PARA ALÉM DO PADRE CASADO (III) – A VITÓRIA DO SACERDOTE

Eduardo Hoornaert, Salvador – 2016

 Continuação da série de quatro artigos

Estudo dividido em Quatro blocos. Hoje publicamos o nº 3:

  1. O beijo de Judas                    
  2. Duas teologias conflitantes
  3. A vitória do sacerdote             
  4. Para além do padre casado

Em última análise, a tomada de poder eclesial pelo segmento sacerdotal explica a aceitação meteórica de um tipo de pensamento representado com brilho por Agostinho. Na época em que ele divulga seus pensamentos, a tomada de poder eclesiástico pelo estamento sacerdotal está em pleno curso. Para os novos donos do poder, Orígenes não interessa, pois seu pensamento não combina com o pensamento da corporação sacerdotal. Se quisermos entender melhor esse ponto, temos de cavar, mais uma vez, na história.

 

  1. Por um cristianismo comunitário

O movimento de Jesus nasce em oposição à corporação sacerdotal, estreitamente vinculada ao Templo de Jerusalém e aos detentores do poder político. Jesus critica veementemente o sistema sacerdotal vigente em Israel e acaba sendo condenado à morte por um tribunal composto de sacerdotes (o sinédrio de Jerusalém). Nas suas andanças pelas aldeias da Galileia, ele divulga seu pensamento por meio da estrutura sinagogal, que é de cunho comunitário, não corporativo.

Em oposição ao sacerdote, o rabi da sinagoga não pertence a alguma corporação. Seu vínculo fundamental é com a comunidade (aldeia) local. É dentro desse contexto que se compreende que o povo das aldeias costuma chamar Jesus de Mestre (em hebraico: rabi) e nunca o chama Sacerdote (não aprofundamos aqui a Carta aos Hebreus, que merece um estudo à parte).

O movimento de Jesus, ao longo dos primeiros duzentos anos, é liderado por Mestres como Tiago (seu irmão), Pedro, João e mais tarde (só para mencionar uns nomes) Hermas, Valentino, Marcião, Taciano, Justino, e muitos outros. Todos trabalham com o modelo sinagogal herdado do judaísmo.

O modelo dos três primeiros séculos de cristianismo não é hierárquico, mas comunitário e localizado (atua num determinado local). Nenhuma sinagoga depende da outra, há uma conglomeração de comunidades independentes. É isso que vemos nas Cartas de Paulo e nos relatos da atuação de Tiago (irmão de Jesus), Pedro, Barnabé e Maria Madalena. As comunidades são orientadas por lideranças naturais. Não há ordenação, nem imposição das mãos, nem hierarquia.

 

  1. Uma imagem do sacerdote

Mesmo assim, o subconsciente sacerdotal continua agindo, mesmo dentro do movimento de Jesus.

Pulsa, no íntimo do ser humano, por meio de uma herança ancestral,

  • a imagem do sacerdote (feiticeiro, adivinho, pajé), aquela figura que reza e executa ritos, pratica sacrifícios e entoa preces;
  • a imagem do povo de joelhos, a cabeça tocando o chão, o silêncio do santuário, o clima de recolhimento;
  • a imagem de templos, santuários, ordenanças rituais, preces, jejuns, dias sagrados, imposição das mãos, preceitos, regulamentos.

Um ponto particularmente difícil do seguimento de Jesus consiste em fazer passar essas imagens pelo crivo do Evangelho. Não podemos dizer o movimento de Jesus foi um sucesso total nesse ponto, pois percebemos, ao seguir a evolução do movimento de Jesus desde os inícios, que a imagem de Jesus se sacraliza rapidamente, com o correr do tempo.

E quando, no século IV, o Imperador escancara as portas do reconhecimento público ao movimento de Jesus, em poucos anos aparecem

  • casas de oração,
  • igrejas,
  • basílicas (antigas salas de audiência imperial),
  • santuários de peregrinação,
  • oratórios,
  • mosteiros,

enfim, uma explosão de religiosidade ‘sacerdotal’, ou seja, de ritos que postulam a atuação de um sacerdote. Aparecem novas frases, hoje costumeiras, como

  • ‘sacerdotes da Nova Aliança’,
  • que ‘participam do sacerdócio único de Jesus’
  • e celebram oSanto Sacrifício para expiar os pecados’.

