Nada mais será como antes

“Dois dias depois da espetacular condução coercitiva de Lula a Congonhas fica claro que houve um tremendo erro de cálculo por parte dos arquitetos da operação. Lula talvez use o episódio para renascer e sair mais forte; já escutei amigos ex-petistas dizendo que, depois dessa sexta-feira, estavam voltando a ser petistas”.

Eu não tenho como saber se Lula é culpado de malfeitos. Até aqui nada foi provado e como nesses casos devemos presumir inocência, é o que faço. Tampouco sou contra que se investigue ex-presidente. Sou a favor. Lula não é melhor ou pior do que eu ou você e deve ser investigado. Assim como FH, sobre quem há dezenas e dezenas de suspeitas que, misteriosamente, são ignoradas.

Meu problema é que se investigue apenas um lado. Meu problema é que pedalinhos e antena de celular e barco de lata entrem para o debate nacional como grandes ofensas e únicas supostas provas que ligariam Lula ao crime.

Aliás, qual é o crime mesmo? Nada fica claro, os meios de comunicação não se preocupam muito em informar, o que aumenta minha encucação: por que esse desespero para provar que Lula faz alguma coisa errada, mesmo que seja uma besteira? Aceitar presentes? Sim, seria imoral, feio, baixo… mas é crime?

Uma amiga me escreve:

“Tenho em mãos o último livro do Umberto Eco, ‘Número zero’, que é uma verdadeira denúncia do que se transformou a imprensa no Ocidente. [Eco] diz: ‘A questão é que os jornais não são feitos para divulgar, mas para encobrir as notícias’. Além disso, mostra como a direita barra-pesada (elites locais + CIA + corporações) mudou de estratégia com o fim da Guerra Fria e a queda do Muro. De lá pra cá, se especializaram em destruir e desqualificar a política — partidos, associações, sindicatos –, enquanto tratam de cooptar e dirigir os sistemas judiciários. A operação ‘mãos limpas’ na Itália foi isso. E permitiu a ascensão do Berlusconi. No Brasil, a Lava Jato tem rigorosamente o mesmo objetivo. É ou não é essa a receita? Somos todos corruptos, nenhum partido presta — especialmente o PT –, e aí vem o Moro (!!!) resolver nossos problemas?”

Eu concordo com ela; concordo, aliás, com todas as palavras.

Precisava tanto espetáculo? Moro e a Globo pensam que sim. Mas o tiro saiu pela culatra

Na sexta-feira, logo depois que 200 policiais foram à casa de Lula e o meteram em um camburão apenas para que ele fosse depor, saí a pé para fazer uma série de coisas pela rua, e sempre que encontrava alguém o papo era: “Hoje é um grande dia, não?”. Eu mantinha a calma e devolvia: “Por que?” “Ué, porque o bandido foi preso”. Eu respondia: “Acho que ele foi depor, não foi preso. Mas do que ele é culpado, você sabe? O que faz dele um bandido?”. “Ah, a roubalheira, né?”E eu perguntava: “Foi provado que ele roubou?”, e o conhecido mudava de assunto. Tive esse mesmo diálogo com quatro pessoas do meu ciclo, e nenhuma delas foi capaz de segurar o debate, ou de esclarecer qualquer coisa. Eram apenas robôs que repetiam o que o noticiário havia sugerido como verdade.

Claro que é apenas triste que homens e mulheres levemente informados saiam por aí decretando cana, ou comemorando o que, no imaginário deles, tinha sido a prisão de Lula. É a eficácia da manipulação do noticiário, “feito para encobrir”, como escreveu Eco. Quem e o que eles estariam encobrindo nesse nosso Brasil atual?

As pessoas não entendem direito o que acontece, mas repetem sem pensar que Lula é ladrão e deve ser preso. A partir daí não se sabe muito mais. Há os que tentam mostrar que estão apenas do lado do bem e dizem platitudes tolas como: “que prendam todos, de todos os partidos”.

É triste ver aquele que já foi um grande jornal colocar panfleto em editorial, chamando para o impeachment e Lula de “o chefe do bando”. Triste ver o mesmo jornal dar voz ao outro ex-presidente, tão ou mais suspeito do que Lula, e tentar pintá-lo como estandarte de todas as coisas íntegras e certas.

O povo na rua, apoiando Lula, agora feito vítima por erro de cálculo de Moro

O operário e o sociólogo: era apenas natural que o preconceito acabasse por tratá-los com essa diferenciação, ainda que a presidência do operário, a despeito de todas as suspeitas, não possa ser comparada em qualidade à do sociólogo. Desconfiamos que todos eles tenham feito coisas erradas, mas sabemos exatamente o que fizeram de correto e, nesse jogo, Lula ganha de FH de goleada.

