Pio XII apoiou desde 1939 três complôs para matar Adolf Hitler

Mark Riebling publica gravações inéditas feitas no escritório do Papa

 JUAN VICENTE BOO –  06/03/2016 

“Em uma longa conversa com ABC, pouco depois de ter entregado ao Papa Francisco uma cópia do seu último livro: “Igreja de Espiões. A guerra secreta de Pio XII contra Hitler” (Stella Maris, 2016), Riebling comenta: “trabalhando em livros anteriores descobri que em 1945 a espionagem americana tentava infiltrar-se no Vaticano, e encontrei 10 documentos importantes que demonstravam que Pio XII tinha tentado derrubar Hitler. Eram ‘pistolas fumegantes’: Pio XII não era o Papa de Hitler!”.

Tradução: Orlando Almeida

Mark Riebling é um especialista em inteligência e anti-terrorismo, um dos organizadores do serviço da polícia anti-terrorista de Nova York após o atentado contra as Torres Gêmeas, trabalhando com o ex-chefe de anti-terrorismo da Casa Branca, Richard A. Clarke.

Mas sua vocação acadêmica é a de historiador dos serviços de inteligência, sobre os quais tinha escrito dois livros antes do atentado de 11 de setembro de 2001.

Mark Riebling entrega a Francisco en la audiencia general del pasado miércoles un ejemplar de su últmo libro en el que aporta pruebas de que Pío XII no era el «Papa de Hitler»

Mark Riebling entrega a Francisco na audiência geral de quarta-feira passada um exemplar do seu último libro em que traz provas de que Pio XII não era o «Papa de Hitler» – AGENZIA MONICA

 Em uma longa conversa com ABC, pouco depois de ter entregado ao Papa Francisco uma cópia do seu último livro: “Igreja de Espiões. A guerra secreta de Pio XII contra Hitler” (Stella Maris, 2016), Riebling comenta: “trabalhando em livros anteriores descobri que em 1945 a espionagem americana tentava infiltrar-se no Vaticano, e encontrei 10 documentos importantes que demonstravam que Pio XII tinha tentado derrubar Hitler. Eram ‘pistolas fumegantes’: Pio XII não era o Papa de Hitler!”.

Francisco agradeceu-lhe o livro e pediu-lhe que rezasse por ele. Para o Papa este não é um tema qualquer.

Há uns dois anos, em uma entrevista com Henrique Cymerman, Francisco lamentou o acontecido desde 1963 com “o Papa que liderou a Igreja durante a Segunda Guerra Mundial.  Lançaram de tudo sobre o pobre Pio XII. Mas é preciso lembrar que ele antes era visto como o grande defensor dos judeus“.

Francisco lembrou que Pio XII “escondeu muitos judeus nos conventos de Roma e outras cidades italianas, e também na residência de verão de Castel Gandolfo. Lá, no quarto do Papa, na sua própria cama, nasceram 42 bebês, filhos de judeus e de outros perseguidos. Não quero dizer que Pio XII não tenha cometido erros – eu mesmo cometo muitos –, mas o seu papel deve ser lido no contexto da época. Era melhor, por exemplo, que não falasse para não matarem mais judeus, ou fazê-lo?”.

Francisco não sabia naquele momento o que Riebling publica agora.

Pio XII mantinha seu silêncio em público, a pedido de grupos judeus, de grupos anti-nazistas e de aliados.

Mas, ao mesmo tempo, realizava desde 1939 uma intensa atividade clandestina em apoio à resistência alemã – incluindo chefes militares de alta patente, cuja ligação externa como intermediário com os aliados era o Papa, – e a três tentativas de assassinar Hitler.

Pio XII instalou um sistema de gravação magnetofônica das reuniões em seu escritório em 1939, três décadas antes das fitas de Nixon no escândalo Watergate.

Riebling tinha visto uma referência a essas gravações, mas não tinha certeza de que existiriam, “até que um dia perguntei ao padre Peter Gumpel, um historiador jesuíta, e ele me disse que era verdade. O Vaticano fazia-as como medida de precaução para o caso de alguém falsificar depois o conteúdo de conversas sensíveis com o Papa”.

As primeiras gravações e transcrições são de uma reunião de Pio XII, em seu quinto dia como Papa, com os cardeais das grandes cidades do Reich, que tinham vindo para o conclave.

Foi em 6 de março de 1939, e nela foi abordada a estratégia de contenção clandestina de Hitler. Pio XII não podia ser muito explícito, porque um dos cardeais, Theodor Innitzer, de Viena, tinha dito no ano anterior, quando Hitler invadiu seu país, que a Igreja apoiava os nazistas. Eugenio Pacelli, então Secretário de Estado, teve que chamá-lo ao Vaticano, obrigando-o a assinar uma retratação.

