Livro “A IGREJA À LUZ DO VATICANO II”

A apresentação deste livro, A IGREJA À LUZ DO VATICANO II, é duplamente gratificante para mim:

Primeiramente, por se tratar de um livro do meu querido irmão José Colaço Martins Dourado.

Em segundo lugar, porque a leitura da obra me fez voltar aos anos 60, quando, por 10 anos, vivi em Roma, vizinho ao Vaticano. Em Roma, acompanhei 3 das 4 partes do Concílio Ecumênico Vaticano  II, que se realizou nos anos 62, 63, 64 e 65.   Lá respirei o clima do desejo de renovação do Concílio Vaticano II, na Pontifícia Universidade Gregoriana e na Pontifícia Universidade Lateranense, onde fiz respectivamente mestrado em Teologia e Doutorado em Filosofia. Como estudante de teologia na Gregoriana, era obrigado pelos professores de quase todas s disciplinas a elaborar trabalhos, cujo ponto de referimento era sempre a doutrina conciliar, que estava no prelo ou tão logo vinha a lume. Clima de renovação, patente nos numerosos debates e palestras com os mais renomados teólogos do mundo, entre eles Yves Congar, Hans Küng, Ratzinger e Rahner. O fato é que a leitura do livro de José lançou-me no nascedouro dos tempos eclesiológicos hodiernos, com suas angústias e tristezas, alegrias e esperanças.

 

I – INTRODUÇÃO / CONTEXTO TEOLÓGICO DA OBRA

 

A fim de ressaltar a adequação das fontes escolhidas pelo autor para as suas reflexões, ocorre-me estabelecer uma analogia entre a hierarquia do ordenamento jurídico civil e o adotado pela Igreja Católica.

No ordenamento civil temos: Constituição, Lei Complementar, Lei Ordinária, Decreto, Portaria… Os documentos conciliares apresentam, também, uma ordem hierárquica, a qual traduz a natureza, importância e autoridade destes documentos. Esta é a ordem: Constituição, Decreto e Declaração. O corpo doutrinário do Concílio Vaticano II contempla: 4 Constituições, 9 Decretos e 3 Declarações.  O autor foi haurir a doutrina de suas reflexões no conteúdo doutrinário  e pastoral das duas fundamentais Constituições: Constituição Dogmática sobre a Igreja, intitulada Lumen Gentium e Constituição Pastoral Gaudium et Spes, sobre a Igreja no mundo atual

II – A OBRA: NASCIMENTO. FINALIDADE. FONTES. PERSPECTIVA. CONTEÚDO MATERIAL

NASCIMENTO/FINALIDADE

Como todo agente age tendo em vista um fim, omnis agens agit propter finem, o surgimento de uma obra já, no seu nascedouro, traz em si o DNA da sua finalidade. A ideia da obra  surgiu, diz-nos  o autor, durante o XIX Encontro Nacional das Famílias dos Padres  Casados – MFPC, em Fortaleza. Eis o que nos segreda o autor: “senti-me como que tocado pelo Espírito Santo de Deus, senti-me na obrigação moral de levar a todos a quem possa interessar a minha opinião sobre o bem do povo de Deus, em forma de  instrumento de Evangelização, sob o título Uma Igreja à Luz do Vaticano II.” O texto citado me remeteu, de pronto, a uma confissão do Papa João XXIII, o qual, na abertura do Concílio Ecumênico Vaticano II, declarou como surgiu a ideia de convocar o Concílio. In verbis, relata-nos ele: “foi algo inesperado: uma irradiação de luz sobrenatural, uma grande suavidade nos olhos e no coração. E, ao mesmo tempo, um fervor, um grande fervor que se despertou, de repente, em todo o mundo, na expectativa da celebração do Concílio” (Gaudet Mater Ecclesia,  Alegra-se a Mãe Igreja – Discurso de Abertura).

O Prefácio, a peça vestibular, intitulada a que venho, fala-nos, também, de outras motivações para a feitura da obra: a distância entre a eclesiologia do Vaticano II e a realidade pastoral; a omissão da Igreja no serviço à humanidade, a ausência de novos paradigmas de evangelização e de novos evangelizadores.  Estes fatores, entre outros, levaram o autor a concluir  que “não bastam esforços pastorais… Só uma reforma  na  estrutura do seu sistema poderá restituir à Igreja de Jesus aquela auréola de santidade que fascinou todos os homens de boa vontade, na sua história”. Daí, conclui o autor, sua pretensão de “sem preocupação científica (formal) apresentar o modelo de Evangelização ao qual anseia o cristão do século XXI.” Esta a finalidade declarada de sua obra.