Não reconhecer que a Lava Jato até aqui é uma operação desenhada para pegar Lula é problema de cognição. O que não quer dizer que Lula seja inocente – talvez não seja -, mas uma operação altamente tendenciosa como essa perde a lisura e a credibilidade logo na saída. Por que tanto esforço para pegar apenas um homem? O que ele representa? Por que a necessidade de calá-lo na marra?  Por que ignorar todas as pistas que levam a Aécio, FH, Serra…? Pensar sobre essas respostas pode ajudar no entendimento do que está acontecendo.

Por que a “Justiça” só olha para o PT e esquece o PSDB, etc.? Síndrome de Brindeiro, o engavetador-mor de todos os processos contra FHC?

Dois dias depois da espetacular condução coercitiva de Lula a Congonhas fica claro que houve um tremendo erro de cálculo por parte dos arquitetos da operação. Lula talvez use o episódio para renascer e sair mais forte; já escutei amigos ex-petistas dizendo que, depois dessa sexta-feira, estavam voltando a ser petistas.

Me parece que chegamos, graças a ação destrambelhada de Moro na condução de Lula a um simples depoimento, a um ponto a partir do qual não há volta, nem mais meio-termo ou a figura do isentão. É hora de escolher um dos lados, e as máscaras não vão mais se segurar coladas à face.

Entrincheirados, vamos para a batalha: de um lado os que querem Lula preso, Dilma impedida e o partido que melhor representa os anseios da elite de volta ao poder. Do outro, a rapa; formada pela militância, claro, mas também pelos que ainda teimam em pensar por conta própria e buscam a verdade, seja ela qual for, doa ela a quem doer.

E eu, que nunca fui petista, digo que se nada for provado contra Lula, e se ele decidir sair candidato em 2018, vou para as ruas fazer campanha.

Milly Lacombe

Fonte: http://blogdamilly.com/2016/03/06/nada-mais-sera-como-antes/

3 comments to Nada mais será como antes

  • Joarez Virgolino Aires

    Milly Lacombe, depois de ler tua excelente matéria, fiquei lamentando não te conhecer pessoalmente.
    Andava muito acabrunhado e frustrado com a modia e descrente dos jornalistas em geral! Mas eis que das ruínas vejo emergir tua figura, com um discurso bem articulado e intelectualmente bem nutrido!
    Sem nenhuma credencial ou autorização do MFPC, gostaria de propor aos meus companheiros que comparecesses em nosso Congresso de janeiro de 2017 com uma palestra de análise conjuntural!

  • Beto

    Milly – quem não deve, não teme. Graças à toda esta roubalheira e à incompetência do atual governo PT, 12 milhões de brasileiros estão desempregados, muitas indústrias que deveriam gerar riqueza, estão parando, a criminalidade tomou conta devido ao “belo” exemplo do governo. Tudo o que você escreveu não tem nada a ver com a realidade brasileira. Se liga, Milly.

  • Paulo Jorge Lúcio

    Como brasileiro e ex-eleitor do PT e do (des)governo que está instalado em Brasília, sinto-me traído em minhas intenções de ver este país se tornar um país sério. Quando votei no Lula e, posteriormente, na Dilma, acreditei que isto seria possível. Hoje, o próprio Lula confessa que o discurso do PT, elaborado para ganhar as eleições, foi um, e a prática, depois de ganhas as eleições, é inteiramente outra. Ou seja, Dilma, Lula e todo o staff do PT mentiram deliberadamente. Enganaram o povo brasileiro. Os mais iludidos são os que menos pensam, ou, como dizia Lula ao criticar os planos sociais de seu adversário político FHC antes das eleições de 2002: os mais iludidos são os que pensam com o estômago, como a grande massa dos destinatários do Bolsa Família. Estes são os que decidem eleições no Brasil. Como dizia Lula antes de subir ao poder, estes, os que não pensam ideologicamente, mas com o estômago, são eleitores de cabresto, que votam em quem seu estômago aponta. Assim foi decidida a última eleição. Sabia-se que Dilma mentia em seu discurso, mas quem decidiu foram os brasileiros do bolsa família. Lula estava certo em suas antigas críticas. O descalabro do PT foi ter trocado um plano de governo para o povo por um plano de poder. E para manter-se no poder, vale tudo. Isto é o que estamos vendo. As relações de Lula e Dilma com esse projeto de poder devem ser investigadas sim. Ou será que tem gente que acredita que Lula e Dilma não tinham conhecimento de como foram feitas as negociações para a compra da Refinaria de Passadena? E as relações de Lula com as empreiteiras e com os diretores e donos das grandes construtoras? E os milhões de dólares ilícitos desviados da Petrobrás injetados nas campanhas presidenciais? Pedalinhos e barcos de lata citados na matéria são fichinhas irrelevantes. Lula e Dilma têm que ser investigados sim, pois, como presidente e ex-presidente, não estão acima da Lei e das Instituições. Como qualquer brasileiro ou brasileira devem se submeter à Lei. Isto vale para todos os brasileiros, mesmo os que já se sentaram na cadeira de Presidente da República. Acorda, Brasil!!!

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