior e precisa da luz do mestre e, por isso mesmo, deve a ele se submeter numa relação de obediência. Não existia a ideia do aprendizado recíproco. Até hoje há professores pouco reciclados que continuam com esta postura. “Nesta sala de aula quem manda e quem sabe das coisas aqui sou eu!”, afirmam. Com isso, não estamos afirmando que somos contra à autoridade, pois esta é imprescindível no processo de ensino-aprendizagem. Portanto, opomo-nos ao autoritarismo praticado desde sempre.

O que conceberam a ideologia da escola sem partido possuem a mentalidade expressa no que afirmamos nos parágrafos anteriores. Imediatamente após a ditadura militar, com a redemocratização do Brasil, a educação brasileira repensou a sua caminhada. Em 1996, a Lei 9.394, criou as diretrizes e bases da educação nacional, e com ela nasceu também uma nova concepção de educação, baseada em princípios como os da liberdade, igualdade, pluralismo de ideias, apreço à tolerância, gestão democrática, vinculação entre educação e práticas sociais etc. (cf. art. 3º da mencionada lei).

Considerando estes e outros princípios basilares da educação pós-redemocratização do Brasil, o que se propõe na escola sem partido é antidemocrático, antiético e, por estes e outros motivos, representa um retrocesso na educação brasileira. Todas as ideologias de cunho conservador são inimigas da pluralidade, da dinamicidade e da necessária evolução dos processos educacionais. Educação e conservadorismo são realidades incompatíveis porque na essência da educação está a liberdade de produção e expressão do pensamento em plena sintonia com a realidade complexa e desafiadora da vida social.

O atual cenário político é, predominantemente, marcado por um número assustador de legisladores que não estudam. São políticos que não leem nem possuem formação suficiente para a análise dos fenômenos sociais. Há o que denominamos de retardamento intelectual, que consiste no fato de o legislador ser incapaz de compreender os processos que constituem a teia complexa das relações sociais. Impossibilitado de analisar a realidade para a criação de leis que sejam úteis ao autêntico progresso do País, refugiam-se nas antigas e ultrapassadas concepções de ser humano e de educação do ser humano.

Ao invés de olharem para o futuro, tendo em vista a necessidade de recuperar os estragos feitos ao longo dos séculos, voltam-se para o passado, objetivando repetir os mesmos estragos com maior intensidade. Não há segredo nesta atitude: Procura-se, desesperadamente, barrar a evolução do pensamento e das suas manifestações, para manter o povo na ignorância, principalmente na ignorância política.

A concepção política de educação dos conservadores é o que existe de mais atrasado que se pode conceber. Fazendo uma analogia com o mito da caverna do filósofo grego Platão, o objetivo da escola sem partido é manter o povo na caverna, distante da luz do verdadeiro conhecimento. E o verdadeiro conhecimento é aquele que liberta a pessoa da ignorância.

O Senado Federal e a Câmara dos Deputados são casas legislativas formadas por pessoas que não estão preocupadas com a educação. Um exemplo claro disso, que está em sintonia com a ideologia da escola sem partido, é o Projeto de Lei 1.411/2015, do deputado Rogério Marinho (PSDB – RN), que pretende criar o crime de assédio ideológico.

Não precisamos fazer, aqui, uma análise jurídica deste projeto tão insignificante, basta conhecer o seu idealizador. Trata-se de um deputado conservador, do PSDB, partido conhecido pela forma desumanizadora como trata a educação, e oriundo de um estado com praticamente nenhuma expressividade política, em matéria de conteúdo crítico a ser considerado.

Este projeto visa proibir que os professores discutam o tema política em sala de aula. Situação idêntica já existe no Estado de Alagoas, com o projeto que se transformou em lei estadual, que proíbe o professor de discutir política em sala de aula. Estes políticos, na verdade, não querem ser desmascarados em seu proceder. Projetos de lei dessa ordem são sintomáticos. Ninguém precisa ser cientista político ou versado em filosofia política para enxergar o oportunismo de tais projetos. Estes projetos não escondem a sua ideologia de dominação e opressão. Somente os ingênuos e os desprovidos de senso crítico não conseguem enxergar a estupidez destas iniciativas legislativas.

 

  1. Quem são os idealizadores desta ideologia? Qual a relação entre educação e doutrinação?

No tópico anterior já sinalizamos algumas características daqueles que criaram a ideologia da escola sem partido. Esta ideologia não deveria encontrar interessados, considerando que vivemos em pleno século XXI. Hoje, as mentes mais abertas não aceitam mais nenhuma forma de retrocesso. E é assim porque todo retrocesso representa um desserviço à evolução humana, que não pode ser barrada porque um grupo de pessoas ignorantes sentem saudade de um passado que, na maioria dos casos, não viveram.