FONTES

O Título da obra, A IGREJA À LUZ DO VATICANO II, explicita, meridianamente, o ponto focal, o marco de referimento das reflexões que compõem a obra, ou seja, a ECLESIOLOGIA exarada pelo Concílio  Vaticano II.  As duas citações preambulares da obra, retiradas da Constituição Dogmática Lumen Gentium e  da Constituição Pastoral Gaudium et Spes, anunciam, com propriedade, as duas fontes, os 2 (dois) eixos estruturantes da  obra que o autor traz a lume, por  ocasião dos 50 anos de realização do Concílio Vaticano II. É oportuno, portanto, registrar, que o autor usou como fonte de suas benfazejas reflexões as duas constituições fundamentais da  eclesiologia: a  dogmática (a Lumen Gentium)  e a  Kerigmática ou pastoral  (a Gaudium et  Spes).

A PERSPECTIVA

Se as citações preambulares dizem das fontes e dos conteúdos, a citação da contracapa, de Karl Rahner, indica a perspectiva crítica (o objeto formal quod) aplicada pelo autor no tratamento das matérias sobre as quais, com profundidade e lógica, discorreu ao longo de sua obra.  Ao Texto: “A postura crítica em relação à Igreja faz parte da missão evangelizadora”. Ao leitor atento este aspecto crítico, qual leit-motiv, qual característica fundante, perpassa toda a obra:

–                    crítica da Igreja relativamente ao mundo;

–                    crítica do mundo relativamente à Igreja;

–                    crítica da Igreja sobre si mesma, ou seja, autocrítica.

Aliás, esta perspectiva crítica e autocrítica foi assumida pelo próprio Concilio Vaticano II. Ouçamos o que o Papa João XXIII falou no Discurso de Abertura do Concílio Vaticano II: “A Igreja sempre se opôs aos erros; muitas vezes até os condenou com maior severidade. Agora, porém, a esposa de Cristo prefere usar mais o remédio da misericórdia do que o da severidade. Julga satisfazer melhor as necessidades de hoje mostrando a validez de sua doutrina do que renovando condenações”.

CONTEÚDO MATERIAL

O livro do filósofo, teólogo e pedagogo José Colaço Martins Dourado, na materialidade de suas 119 páginas, compreende 9 Temas ou grandes capítulos

  1. Igreja, Povo de Deus
  2. Uma Igreja a serviço da humanidade
  3. Nova Evangelização
  4. Novos Evangelizadores
  5. Renovação dos Instrumentos de Santificação
  6. Opção preferencial pelos pobres
  7. A Igreja à luz do Vaticano II/Movimento das famílias dos padres casados
  8. O carnaval
  9. Aforismos: a vivência dos princípios fundamentais da Fé e da Caridade Cristãs

Os 9 Temas e os 16 sub-temas aprofundam, detalham e  enriquecem a dogmática e a Kerimagtica dos tempos hodiernos.

III – O AUTOR

Vista de relance a obra, em seus grandes capítulos, cumpre fazer a sua metaleitura. É mister apontar, sobretudo, quem está por detrás da obra, vale dizer, cumpre desenhar o autor.

É sabença geral que escrever é escrever-se. Por trás de um livro há sempre um autor… Por trás de um bom livro, como é o caso, há sempre um grande autor; efetivamente, o talento sozinho não faz um escritor. “Deve haver um homem por trás do livro” (Emerson, em Göthe). Encontrar o homem na obra é o esforço da metaleitura. Porque, como, peremptório, ensinou Buffon: le style c’est l’homme même: o estilo é o próprio homem. Portanto, sem impropriedade alguma, pode-se asseverar que a obra é o homem. Assim sendo, é o momento de perguntar: O que o autor diz de si mesmo? O que a obra nos desoculta sobre o autor?

A primeira orelha do livro dá-nos informações valiosas sobre o autor: ele é filósofo, teólogo e pedagogo. E confessa que “Mesmo tradicional por formação, recém-ordenado, irrequieto ante a grandeza da seara que aguardava meu pastoreio, mergulhando fundo na vida do Povo de Deus, nos serviços pastorais que assumia, e auscultando os problemas vivenciais de ordem sócio-religiosa, dos que me eram confiados, já percebia o tamanho do desafio que nossa Igreja estava prestes a enfrentar, à vista dos primeiros Sinais dos Tempos Pós-modernos”.

