Bento XVI: “É a misericórdia que nos move em direção a Deus”

Bento XVI

ANDREA TORNIELLI – 16/03/2016

Tradução: Orlando Almeida –Foto: Bento XVI

Publicada em um livro a entrevista do teólogo jesuíta Jacques Servais com o papa emérito: “Somente onde há misericórdia acaba a crueldade, acabam o mal e a violência. Papa Francisco está totalmente em sintonia com esta linha. A sua prática pastoral expressa-se exatamente no fato de ele nos falar continuamente da misericórdia de Deus

 “Para mim, é um ‘sinal dos tempos’ o fato que a ideia da misericórdia de Deus se torne sempre mais central e dominante”. Palavra de Bento XVI.

Chega às livrarias o livro “Através da fé. Doutrina da justificação e da experiência de Deus na pregação da Igreja “(San Paolo, pp. 199, € 20 [edição italiana ndr]), editado pelo jesuíta Daniel Libanori, que traz as atas de um congresso teológico realizado em Roma, em outubro passado. Nesse evento foi lido por Dom Georg Gänswein o texto de uma entrevista com Ratzinger feita pelo teólogo jesuíta Jacques Servais sobre “o que é a fé e como se chega a acreditar”, na qual o Papa Bento cita o seu sucessor e fala amplamente da misericórdia.

Numa primeira resposta, Ratzinger reitera o que é a Igreja é e o fato de que a Igreja não foi feita por si mesma.

“Trata-se da questão: o que é a fé e como se chega a crer. Por um lado, a fé – explica o Papa Emérito – é um contato profundamente pessoal com Deus, que me toca no meu tecido mais íntimo e me põe diante do Deus vivo sem qualquer intermediação para que eu possa falar com ele, amá-lo e entrar em comunhão com ele.

Mas, ao mesmo tempo, essa realidade maximamente pessoal tem a ver inseparavelmente com a comunidade: faz parte da essência da fé o fato de eu me introduzir no nós dos filhos de Deus, na comunidade peregrina dos irmãos e das irmãs. A fé deriva da escuta (fides ex auditu), ensina-nos São Paulo. A escuta por sua vez implica sempre um parceiro.

A fé não é um produto da reflexão e nem mesmo um esforço de penetrar nas profundezas do meu ser. Ambas estas coisas podem estar presentes, mas elas são insuficientes sem a escuta através da qual Deus, de fora, a partir de uma história que ele mesmo criou, me interpela. Para que eu possa acreditar preciso de testemunhas que encontraram Deus e o tornam acessível para mim”.

“A Igreja não se fez por si mesma – reitera Ratzinger – ela foi criada por Deus e é formada continuamente por Ele.  Isto encontra a sua expressão nos sacramentos, sobretudo no do batismo: Eu entro na Igreja não com um ato burocrático mas através do sacramento. E isso equivale a dizer que eu sou recebido em uma comunidade que não se originou por si mesma e que se projeta para além de si mesma.

A pastoral que pretende formar a experiência espiritual dos fiéis deve proceder a partir destes dados fundamentais. É preciso que ela abandone a ideia de uma Igreja que produz a si mesma e fazer ressaltar que a Igreja se torna uma comunidade na comunhão do corpo de Cristo.  Ela deve introduzir ao encontro com Jesus Cristo e levar à Sua presença no sacramento”.

Respondendo a uma outra pergunta, o Papa emérito fala da centralidade da misericórdia.

“O homem de hoje de um modo geral tem a sensação de que Deus não pode deixar que a maioria da humanidade se perca. Neste sentido, a preocupação com a salvação, típica de outros tempos, quase desapareceu. No entanto, na minha opinião, continua a existir, de outra maneira, a percepção de que precisamos de graça e perdão. Para mim, é um “sinal dos tempos” o fato de que a ideia da misericórdia de Deus se torne sempre mais central e dominante –  a começar pela Irmã Faustina, cujas visões, de várias maneiras, refletem em profundidade a imagem de Deus própria do homem de hoje e o seu desejo da bondade divina”.

“O Papa João Paulo II – continua Ratzinger – estava profundamente imbuído deste impulso, embora isso nem sempre aparecesse de modo explícito. Mas não é certamente um acaso que o seu último livro, que foi publicado precisamente logo antes de sua morte, fale da misericórdia de Deus. Com base nas experiências nas quais desde os primeiros anos de vida constatou toda a crueldade dos homens, ele afirma que a misericórdia é a única verdadeira e última reação eficaz contra o poder do mal. Somente onde há misericórdia acaba a crueldade, acabam o mal e a violência”.

“O Papa Francisco – continua Bento citando o seu sucessor – encontra-se inteiramente em sintonia com esta linha. A sua prática pastoral expressa-se exatamente no fato de que ele nos fala continuamente da misericórdia de Deus. É a misericórdia que nos move em direção a Deus, enquanto a justiça nos assusta diante dele. Em minha opinião, isto põe em relevo que, sob o verniz da segurança de si e da sua própria justiça, o homem de hoje esconde um profundo conhecimento das suas feridas e da sua indignidade diante de Deus. Ele está à espera da misericórdia.

Não é por acaso certamente que a parábola do Bom Samaritano é tão atraente para os contemporâneos. E não apenas porque nela se enfatiza fortemente a componente social da existência cristã, nem só porque nela o samaritano, o homem não religioso em comparação com os representantes da religião, aparece, por assim dizer, como aquele que age realmente em conformidade com Deus, enquanto os representantes oficiais da religião se tornaram, por assim dizer, imunes em relação a Deus”.

“É claro que isso agrada ao homem moderno – observa ainda Bento XVI – mas parece-me no entanto igualmente importante, que os homens no seu íntimo esperem que o samaritano venha em seu auxílio, se curve sobre eles, derrame óleo sobre as suas feridas, tome conta deles e os ponha em segurança. Em última análise, eles sabem que precisam da misericórdia de Deus e da sua delicadeza.

Na dureza do mundo tecnicizado onde os sentimentos não valem nada, aumenta no entanto a espera de um amor salvífico que seja dado gratuitamente. Parece-me que no tema da misericórdia divina se expressa de uma maneira nova o que significa a justificação pela fé. A partir da misericórdia de Deus, que todos buscam, é possível hoje também interpretar de novo, dede o início, o núcleo fundamental da doutrina da justificação e fazê-lo aparecer ainda em toda a sua relevância “.

 

Andrea Tornielli 1

ANDREA TORNIELLI

http://www.lastampa.it/2016/03/16/vaticaninsider/ita/vaticano/benedetto-xvi-la-misericordia-che-ci-muove-verso-dio-hQchsDtYbueVABPLl9sUEK/pagina.html

Leave a Reply

You can use these HTML tags

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>