Muitos dos jovens que foram às ruas se manifestar e que pediram intervenção militar não foram espancados pelos militares da ditadura. Conhecem pouco ou absolutamente nada do verdadeiro sentido de uma ditadura militar. Particularmente, não discuto com aluno que não estuda. Pessoas ignorantes não merecem ser escutadas porque são fechadas em ideias equivocadas, e o fechamento impede o diálogo. Como diálogo não é monólogo, os interlocutores de um diálogo precisam ter as noções mínimas daquilo que está sendo discutido; do contrário, não temos diálogo. Portanto, é por causa dessa ignorância massiva que a ideologia da escola sem partido encontrou adeptos.

Os idealizadores da escola sem partido encontram espaço na mente daqueles que não pensam nem estudam. Pensar e estudar são ações que evitam muita idiotice. Uma pessoa bem informada, detentora de senso crítico, ao escutar a expressão escola sem partido, logo desconfia do equívoco. Qual é o partido de uma escola?…

A leitura do discurso ideológico dos idealizadores revela que são desprovidos das noções básicas do que vem a ser uma escola e um partido. Seu slogan é: “Educação sem doutrinação!” Repetem as palavras sem saber o que estão falando. Desconhecem o significado da palavra doutrinação e a confundem com a realidade. Vamos à realidade dos contextos escolares nos quais encontramos um trabalho desenvolvido baseado no despertar da consciência crítica. Quais as características desta realidade?

As escolas e cursos universitários realmente preocupados com a capacitação profissional e a formação da consciência crítica das pessoas, lidam com a educação como a desafiadora arte de construir uma sociedade cada vez mais digna dos seres humanos. A discussão, a produção de ideias, a publicação destas ideias, a fomentação da tolerância, a promoção da diversidade cultural são as marcas de uma educação que reconhece que vivemos em um estado democrático de direito. Os idealizadores da escola sem partido denominam estas coisas de comunismo e doutrinação.

Denunciar os abusos da má política, despertar nos estudantes a necessidade de pensar e analisar criticamente a realidade, estimulá-los a abandonar toda espécie de neutralidade (que não existe na realidade!), incentivá-los a uma participação ativa na sociedade etc.: estas e outras atitudes congêneres constituem doutrinação, para os idealizadores da escola sem partido. É evidente que não sabem o que significa doutrinação.

Doutrinação é a marca do conservadorismo educacional, fundamentado na imposição de uma ideologia única e absoluta. Politicamente, os idealizadores da escola sem partido são pessoas perfeitamente alinhadas ao discurso da extrema-direita, impregnadas por uma concepção retrógrada de educação, concepção que não leva em conta a realidade do País.

Assim, a doutrinação mencionada no slogan dos partidários da escola sem partido é praticada por eles mesmos, que de forma pouco persuasiva e desesperada tentam convencer as pessoas da eficácia de uma realidade falaciosa denominada por eles de escola sem partido. Na verdade, quando falam em educação sem doutrinação estão querendo dizer educação sem pensamento crítico, rigorosamente pautado no conservadorismo que é, por si mesmo, autoritário e maléfico à evolução humana.

 

  1. O que, na verdade, estão querendo alcançar? Qual o papel da escola no progresso humano e científico de um país?

Há três palavras que respondem à indagação: Passado, prisão e estagnação. O passado só serve para nossa reflexão, a fim de que evitemos repetir o que de ruim fizemos nele. Voltar ao estilo de vida passado é algo impraticável. Isto não é possível. O máximo que se pode fazer é imitar o passado, mas repeti-lo plenamente no presente e projetá-lo no futuro é algo que somente pode ser concebido por pessoas desprovidas de bom senso. Vivemos noutra época. Não nos é mais possível educar uma criança hoje do jeito que educávamos nossas crianças no passado. Os tempos são outros. A mudança de época e de paradigmas não pedem licença a ninguém. Ela ocorre. E todo aquele que não a aceita tem que arcar com as consequências de sua não aceitação.

Não adianta demonizar o celular e a Internet, por exemplo, para justificar que os jovens não devem utilizá-los. Tal proibição se mostra absurda nos dias de hoje. O mesmo podemos dizer da educação: Não adianta impedir a discussão de temas como a política nas aulas de filosofia, sociologia e história. Estas áreas do saber trabalham com a ideia de política. Elas não subsistem sem esta ideia. Aliás, nenhum ser humano escapa da política. Diariamente, fazemos política. Permitir que os alunos discutam livremente algo que é da constituição social do homem é de extrema importância para a consolidação democrática do País.