O QUE A OBRA DIZ DO AUTOR?

A metafísica nos ensina que todo efeito é proporcional à sua causa.   A obra do José Colaço Martins Dourado, trazendo a lume temas da teologia dogmática e da teologia pastoral, diz-nos que o autor é um teólogo e um evangelizador.

UM TEÓLOGO

Atento à evolução teológica do corpo dogmático. Não é um teólogo postiço. É bem formado. Foi aluno brilhante de teologia e filosofia. Tira  conclusões teologicamente certas dos dados  revelados,  no 1º e 2º Testamentos. Um teólogo com uma conotação fortemente profética. Como todo profeta conhece, vivencia e testemunha os mistérios de Deus. Ensina testemunhando… o que me reporta a Gandhi… certa mãe pediu-lhe que  fizesse com que seu filho abandonasse o acuçar … mandou que a mãe lhe trouxesse o filho uma semana depois; realizado o encontro com  Gandhi, o filho mostrou-se curado. A mãe perguntou a Gandhi por que só falou com o filho depois de uma semana? Respondeu Gandhi: porque semana passada eu era como ele… O autor é da prosápia, da ascendência de Gandhi e de São Francisco de Assis, que recomendava a seus seguidores: “pregai, pregai sempre, quando for necessário usem de palavras”.

Porque Teólogo-profeta, é um pensador socialmente engajado; pensa, anuncia e denuncia, na qualidade de cidadão comprometido com o bem-estar do povão, e de homem público compromissado com o desenvolvimento do País.

UM EVANGELIZADOR

O subtítulo da obra, o anúncio do Evangelho ao homem, no século XXI, traduz a preocupação Kerigmática, pastoral do autor. O que nos faz lembrar de São Paulo aos Corintios, quando disse: “Ai de mim se não evangelizar (1. Cor. 9,16).  Não dá para esquecer, também, o “contundente” apelo de Paulo a Timoteo (2 Tm 4,2) “prega a palavra, insiste a tempo e a contratempo, refuta, ameaça, exorta com incansável paciência e preocupação de instruir”. É um evangelizador que, na esteira de Paulo, deseja tornar-se tudo para todos para salvar alguns; um evangelizador que deseja que transformemos, transmudemos em hóstias as moedas dadas aos pobres.

De resto, na 2ª orelha do livro, do punho do próprio autor, encontramos a explicitação do caráter da obra, que ele, modestamente, define como um ensaio. Confessa-nos ele que sua obra: “é um ensaio de caráter evangelizador que visa exclusivamente, expressar os sentimentos, as angustias, as dúvidas, as vivências e as perspectivas do segmento Povo de Deus, que tem vindo, meio sem rumo, ansioso à procura de Deus – Jesus Cristo, o Deus -Amor”.

A obra explicita, portanto, um evangelizador pedagogo, com a preocupação de instruir, que deseja levar a boa nova a todos, para que “Cristo seja tudo em todos”.

Este, amigos e amigas, o perfil do teólogo-evangelizador pedagogo José Dourado que a metaleitura da obra me transmitiu.

SENHORAS E SENHORES

Concluo esta modesta apresentação com um pensamento de Blaise Pascal (1623 – 1662). Com a autoridade que lhe cabe, na galeria dos Pensadores, como filósofo, matemático e físico, em Pensée, afirmou conclusivo:

Não há mais do que duas classes de pessoas que se possam chamar de razoáveis: as que  servem a Deus de todo o  coração, porque o conhecem, ou as que o buscam de todo o coração, porque, ainda, não o conhecem”.

Aos dois tipos de pessoas razoáveis, dentro das quais nos encontramos, com sua obra, o autor, José Colaço Martins Dourado, teólogo, evangelizador-pedagogo, profeta, pensador engajado e cidadão comprometido, como o bom Pastor (Salmo 23/22) oferece  alimento e moradia.

Finalmente, porque adequado, convém rememorar os versos de Castro Alves: O livro caindo na alma/É germe que faz a palma/ É chuva que faz o mar… Bendito quem semeia livros/ para o povo pensar.

O autor José Dourado é um desses benditos. Receba, portanto, o abraço fraterno e o bem-querer dos parentes e amigos aqui presentes!

De um amigo e colega do autor

 

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