Quando passa a ser aceitável falar em fascismo?

Meu medo é que quando finalmente passar a ser aceitável chamar de fascismo tudo o que se comporta como fascismo, então já será tarde demais.

Lacombe – 08/03/2016

“É preciso sangue-frio para criticar abusos de poder contra inimigos, mas é exatamente isso o que nos torna dignos. Se hoje as instituições se vestem de uma suposta legalidade para vomitar poder sobre aqueles de quem não gostamos, e nos levam à euforia, é porque não pensamos que amanhã esse mesmo abuso de poder pode ser usado contra cada um de nós.”

O ambiente político brasileiro hoje é dos mais vulgares porque, sem espaço para reflexão pública, o que temos por aí são manifestações superficiais carregadas de ira, ódio e preconceito, e feitas por torcidas organizadas. A vulgaridade é tão enorme que até juiz se sente livre para chamar o povo às ruas.

Mesmo aqueles que tentam se aprofundar no debate fazem isso escolhendo um dos lados, como eu. Não há nada de errado em ter lado, muito pelo contrário: mil vezes os que têm lado do que os que fingem ficar num meio termo em nome de uma fictícia imparcialidade. Mas um dos riscos de tomarmos um lado, por mais legítimo que seja, é falharmos na análise do real perigo que nos ronda.

Ao aplaudirmos as ações autoritárias de um sistema judiciário que, tomado pela vaidade, extrapolou seus limites estamos legitimando que as coisas sigam assim antes de piorarem.

É preciso sangue-frio para criticar abusos de poder contra inimigos, mas é exatamente isso o que nos torna dignos. Se hoje as instituições se vestem de uma suposta legalidade para vomitar poder sobre aqueles de quem não gostamos, e nos levam à euforia, é porque não pensamos que amanhã esse mesmo abuso de poder pode ser usado contra cada um de nós.

Quando são criados pretextos — e todos eles passam pela promoção do medo — para justificar que instituições flertem com a ilegalidade a fim de nos controlar e vigiar e censurar e invadir e robotizar inaugura-se uma atmosfera de fascismo.

Historicamente é fácil perceber que o fascismo se instala sempre que o capitalismo fracassa. Como o sistema capitalista tem ciclos e, de sete em sete anos (pouco mais, pouco menos) mergulha em crises que geram desemprego, miséria, medo e terror, há sempre uma brecha para que o fascismo mostre suas garras.

Uma vez ameaçado, o capitalismo se revela pelo que é: um sistema desenhado para gerar enorme riqueza e incapaz de distribuí-la, concentrando-a nas mãos de poucos. E ao se revelar pelas entranhas o sistema é exposto à luz e começa a correr o risco de ser decifrado pela maioria, o que seria o seu fim.

Aí é a hora de entrar com a propaganda e manter o véu da ignorância sobre o sistema.

Ideologicamente não se fala, por exemplo, em como no capitalismo muitos trabalham para gerar a riqueza que vai para as mãos de poucos.

O discurso recorrente é: “como temos sorte de que poucos sejam suficientemente bons para gerar empregos para muitos”.

É preciso vender essa ideia porque é ela que nos manterá na linha, e de cabeça baixa.

Deixemos para lá a qualidade do emprego, ou a vida que levamos tendo que nos submeter a ele. Temos sorte de ter um emprego, conseguir marromeno pagar as contas e beber alguma coisa com amigos no fim do dia.

Mas é quando o capitalismo começa a ratear que essa realidade emerge para nos bater na cara, e nessa hora o fascismo renasce como mecanismo de proteção do sistema e método para blindar a concentração de renda, o capital e o opressor.

As ferramentas são as mesmas:

  • medo,
  • uns contra os outros,
  • homens brancos endinheirados ditando as regras,
  • necessidade de proteção,
  • censura,
  • povo calado e ameaçado
  • e, a mais grave, a utilização dos meios de comunicação, interessadíssimos na manutenção da concentração de renda e de poder, para executar a mágica de transformar o opressor em oprimido, e o oprimido em ameaça.

É preciso um arsenal midiático para moldar a opinião pública e, assim, fazer com que ela legitime as transgressões legais que visam manter a concentração de renda e de poder.

E então, como num filme de suspense, o bandido passa a ser mocinho e vende a ilusão de que nos salvará. Devidamente robotizados, vamos para as ruas defender apaixonadamente aqueles que nos manterão como reféns – e o sistema.

De seu gabinete luxuoso e aclimatizado, separado do povo por enormes janelas de vidro, o capitalista, vestido de instituição, bebe seu whisky e aplaude.

  • Ontem o abuso foi com Lula, que nem réu é ainda, e dane-se porque, afinal, nem gostamos dele. Que revirem sua casa, chutem portas, o levem para depor de forma coercitiva, instalem escutas em seu quarto e sala, invadam a vida de seus filhos e de quem mais com ele se relacionar.
  • Mas e se amanhã for com você ou com alguém do seu ciclo? Vai deixar de ser divertido porque nessa hora você entenderá a situação pelo que ela de fato é: a semente do fascismo.

Meu medo é que quando finalmente passar a ser aceitável chamar de fascismo tudo o que se comporta como fascismo então já será tarde demais.

Reconhecer e destruir formas de autoridade que não possam se justificar – e poucas delas se justificam – deveria ser missão de todo o cidadão. É o que Noam Chomsky define como anarquismo. Essa talvez seja uma boa hora para a gente entender isso.

