As pesquisadoras que ajudam o progresso sustentável nos países emergentes

Veronica Ulivieri – 22/06/2016

Foto: La StampaElsevier Foudation

Graças às bolsas de estudo da Academia   Mundial de Ciências, podem instalar um laboratório e dar vida a projetos de outra forma impensáveis. Muitos estão ligados à ecologia e à saúde: biofertilizantes, medicina natural, e novos antibióticos a partir de bactérias do Himalaia

Depois do almoço, a bioquímica Sushila Maharjan brinca de esconde-esconde com seu filho no terraço ensolarado da casa de hóspedes Adriático, no campus de Trieste, onde fica a sede da Academia Mundial de Ciências, (TWAS).

Ao fundo o mar de cor azul cobalto, enquanto no andar de baixo tem lugar uma conferência que reúne mais de 40 pesquisadores, chegados aqui de 26 estados do mundo para analisar como as bolsas de estudo concedidas pela TWAS, criada em 1983, exatamente para apoiar o progresso científico dos países em desenvolvimento, mudaram as suas vidas e os seus projetos de pesquisa.

Um exército de mulheres e homens determinados, que por amor à ciência desafiaram pobreza, convenções sociais, falta de equipamentos, obstáculos culturais durante as suas permanências para pesquisa no estrangeiro, no norte do mundo.

Poucas mas determinadas

 Das 115 bolsas concedidas em 2014  (clique e veja) num total de 3 milhões de dólares, apenas 28 foram para pesquisadoras. Um dado que reflete a baixa presença das mulheres no campo científico: na Europa, as mulheres são em média cerca de 30% e nos países emergentes o percentual é ainda menor.

No Nepal, o país onde nasceu Sushila (foto), está abaixo de 8%. A delas, porém, é uma minoria aguerrida e decidida a desempenhar um papel de primeiro plano no progresso dos seus países, especialmente nos setores ligados

  • à ecologia,
  • da agricultura sustentável à medicina natural,
  • até ao estudo das conexões entre saúde e condições ambientais.

A ligação das mulheres com a Mãe Terra, que sobrevive mais forte nas culturas dos países em desenvolvimento, se reflete nas suas pesquisas.

“Das mulheres que premiámos nestes anos de atividade, 29% desenvolvem pesquisas no campo das ciências agrícolas e outras 18% no das ciências médicas” –  diz Tonya Blowers da Organização para as mulheres cientistas nos países em desenvolvimento (OWSD), que desde 1989 colabora estreitamente com TWAS sobre os temas de gênero.

Antibióticos de bactérias de montanha

A bioquímica nepalesa é uma delas:  com 38 anos, depois do diploma no Nepal e de um doutorado na Coreia do Sul, voltou ao seu país para iniciar a primeira experiência de pesquisa aplicada do seu país e hoje é a diretora do Instituto de Biociências e Biotecnologia de Kathmandu.

“Estudamos as bactérias Streptomyces que vivem em regiões com altitudes elevadas do Nepal, para desenvolver novos medicamentos e antibióticos. Desses organismos derivam muitos antibióticos já presentes no mercado, mas 97% dessas bactérias ainda não foram estudadas.

Elas produzem

  • imunossupressores,
  • herbicidas,
  • fungicidas,
  • substâncias anti-cancerígenas,

e a característica das que são encontradas nas nossas regiões montanhosas é a capacidade de liberar esses componentes em forma de gotas: são portanto mais fáceis de isolar e de analisar” – explica.

Em 2013, com os 50.000 dólares da bolsa de pesquisa da TWAS,

“pudemos comprar os equipamentos necessários para instalar um laboratório e demos início às pesquisas” – continua ela, em voz baixa, ainda um pouco surpresa pelo prestigioso Prêmio Elsevier de fevereiro passado, que ela ganhou inesperadamente devido justamente a esses estudos.

“Ainda estamos na metade da pesquisa, mas estamos confiantes. Estas substâncias são muito potentes: em alguns casos um só microlitro mata mais de 90% das células tumorais. Poderia ser o primeiro passo para conseguir remédios mais naturais e ao mesmo tempo muito mais eficazes do que os já existentes”.