As sociedades pré-modernas tinham verdadeiro pavor da ideia de liberdade. Até hoje, os resquícios deste pavor permanecem no inconsciente coletivo. Geralmente, tudo o que é novo causa insegurança e desconfiança. Desde criança, o ser humano é educado para resistir ao novo e apegar-se ao que é previsto como bom, justo e seguro. Já na infância, nossos pais nos lapidam. Alguns são bem violentos, outros mais suaves. É nesta fase que nos incutem os preconceitos. Ensinam-nos a praticar a negação do verbo misturar-se e, assim, vamos aprendendo, na prática, o que denominamos segregação.

Fora da liberdade, toda educação é nociva. A educação autoritária não é educação, mas deturpação e deformação. Quando tiro do professor a necessidade de despertar no aluno a preciosa postura de buscar o sentido de todas as coisas, na verdade, estou prestando um desserviço à educação. O mundo escolar deve ser resguardado de toda e qualquer espécie de proibição à discussão de qualquer tema, pois o debate é parte constitutiva do ato de educar e ser educado.

Na infância e na adolescência, as pessoas não possuem um repertório suficiente para opinar de forma crítica e fundamentada, pois nestas faixas etárias tendem a repetir o que escutam no senso comum (na família, na rua, na mídia etc.). É na escola que aprendem a analisar a realidade, e o professor é aquele que oferece as ferramentas para que isto ocorra. A ideologia da escola sem partido é uma espécie da prisão na qual os educandos são bitolados, e este processo deformador os leva a enxergar a vida como se esta fosse uniforme.

Quando perde a liberdade para pensar diferente e expressar seu pensamento, o ser humano permanece estagnado, não evolui, passa a ter uma visão míope da realidade. Os idealizadores da escola sem partido é um exemplo disso: são míopes, não enxergam praticamente nada do que está além do próprio nariz. Não possuem uma visão crítica da realidade, mas a concebem segundo ideias antiquadas, que já não correspondem às exigências da vida pós-moderna.

A educação é incompatível com a estagnação. Ninguém vai à escola para permanecer o mesmo, com as mesmas ideias e com o mesmo modo de enxergar a vida. Na escola aprende-se novos horizontes, aprende-se, sobretudo, a enxergar a vida como ela é, a sonhar com outro mundo possível. Para isso, é necessário que a escola esteja conectada com a realidade e seus processos complexos, a fim de preparar o aluno para lidar com a complexidade da existência humana. Fora disso, não há educação, mas deformação que gera estagnação.

Não há progresso autêntico possível fora do pensamento atrelado à liberdade. Todos os grandes passos que a humanidade deu até hoje ocorreram graças à liberdade de pensar e de expressar o pensamento. O que seria da humanidade sem a revolução científica do século XVII? O que seria de nós sem os grandes inventores da humanidade? Estaríamos sem a indústria, sem a energia elétrica, sem o avião etc. Até hoje estaríamos pensando que a terra seria o centro do universo, e muitas doenças que hoje são curáveis já teriam ceifado a vida humana na Terra.

Não há conhecimento sem a necessária liberdade para pensar, imaginar, inventar, renovar, duvidar, questionar, aperfeiçoar, reelaborar, descobrir e redescobrir, transformar. Para não cairmos no absurdo, o justo e o bom podem ser todas as realidades que não são prejudiciais à vida humana. Tudo é permitido, desde que seja verdadeiramente bom. Desde que edifique e faça o homem progredir positivamente, nada deve ser proibido. Esta deveria ser a concepção ética a nortear a existência do homem em sociedade.

Hoje, não cabe mais o encabrestamento da consciência das pessoas. A educação não pode se transformar numa ferramenta opressora nas mãos de um poder político que não tem compromisso com a ética nem com a liberdade humana. Os brasileiros não podem mais aceitar qualquer retrocesso, pois já perderam muito tempo com a mordaça imposta pelas forças do atraso e da alienação. Somos um País rico e plural, e precisamos de um sistema educacional que reconheça estes elementos de nossa realidade e, além disso, ajude-nos a repensar nossa história, para que possamos construir um País menos desigual, mais justo e fraterno para todos.

A escola sem partido não reconhece a pluralidade das culturas do Brasil, que influenciam diretamente o mundo escolar, e deseja reimplantar o que de pior existe em um sistema educacional ultrapassado, inimigo do pensamento crítico e aliado às velhas forças políticas, responsáveis pelas mazelas sociais nas quais continuamos mergulhados, como que atacados por um câncer incurável. Estas são, brevemente, as razões que nos levam à denúncia da falácia denominada educação sem doutrinação e da ideologia conservadora estranhamente chamada de escola sem partido.

 

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Tiago de França 

Fonte: http://tiagodefranca.blogspot.com.br/2016/07/escola-sem-partido-uma-ideologia.html

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