 

 

Milly Lacombe

Fonte: http://blogdamilly.com/2016/03/08/quando-passa-a-ser-aceitavel-falar-em-fascismo/

 

1 comment to Quando passa a ser aceitável falar em fascismo?

  • Paulo Jorge Lúcio

    Diante da realidade do Brasil atual, tomar ou não tomar partido? Ter ou não ter um lado? Ainda bem que a articulista Milly Lacombe não nos tirou o direito de poder escolher um lado, diante de tanta sacanagem que estão fazendo com os brasileiros.Dependendo do lado que escolhermos, se não for o lado da insanidade do governo petista, corremos o risco de sermos tachados de fascistas. Ficar com a lei, a ordem e as instituições democráticas é fascismo. Este é o modismo do momento. Somos obrigados a assistir a um suposto líder, com os olhos esbugalhados e chispando ódio pelas narinas, insuflar a luta de classes, convocando povo a ir às ruas com ele, porque “quiseram matar a jararaca, mas bateram no rabo e não na cabeça; a jararaca está viva”. Este suposto líder pensa que está acima do bem e do mal, acima das leis e das instituições. Como bem disse o petista histórico, Olívio Dutra, ex-governador do Rio Grande do Sul e ex-ministro do próprio Lula, “quem mudou não foram os adversários. Nós é que mudamos – disse referindo-se ao PT- e para pior”. E ainda, segundo opinião de Olívio Dutra, “o Lula abriu um guarda chuva enorme, e debaixo desse guarda chuva veio um amigo daqui, um amigo dali, que criam situações”. E conclui: “Agora, cabe ao próprio Lula explicar, com toda a franqueza” (Entrevista a Luiz Maklouf Carvalho, 08/03/2016).
    Será por que tantos petistas históricos, fundadores do Partido dos Trabalhadores, deixaram o partido e/ou se calam envergonhados diante de tudo o que está acontecendo? A resposta é simples: É porque, ao trocar um projeto de governo para o povo por um projeto de poder, onde vale tudo, o PT traiu os ideais de muitos de seus fundadores. Começou com a espúria aliança do Lula com as oligarquias do antigo regime (Sarney, Maluf etc.). Depois, a endêmica corrupção estatal que gravita em torno do partido governista e seus aliados, cujos principais focos de roubalheira recaem sobre o Mensalão do PT e a Petrobrás. Isto porque estamos ainda só no começo. Só Deus sabe o que virá quando começarem a investigar o BNDES e outras estatais. Mas o maior erro do PT, por certo maior até do que a roubalheira da nossa maior empresa, orgulho dos Brasileiros, por certo o erro maior foi desiludir o povo, foi sufocar o sonho de um povo que colocou um operário na Presidência da República.
    Frei Betto, outro petista histórico e fundador do partido, ex-integrante do governo Lula, mas que abandonou o trem quando este começou a descarrilar, diz que “o PT se destacava como o partido da ética, dos pobres e da opção pelo socialismo. À medida que alcançou o poder (…) o projeto de Brasil deu lugar ao projeto de poder. O caixa do partido, antes abastecido por militantes, ‘profissionalizou-se’ (…). Os princípios éticos foram maculados por líderes envolvidos em maracutaias” (Frei Betto, in A Fábula Petista. Folha de S. Paulo, 10/11/2014).
    Para se perpetuar no poder vale-se da falta de ética, de um discurso mentiroso como o que Dilma fez em Campinas às vésperas da eleição, afirmando que “não vou aumentar impostos nem mexer no direito dos trabalhadores, nem que a vaca tussa”. Com esse discurso mentiroso e eleitoreiro, Dilma ganhou as eleições e seu partido se mantém por mais quatro anos no poder, totalizando dezesseis anos de ditadura petista.
    Hoje, irresponsavelmente, ao ver o caos político, econômico e social instalado no país, em seus confusos discursos, a Presidente transfere a culpa de seu desgoverno para as oposições, segundo ele, por falta de entendimento político. Desse modo vamos assistindo celeremente os 36 milhões saídos da linha de pobreza e os 44 milhões que, segundo Lula, subiram à classe média, descerem para onde estavam com a mesma rapidez com que subiram. Desemprego, inflação alta, carestia, educação de má qualidade, saúde pública zero e… muita roubalheira. Em alguns pontos estamos emparelhados com a Venezuela, onde falta até papel higiênico nos supermercados.
    Lula perdeu a oportunidade de se tornar o estadista que o Brasil tanto precisa e o grande líder que o país jamais teve. Há quem o coloque como o líder latino-americano. Um exagero que mostra bem a que ponto chegamos. Um verdadeiro líder respeita as leis e as instituições, e jamais ameaçaria “colocar o exército do Stédile nas ruas” (MST, CUT e outros). Um líder não afronta a lei nem manda que “enfiem esse processo no c.”. Um líder não insufla o povo à luta de classes, como ele o fez ao conclamar o povo a sair às ruas com ele, pois “bateram no rabo da jararaca e não na cabeça”. Nelson Mandela, este, sim, um líder verdadeiro, jamais fez isto. Temo pelo que possa acontecer dia 13 de março e em outros dias que virão com manifestações pró e contra o PT de Dilma e Lula. As reações de petistas exaltados e radicais na sexta feira passada diante do lugar onde Lula estava depondo e diante da sede do PT nos dão a ideia do que poderá virar este país. O caos está instalado, resta saber até quando. Por muito menos que isto Getúlio Vargas se matou, Jânio Quadros renunciou e Collor foi deposto. O Brasil não tem dono. O Brasil é de todos os brasileiros. Por favor, devolvam nosso orgulho de ser brasileiros.

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