Ouve-se dizer que ‘Jesus morreu por nossos pecados’, ‘ele é nosso redentor’, ‘nos reconcilia com Deus’, ‘é o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo’, ‘foi obediente até a morte para nos salvar’ (da condenação eterna) ’, é ‘vítima inocente oferecida a Deus para salvar a humanidade do pecado’.

Enfim, a linguagem sacerdotal entra no vocabulário cristão.

 

 

  1. A sacerdotalização e a resistência

O modelo comunitário, representado pela figura do Mestre, resiste bravamente, durante séculos, à síndrome sacerdotal corporativa. Já no século II, muitos Mestres passam a ser chamados ‘hereges’ (embora a palavra ‘heresia’, de início, não tenha nada de pejorativo, pois o termo grego significa ‘livre escolha’: os cristãos escolhiam livremente os Mestres que gostavam de ouvir e acompanhar).

A luta contra heresias, que esconde a luta por um novo modelo de liderança na Igreja, enche as páginas dos documentos que possuímos dos séculos II a VI. A partir do século VII, a heresia está sob controle e a ortodoxia sacerdotal reina soberana.

Como já escrevi acima, Orígenes é um dos últimos ‘hereges’ a serem condenados, no ano 533.  Sob a bandeira da ‘ortodoxia’ (leia: hegemonia sacerdotal), o metropolita Atanásio (de Alexandria) difunde, ao longo de uma vida agitada (século IV), a luta pela sacerdotalização e pela formação de uma corporação sacerdotal (o clero). Outros bispos fazem o mesmo e aos poucos conseguem impor o novo modelo. 

 

Mesmo assim, há sinais de resistência tenaz por parte do modelo comunitário.

Ainda no Concílio de Calcedônia, em 451, se pode ler um Cânone em que se declara que a ordenação de um sacerdote que não mantenha um vínculo efetivo e duradouro com uma determinada comunidade é inválida (Schillebeeckx, Edward, Por uma Igreja mais humana, Paulus, São Paulo, 1989). Ali, o modelo comunitário se mostra vivo.

Ele resiste até hoje e renasce nas Comunidades de Base.  Eis mais um ponto onde se verifica a organicidade do Movimento dos Padres Casados, a reatar esse vínculo comunitário não sacerdotal.  Pois há muitos padres casados que atuam como Mestres em comunidades, das mais variadas formas.

O ponto importante, aqui, consiste em compreender o vínculo entre a sacerdotalização e a formação corporativa. Esse vínculo é corrosivo, desmancha aos poucos o vínculo comunitário. Em vez de se relacionar diretamente com uma comunidade concreta, o líder cristão passa a se relacionar em primeiro lugar com sua corporação. Ele se torna membro de um clero. Escuta antes o bispo que as pessoas de sua comunidade.

 

  1. Ninguém reclama

Lendo estudos sobre essa evolução infeliz da Igreja, há quem joga a culpa em fatores exteriores a ela. A deturpação do instituto eclesial teria vindo de fora, como se diz tantas vezes. O Imperador Constantino teria ‘pervertido’ a Igreja por atraí-la dentro do âmbito da política imperial romana. Essa é uma meia verdade.O cristianismo não mudou unicamente por causa de influências de fora.

O retrocesso sacerdotal proveio fundamentalmente de forças que atuaram dentro da Igreja, foi um processo que se estendeu por séculos, uma mudança de mentalidade. Em muitas comunidades apareceram os ritos e as preces. Logicamente, apareceram líderes que se comportavam como sacerdotes. Iniciativas comunitárias e movimentos contrários aos interesses da hierarquia foram gradativamente abafadas e marginalizadas, quando não violentamente eliminadas.

Os teólogos, estranhamente, silenciaram. A impressão que se tem é que eles se acomodaram à nova situação sem reclamar. Isso é realmente estranho e realça ainda mais o valor de homens como Orígenes. Muitos teólogos passaram a ser teleguiados pelo clero, quando já não pertenciam a ele.

