AGIR COMO IRMÃOS, NÃO COMO CONCORRENTES

Agire da fratelli, non da concorrenti

IGREJA ORTODOXA RUSSA – Departamento de Relações Exteriores do Patriarcado de Moscou

Alexey Sosedov  – 8/02/2016

 Em 12 de fevereiro de 2016 teve lugar em Havana o primeiro encontro do Patriarca de Moscou e de Toda a Rússia com o Papa, uma reunião que estava na ordem do dia das relações entre as duas Igrejas desde há 20 anos..

Tradução: Orlando Almeida

O metropolita Hilarion de Volokolamsk (Foto acima), presidente do Departamento de Relações Exteriores do Patriarcado de Moscou, nesta entrevista concedida a “Interfax-Religion”, faz um balanço do encontro e explica se ele pode ajudar a resolver os problemas pendentes entre as duas Igrejas, se se deva temer uma aproximação com os católicos, se se pode prever uma visita do Papa à Rússia e do Patriarca a Roma.

 EIS A ENTREVISTA

Eminência, como avalia os resultados do encontro do Patriarca Cirilo com o Papa Francisco?

– Foi dito muito sobre o fato de este ser o primeiro encontro na história, que um encontro assim nunca ter ocorrido. Mas acho que a coisa mais importante está no conteúdo do encontro. Naturalmente, é bom ver o Papa e o Patriarca juntos, falando em um ambiente fraterno, sorrindo um para o outro. Mas a coisa mais importante é o conteúdo substancial do encontro, que se reflete plenamente na declaração conjunta assinada pelo Papa e pelo Patriarca. Eu acredito que a declaração permanecerá por muito tempo como um farol, que servirá de orientação para as duas tradições cristãs, ortodoxa e católica.

Na declaração foram ditas palavras importantes, sobre o Evangelho como base comum para os fiéis do Oriente e do Ocidente, e sobre como pôr em prática os mandamentos do evangelho nas condições da vida moderna. Esta declaração é um guia, um vade-mécum para a ação.

Quanto este evento histórico poderá ajudar a resolver o principal problema nas relações entre as duas Igrejas, o dos greco-católicos na Ucrânia?

– Nos últimos dias os meios de comunicação têm noticiado a reação do arcebispo maior da Igreja Greco-Católica ucraniana à declaração conjunta do Papa e do Patriarca. Foi uma reação muito negativa, muito ofensiva, não só para nós mas também para o Papa. Estas declarações mostram que a liderança na Igreja greco-católica ucraniana continua fiel, como se diz, ao seu costumeiro repertório. Eles não estão dispostos a ouvir nem a voz do nosso Patriarca, nem também a voz do Papa.

Eles têm a sua agenda politizada, os seus clientes impõem-lhes tarefas concretas, e eles fazem o que lhes é pedido, e até mesmo o Papa não tem autoridade alguma para eles.

Que passos conjuntos podem ser dados para chegar a um entendimento com os greco-católicos? Poderia talvez ser criada uma Comissão Mista da Igreja russa e da Igreja Católica?

– A ideia de criar uma espécie de comissão, que ajude a resolver o problema do uniatismo, existe efetivamente. Mas é difícil imaginar as tarefas específicas desta comissão, especialmente considerando a atitude dos líderes da Igreja greco-católica.

No início dos anos 90, foi criada uma comissão quadripartite para resolver problemas concretos, práticos, de convivência entre ortodoxos e greco-católicos no oeste da Ucrânia. Mas os greco-católicos deixaram esta comissão de forma unilateral, não queriam participar. Eu acho que isso é devido ao fato de que eles não querem percorrer o caminho que o Papa e o Patriarca nos indicam na sua declaração conjunta.

A rota proposta pelo Papa e pelo Patriarca é um caminho de cooperação nas áreas em que essa cooperação é possível. É um caminho de renúncia à competição e de passagem para uma relação fraterna. Mas o greco-católicos não querem isso. A sua retórica é agressiva, hostil, desrespeitosa, e está em claro contraste não só com o conteúdo da declaração, mas também com o seu estilo, com a sua mensagem pastoral, com aquele espírito de reconciliação que emana da declaração.

Um assunto que é de particular interesse para os jornalistas: podemos esperar uma visita do papa à Rússia?

– Este assunto não foi discutido no encontro do Papa e do Patriarca. Talvez seja um tema que interessa a muitos, mas eu não tive a impressão de que interesse ao Papa. Pelo menos, não se falou disso na reunião. Por enquanto não se fala de uma vinda do Papa a Moscou, nem do Patriarca a Roma.

Em vez disso, fala-se do fato de que devemos aumentar a cooperação, aprofundar a compreensão recíproca, procurar superar o mais rapidamente possível o negativo que se acumulou nas relações entre ortodoxos e católicos, e trabalhar pela convergência em nível dos corações e das mentes. E então o tempo nos mostrará como agir. Eu acredito que, quando as condições estiverem maduras para um outro encontro, então decidiremos quando e onde fazê-lo.

Há previsão de as duas Igrejas desenvolverem intercâmbios em termos de peregrinações?

