No começo apenas um sonho

Silvina Pérez – 01 de julho de 2016            Fotos AFP e Osservatore Romano

Tres premio Nobel

No começo eram apenas umas dez. Depois tornaram-se milhares. Elas se reuniam no mercado, porque era lá que as tropas do então presidente Charles Taylor recrutavam as crianças para mandá-las para a linha de frente. Os caminhões partiam cheios. E voltavam vazios.

Leymah gboweeEra o ano de 2002 na Libéria quando, após treze anos de uma sangrenta guerra civil que tinha despedaçado mais de 150.000 vidas, Leymah Gbowee (Foto) teve um sonho.

Sonhou que estava presidindo uma reunião numa igreja e que dava início à luta pela paz no seu país. Ao acordar, decidiu que era hora de fazer o que tinha só sonhado.

 

Então a assistente social liberiana cristã, mãe de seis filhos, reuniu um grupo de mulheres num mercado, e junto com outra mulher, a muçulmana Asatu-Bah Kenneth (Foto), deu início a um movimento que levou à paz na Libéria e à histórica eleição da primeira presidente africana, Ellen Johnson Sirleaf.

Assim nasceu o Movimento das Mulheres para a Paz e a Reconciliação na Libéria. No início ninguém prestava atenção a essas mulheres. Diziam-lhes para ficarem em casa. Mas elas não. Pelo contrário, começaram a intensificar as reuniões e as marchas, enquanto a guerra continuava.

Por fim, decidiram fazer uma greve matrimonial, recusando relações sexuais com os maridos. Durante meses Leymah Gbowee encorajou as mulheres do seu país a fazer pressão sobre os homens para que pusessem fim à guerra civil. E depois de três meses, as mulheres conseguiram uma reunião com Taylor obrigando-o a prometer que daria início a um diálogo com os grupos rebeldes no Ghana. 

Ellen

A luta delas restaurou a paz no país abrindo caminho para a eleição da presidente Ellen Johnson Sirleaf (foto de 2010). A nova Chefe de Estado herdou uma Libéria devastada por uma guerra civil longa e cruel que tinha destruído a economia, o tecido social e o futuro de uma geração de jovens: mais de 25.000 guerrilheiros desmobilizados, aos quais o conflito tinha roubado a infância e a educação.

O compromisso de Johnson Sirleaf foi o

  • de promover a reconciliação,
  • de lançar as bases para um país em paz,
  • de restaurar a autoridade dos anciãos e da lei,
  • e deixar para trás personagens tão sinistros, como Charles Taylor, um ex-guerrilheiro e ex-presidente liberiano condenado pelo tribunal de Haia pelos seus crimes na vizinha Serra Leoa.

A Libéria é um exemplo do lento mas inexorável progresso das mulheres na África e do papel decisivo que elas estão tendo na construção de um continente mais pacífico, justo e reconciliado. Em catorze anos, este pequeno país viveu duas guerras civis.

A determinação das mulheres foi tão firme que, quando o diálogo entre as várias facções em guerra entrou numa fase de impasse, elas bloquearam a sala onde se realizavam as negociações de paz, não permitindo que os homens saíssem antes de alcançar um acordo. Finalmente, em agosto de 2003, o acordo foi assinado.

Na África, a maioria das mulheres vive em contextos políticos pouco ou nada democráticos onde a desigualdade de gênero se perde entre outros problemas mais graves.

  • As mulheres são vítimas de culturas tribais que as relegam a papeis secundários.
  • Elas não têm voz nas suas comunidades.
  • Assim como não podem receber uma herança ou ter uma propriedade.
  • Em nome de tradições e crenças religiosas ancestrais ficam sujeitas à poligamia e são submetidas à brutal mutilação genital.
  • E são sempre elas que perdem o trem da educação, da saúde e da política, e que se tornam o único alvo da violência de gênero e do estupro como arma de guerra, com todas as consequências de horror, de doenças sexuais e de gravidez indesejada.

Mas este quadro tão duro e desolador não ficaria completo se não fosse enfatizado também que essas mesmas mulheres estão lutando com todas as suas forças

  • para não ser mais consideradas vítimas,
  • para obter visibilidade social, econômica e jurídica,
  • e recuperar o controle do próprio corpo e da própria vida.

” As africanas dizem ‘não’ ao afro-pessimismo – escreve no seu blog Nestor Nongo, sociólogo e professor congolês que vive na Espanha   –  e restauram a esperança em todo o continente. Expulsam ditadores, reerguem o próprio país, influenciam as agendas políticas, lutam pelos direitos humanos e cuidam das pessoas abandonadas e dos órfãos. E reconciliam a sociedade, inovam e criam, gerenciam empresas e tutelam o meio ambiente”.

Ellen Johnson Sirleaf e Gbowee Leuman receberam em 2011 o Prêmio Nobel da Paz pelo papel decisivo desempenhado para acabar com a guerra civil em seu país. Junto com elas, recebeu também o mesmo reconhecimento uma jovem iemenita, Tawakkul Karman, chefe do grupo Mulheres Jornalistas sem Cadeias criado em 2005.  É delas o mérito de ter lutado com todas as suas forças pelos direitos das mulheres, de ter defendido os direitos humanos e de continuar a representar a alma feminina de uma África que aspira à paz e à justiça.

 

Foto do perfil de Silvina Perez

Silvina Pérez

http://www.osservatoreromano.va/it/news/allinizio-solo-un-sogno

 

 

 

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