 

  1. É preciso cavar mais fundo

Hoje, não basta repetir

  • ‘somos Igreja’,
  • ‘a Igreja é o povo de Deus’,
  • ‘outra Igreja é possível’,
  • ‘clero não é a Igreja’.

Há de ir mais fundo e colocar o clero no seu devido lugar, depois de investigar como a Igreja funciona concretamente e fazer perguntas como a seguinte:

  • ‘a Igreja funciona como uma corporação? ’,
  • ‘hoje, a Igreja Católica está fundada no Evangelho? ’.

Uma resposta superficial, frequentemente dada, consiste em citar o Evangelho de Mateus 16.18: ‘Tu és Pedro e sobre essa pedra construirei minha Igreja’.

Contudo, há de se considerar que essas palavras são pronunciadas por um judeu diante de um judeu, o que significa que têm de ser analisadas tomando em conta a cultura judaica da época. Jesus elogia Pedro, isso é claro. Mas qual o sentido do termo ‘igreja’ (em grego ekklèsia) na boca de Jesus? Tomando em conta o contexto, esse termo aqui só pode significar a sinagoga. Jesus trabalhou intensamente, nas aldeias da Galileia, por meio do sistema sinagogal.

Pergunta-se: Jesus poderia ter na mente outra coisa senão a sinagoga quando falou com Pedro?  Um judeu falando a judeus poderia ter na mente outra coisa senão a sinagoga?  Lembro aqui que o termo grego ‘ekklesia’ é uma tradução do termo hebraico ‘knesset’, que significa sinagoga.

‘Minha sinagoga’ é a sinagoga dissidente que Jesus planeja formar, uma sinagoga que opera como as outras, mas traz uma nova mensagem, ou seja, um Evangelho. Jesus se imagina Pedro como Rabi, um pescador humilde como Mestre em Israel, a difundir a boa nova de um Deus Pai, do Reino de Deus. Jesus fica empolgado com a ideia, pois sua intenção consiste em formar um novo povo sinagogal, não segundo as orientações dos sacerdotes de Jerusalém, mas segundo o Evangelho.Uma sinagoga liderada por pescadores e camponeses.

Aqui temos de ter cuidado com anacronismos e leituras descontextualizadas, como aquela que aparece nas letras enormes da cúpula da Basílica de São Pedro em Roma: TU ES PETRUS ET SUPER HANC PETRAM AEDIFICABO ECCLESIAM MEAM

É verdade: o abandono do casulo sinagogal por parte do movimento de Jesus foi prematuro, pois criou um preconceito contra o povo judaico que se alastrou por séculos e ainda não foi inteiramente superado hoje. Há de se considerar que houve regiões em que a ‘separação dos caminhos’ entre cristianismo e judaísmo foi mais lenta e isso resultou numa transição mais harmoniosa. Existem documentos que mostram que, em algumas regiões, viveram judeus que, ainda no século VI, observavam a Torá e ao mesmo tempo seguiam o Evangelho de Jesus.

Não se precisa, por conseguinte, hostilizar os judeus para ser cristão. O que é preciso é urgente é dizer com firmeza que, de um ponto de vista evangélico, o sacerdócio é uma aberração.

 

 Eduardo Hoornaert xyEduardo Hoornaert

Padre casado, belga, com mais de 5O anos de Brasil, historiador e teólogo, professor, mais de 20 livros publicados. Mora em Salvador.

 

FONTE: http://padrescasadosceara.blogspot.com.br/2016/05/eduardo-hoornaert-salvador-2016-vitoria.html#more

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Nota do Editor:

sabemos que este artigo é polêmico e que não representa a Teologia do Sacerdócio de grande maioria dos Padres casados do MFPC nem de outros países. Publicamo-lo porque:

  • Faz parte de uma série de 4, da qual é o terceiro. E tem sentido no contexto dos outros três.
  • Eduardo Hoornaert é um pesquisador sério.
  • Apresenta o ministério como um serviço, não como uma honra ou um poder.
  • É bom apresentar visões variadas sobre o mesmo assunto.
  • Há alguns colegas, menos de meia dúzia no MFPC, que, vez por outra, têm levantado este questionamento da Teologia do sacerdócio cristão, no rumo da sua negação.
  • Pode suscitar uma boa discussão teológica

João Tavares

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