Mas este não é o único resultado:

“Depois da premiação, muitos pesquisadores nepaleses que trabalham em grandes universidades de todo o mundo entraram em contato comigo manifestando o desejo de voltar para casa. Demonstrámos que também no Nepal é possível fazer pesquisa de qualidade”.

Outras ganhadoras de prêmios na Elsevier Foundation Awards to honor women’s contributions to engineering, innovation and technology

 

Biofertilizantes contra a desertificação

Dilfuza  EgamberdievaTambém a microbiologista uzbeque Dilfuza Egamberdieva, (foto) ganhadora de várias bolsas, dedica sua vida ao estudo das bactérias, mas com aplicação na agricultura.

Com 44 anos, três filhos, realiza seu trabalho entre o seu país e a Alemanha para desenvolver biofertilizantes a serem usados em terras do Uzbequistão que se tornaram áridas, e que antes eram banhadas pelo Mar de Aral, hoje reduzido a 10% do seu tamanho original.

“Por causa das mudanças climáticas e devido ao aumento das temperaturas, as colheitas estão ficando menores. O recuo do Mar de Aral faz com que o teor de sal antes contido na água se espalhe no solo e o torne árido. A cada ano perdemos alguns milhares de hectares e as pessoas são forçadas a se mudar”.

Não só:

“Quando o meu país fazia parte da União Soviética, éramos obrigados a garantir uma produção agrícola de 5 a 6 milhões de toneladas por ano.  Sendo um país pequeno, para alcançar esses resultados tivemos de usar muitos fertilizantes, pesticidas e herbicidas sintéticos. O solo está saturado de produtos químicos e hoje, também devido ao alto nível de salinidade, está morto” diz a cientista.

Nos seus olhos negríssimos o desespero causado pela mudança irreversível mistura-se com a confiança na evolução positiva que a ciência pode desencadear mesmo numa situação tão trágica, com reflexos positivos nas vidas dos camponeses até recentemente forçados a migrar.

“Alguns micróbios, através de hormônios vegetais e de substâncias antibióticas e antifúngicas liberadas no solo, ajudam o desenvolvimento da planta, protegendo-a também de organismos patogênicos São as bactérias que usamos nos nossos biofertilizantes: os primeiros já estão no mercado, produzidos por um empresa uzbeque”.

Recuperar o saber das tribos

Como Dilfuza Egamberdieva, também a fisiologista etíope Yalemtsehay Mekonnen (foto) estuda o solo e as plantas, relacionando-as com a saúde humana. Com 61 anos, dois filhos criados por seu marido e por sua mãe, enquanto ela completava o seu doutorado na Alemanha e graças também à bolsa de pesquisa TWAS, obtida no final da década de 1990, especializou-se no estudo das formigas como indicador de evoluções ecossistêmicas mais amplas.

“A presença delas indica a fertilidade do solo e a diversidade das plantas encontradas em uma determinada área. Nesta ótica, as formigas poderiam ser um indicador interessante da mudança climática” – diz ela, que a cada resposta agradece pela pergunta e sorri no seu ‘tailleur’ vermelho vivo.

Yalemtsehay também estuda a medicina tradicional, com a ideia de que “nós cientistas não devemos pensar nunca que já entendemos tudo”.

“Visitamos várias comunidades e perguntamos às pessoas que plantas usam para curar-se. Nas aldeias, quando se tem uma febre, uma dor de estômago ou a malária, não se vai ao médico ou ao hospital. Nós recolhemos amostras das plantas e pesquisamos as suas propriedades no laboratório, testando-as em camundongos. No momento estamos fazendo testes com plantas consideradas eficazes contra a malária. É o primeiro passo para o desenvolvimento de novos medicamentos”.

O caminho para chegar lá vai ser longo, mas ela, a primeira mulher professora universitária do seu país, não tem medo de não conseguir.

 

Veronica Ulivieri

 

VERONICA ULIVIERI ( @veroulivieri  )

Fonte: http://www.lastampa.it/2016/06/22/scienza/ambiente/focus/le-ricercatrici-che-aiutano-il-progresso-sostenibile-nei-paesi-emergenti-gVTxC46qEzD7LtarFih4ZI/pagina.html 

 

Veja também o vídeo:

TWAS: Building science in the South

https://www.youtube.com/watch?v=1i7epZuTYrk

 

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