– Durante o encontro do Papa com o Patriarca foi dito que devemos ser mais abertos uns aos outros no que diz respeito às peregrinações. Por exemplo, todos os dias há um fluxo considerável de peregrinos ortodoxos em Bari, por causa das relíquias de São Nicolau. E os santuários ortodoxos também são visitados por peregrinos da Igreja Católica. Mas podemos intensificar esses dois fluxos, porque é muito importante que as pessoas se encontrem, e que uns possam ter acesso aos lugares santos que estão no território dos outros.

É possível que sejam trazidas de Roma para a Rússia as relíquias dos Apóstolos Pedro e Paulo, ou as de São Tiago, da Espanha?

– Acho que é perfeitamente possível. E acho que, se as relíquias dos santos que são venerados na nossa Igreja e que são guardadas pelos católicos, forem trazidas para a Rússia, o nosso povo vai ficar muito contente. Naturalmente, também é possível o movimento inverso, ou seja, que as relíquias da Igreja ortodoxa russa possam ser trazidas por algum tempo para o Ocidente, para que os fiéis da Igreja Católica possam venerá-las.

Parece-lhe que isso seja possível em um futuro não muito distante?

– Espero que a primeira troca de relíquias se realize já no decurso deste ano.

 – Como as duas Igrejas defenderão agora os valores morais tradicionais?

– No que diz respeito à tutela dos valores morais tradicionais, nisto estamos em plena unidade com a Igreja Católica. Entendemos o casamento como uma união entre um homem e uma mulher para o nascimento e o crescimento dos filhos. Acreditamos que é necessário proteger a vida humana desde a concepção até à morte natural. Somos contrários ao aborto. E palavras muito fortes foram usadas na declaração conjunta em defesa da vida, para a tutela do direito de todas as pessoas à vida. Acho que nessas áreas deveremos reforçar a nossa cooperação.

Nos últimos dias soube-se que o núncio apostólico na Rússia, Mons. Ivan Jurkovic, será transferido de Moscou para Genebra. Essa decisão tem algo a ver com o encontro do Patriarca com o Papa? Sabe-se quem será o próximo Núncio na Rússia?

– Não sabemos quem será o próximo Núncio. O fato de que o arcebispo Ivan Jurkovic tenha sido designado para Genebra, foi informação que vi na mídia. A nomeação dos núncios é um assunto interno do Vaticano, do Vaticano como Estado. O Núncio Apostólico é o embaixador do Vaticano em outro Estado. Portanto, a nomeação de núncios não é uma questão que diz respeito às relações entre as Igrejas.

Não se deve, em hipótese alguma, interpretar esta nomeação como devida a um nosso descontentamento em relação ao Núncio atual. Pelo contrário, temos tido um excelente relacionamento com o Núncio Ivan Jurkovic, assim como com o seu predecessor. Não temos nenhuma reclamação contra ele e somos-lhe gratos pela cooperação construtiva. Creio que a sua nomeação se deva unicamente ao ritmo com que os núncios, como outros embaixadores, são substituídos, depois de servir em uma sede, normalmente por quatro anos. Apenas uns dois dias antes da nossa partida para Havana, o Núncio Ivan Jurkovic foi hóspede do programa de televisão que eu dirijo, e tivemos uma boa conversa. Eu tinha ouvido falar que se estava preparando a sua nomeação para algum lugar, mas não tive a possibilidade de perguntar a ele.

Alguns ortodoxos têm medo de uma aproximação com os católicos, vendo nela o perigo de uma fusão completa das Igrejas ortodoxa e católica. O que você pode dizer a essas pessoas?

– Antes de tudo, gostaria de aconselhá-las a ler atentamente a declaração do Papa e do Patriarca, que mostra quais foram os temas da conversa. Não houve nenhuma tentativa de reaproximação doutrinal e não se discutiu qualquer questão dogmática ou teológica. E, mesmo agora, essas discussões não estão na ordem do dia. A declaração começa com a consideração de que a perda da unidade, a nós pedida por Deus, descumpre o mandamento de Cristo, expressado na sua última oração, a oração sacerdotal: “Que todos sejam um”. Infelizmente, os cristãos não foram capazes de manter esta unidade, os cristãos do Oriente e do Ocidente estão divididos e não compartilham a Eucaristia.

Mas agora não se trata de superar essa divisão, mas de aprender a viver e agir no mundo não como rivais, mas como irmãos, para juntos protegermos os valores que nos são comuns, para juntos pregarmos o Evangelho, para darmos testemunho a todos da verdade de Deus. E isso é o que podemos fazer juntos hoje.

Gostei das palavras que Raul Castro disse ao Patriarca Cirilo, quando o patriarca se referiu ao encontro iminente com o Papa. O Presidente Raul citou um provérbio que diz que qualquer viagem, mesmo a mais longa, começa com o primeiro passo.

Este primeiro passo foi dado, e agora espero que por esta longa estrada os fiéis das duas tradições se ponham a caminhar juntos, sem ter que fazer qualquer compromisso com a própria consciência, sem compromissos doutrinários, mas defendendo o que nos é comum.

  Alexey Sosedov

 Fonte: https://mospat.ru/it/2016/02/18/news128648/

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