A espinha dorsal da resistência contra Hitler era cardeal de Munique Michael von Faulhaber, e a figura-chave das conspirações seria um corpulento advogado dessa cidade, Josef Müller, um amigo de Eugenio Pacelli desde seus tempos de núncio na Baviera, Alemanha e Prússia.

Müller participava das conjuras militares para assassinar Hitler e atuava como elo de ligação com o Papa graças a dezenas de voos clandestinos no seu pequeno avião.

A organização das ligações civis apoiava-se sobretudo em valorosos jesuítas alemães já que os bispados estavam infiltrados pelos nazistas.

Riebling encontrou os interrogatórios de Josef Müller feitos por um agente da OSS, precursora da CIA, que interrogava generais alemães prisioneiros no fim da guerra e que, mais tarde, como professor de história na Universidade de Minnesota, continuou a manter e gravar durante 15 anos longas conversas com Müller, que acabaram neste livro.

Outra grande ajuda foi a de Ray Rocca, um dos agentes americanos que trabalhava com o célebre James Jesus Angleton na tarefa de espiar a Santa Sé.

Riebling usou todos esses dados “para fazer uma cronologia diária de cada personagem. E depois escrevi-o com a narrativa cinematográfica própria de um thriller. Porque a história não deve ser chata !”.

O seu livro documenta o planejamento de três tentativas de assassinato contra Hitler. A primeira, de outubro de 1939 a maio de 1940, a segunda de 1942 até à primavera de 1943, e a terceira, muito mais conhecida, em 20 de julho de 1944.

O atentado do coronel Claus von Stauffenberg com uma maleta explosiva terminou com a prisão e a execução de todos os conspiradores, do almirante Wilhelm Canaris, chefe da inteligência militar, e vários jesuítas alemães, até o teólogo luterano Dietrich Bonhoeffer.

O objetivo era matar Hitler e depois deixar que a frente do Ocidente desmoronasse, de modo que a Alemanha fosse invadida por americanos, britânicos e franceses, para evitar uma ocupação soviética comunista.

Segundo Riebling “, a primeira pessoa que acusou Pio XII de conspirar com a resistência alemã e com os aliados contra a URSS foi Stalin: em 1944 na agência TASS, e em 1946 numa publicação Checa. É uma fonte sólida”.

Pio XII em visita ao birro San Lorenzo, em Roma

 ***

Gravações de Pio XII: carta a Hitler e rede secreta

Encontros com os cardeais do Reich: Faulhaber de Munique, Bertram de Breslau, Schulte de Colônia e Innitzer de Viena

  •  06 de março de 1939

O Papa leu para eles um rascunho de carta a Hitler e pergunta:

Pio XII: “Os senhores acham que este documento é apropriado, ou deveria-se acrescentar ou alterar alguma coisa?”

Faulhaber: “Tem que ser em latim? Tendo em conta a aversão do Führer por línguas não germânicas, talvez fosse melhor que não tivesse que recorrer a um teólogo”

Pio XII: “Podemos escrevê-lo em alemão. Temos de pensar no que é melhor para a Igreja na Alemanha. Para mim esta é a questão mais importante “

(…)

Faulhaber: “Eles (os nazistas) assemelham-se tanto aos combatentes que dá a impressão que procuram razões para lutar. Especialmente se a luta é contra a Igreja! (…) “

Pio XII: “Se eles querem briga, não tenhamos medo. Mas ainda falta saber se é possível de alguma forma chegar a uma solução pacífica … Quando tivermos tentado  de tudo e eles querendo continuar a guerra, iremos à luta. Se eles recusarem (a paz), devemos  lutar. “

 

  • 09 de março de 1939

Pio XII: “A primeira questão é o serviço de correio entre a Santa Sé e os bispos alemães. A questão é de vital importância, uma vez que o sistema de ligação é a única maneira de obter mensagens secretas “

(Discutem duas opções de ligação clandestina)

Pio XII: “Trata-se de  um mensageiro que não pertença oficialmente à Santa Sé, mas que seja de  muita confiança. Essa pessoa viajará uma vez por semana … “

Faulhaber: “Na Baviera trocamo-los com frequência para evitar a polícia os pegue”

(o debate continua)

Pio XII: “Não devemos perder a paciência. Simplesmente, não podemos ceder nem render-nos”.

 

JUAN VICENTE BOO

 Corresponsal En El Vaticano

FONTE: http://www.abc.es/sociedad/abci-apoyo-desde-1939-tres-complots-para-matar-adolf-hitler-201603060256_noticia.html

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