«NÃO TENHAM MEDO DA CHINA»

L'udienza generale del Mercoledì di Papa Francesco

A histórica entrevista do Papa

O Papa Francisco concedeu sua primeira entrevista sobre a China e sobre o povo chinês no dia 28 de janeiro a Francesco Sisci, jornalista do Asia Times e pesquisador da Universidade Renmin da China. Do Vaticano o Papa encorajou o mundo a não temer a rápida ascensão da China numa entrevista histórica que durou uma hora. Aqui está a tradução do artigo que apareceu no ‘site’ do jornal oriental.

 3/02/de 2016 – Tradução do Italiano: Orlando F. R. Almeida

Ele percebeu logo, ou pelo menos foi o que me pareceu, e procurou colocar-me à vontade. Estava certo. De fato, eu estava nervoso. Passei longas horas anotando cada detalhe das perguntas que lhe iria dirigir e ele quis tempo para pensar e meditar sobre elas. Eu solicitei uma entrevista sobre aspectos culturais e filosóficos que dizem respeito a todos os chineses, dos quais 99% não são católicos. Eu não queria abordar questões religiosas ou políticas, sobre as quais outros papas se haviam expressado, em outras circunstâncias.

Eu esperava que o Papa Francisco pudesse transmitir aos chineses a sua enorme empatia humana, falando pela primeiríssima vez sobre aspectos que os preocupam diariamente: a ruptura da família tradicional, a dificuldade em serem compreendidos e em compreender o mundo ocidental, o sentimento de culpa por experiências do passado, como a Revolução Cultural, e assim por diante. Ele conseguiu e deu motivos de esperança, de paz e de conciliação mútua, para os chineses e para as pessoas interessadas na rápida ascensão chinesa.

O Papa está convencido de que os chineses estão num momento positivo. Afirmou que não deveriam ficar espantados por isso, nem deveria ficar espantado o resto do mundo. Acredita também que os chineses têm um grande legado de sabedoria que enriquecerá a eles e aos outros, e que ajudará todos a encontrar um caminho pacífico para o futuro. Esta entrevista é, sob alguns aspectos, a maneira com que o Papa abençoa China.

Papa Ch 2  

O que é a China para o senhor? Como imaginava que fosse a China, quando era jovem, considerando o fato de que a China, para a Argentina, não é o Oriente mas o Far West? O que significa Matteo Ricci para o senhor?

“Para mim, a China foi sempre um ponto de referência pela sua grandeza. Um grande País. Mas mais do que um País, uma grande cultura, com uma sabedoria inesgotável. Quando era garoto, quando eu lia alguma coisa sobre a China, isso tinha o poder de inspirar a minha admiração. Admiro a China. Mais tarde interessei-me pela vida de Matteo Ricci e percebi como esse homem sentia da mesma maneira que eu sentia admiração, e entendi como ele era capaz de dialogar com esta grande cultura, com esta sabedoria antiga. Ele era capaz de “encontrá-la”. Quando eu era jovem, e se falava da China, pensávamos na Grande Muralha. O resto não era conhecido no meu País.

Mas entrando mais na questão, tive uma experiência de encontro que foi muito diferente, por período e por modalidade, da que teve Ricci. Deparei-me com algo que eu não esperava. A experiência de Ricci nos ensina que é necessário entrar em diálogo com a China, porque é um acúmulo de sabedoria e história. É uma terra abençoada por muitas coisas. E a Igreja Católica, entre cujos deveres está o de respeitar todas as civilizações, antes de civilizar, eu diria que tem o dever de respeitá-la com um R maiúsculo. A Igreja tem um grande potencial para receber a cultura. Um dia desses tive a oportunidade de ver as pinturas de um outro grande jesuíta Giuseppe Castiglione, ele também tinha o vírus do jesuíta (ri).

Castiglione sabia como expressar a beleza, a experiência da abertura no diálogo: receber dos outros e dar-se aos outros, em um comprimento de onda que é “civilizada” pelas civilizações. Quando digo “civilizada”, não entendo apenas civilizações “cultas”, mas também civilizações que se encontram umas com as outras. Além disso – não tenho certeza se é verdade – mas dizem que Marco Polo quem trouxe os espaguetes (macarrão) para a Itália. Portanto foram os chineses que os inventaram. Não sei se é verdade. Mas digo-o ‘en passant’.

Esta é a impressão que tenho, um grande respeito. E mais do que isto, quando atravessei a China pela primeira vez, me disseram no avião: “Dentro de dez minutos, entraremos no espaço aéreo chinês e enviaremos as suas saudações”. Confesso que me senti muito emocionado, uma coisa que não me acontece costumeiramente. Eu estava comovido profundamente por estar voando sobre esta grande riqueza da cultura e da sabedoria. “

Papa Ch 3

 Pe. Matteo Ricci 

  A China, pela primeira vez na sua história milenar, está emergindo de seu ambiente e está se abrindo para o mundo, criando para si mesma e para o mundo desafios nunca vistos antes. O senhor falou de uma terceira guerra mundial que está avançando furtivamente: que desafios apresenta tudo isto para a busca da paz?

“O medo nunca é um bom conselheiro. Se um pai e uma mãe têm medo quando têm um filho adolescente, eles não saberão como educá-lo bem. Em outras palavras, não devemos temer desafios de qualquer tipo, já que todos, homens e mulheres, temos a capacidade de encontrar modos de coexistência, de respeito e de admiração recíproca. E é óbvio que tanta cultura e tanta sabedoria e também tanto conhecimento tecnológico – basta pensar nas antigas técnicas médicas – não podem ficar fechadas dentro de um País; tendem a se expandir, a se difundir, a se comunicar.

O homem tende a se comunicar, uma civilização tende a se comunicar. É evidente que quando a comunicação ocorre com tom agressivo, por auto-defesa, o resultado é a guerra. Mas eu não seria temeroso. É um grande desafio manter o equilíbrio da paz. Nós temos aqui a avó Europa, como eu disse em Estrasburgo. É evidente que já não é Mãe Europa. Espero que ainda seja capaz de reivindicar esse papel. E recebe deste antigo País uma contribuição mais rica.

Por isso, é necessário aceitar o desafio e assumir o risco de equilibrar esta troca, pela paz. O mundo ocidental, o oriental e a China têm todos a capacidade de manter o equilíbrio da paz e têm a força para fazê-lo. Temos de encontrar a maneira, sempre através do diálogo. Não há outro caminho. (Abre os braços como para abraçar).

O encontro se obtém através do diálogo. O verdadeiro equilíbrio da paz é realizado através do diálogo. O diálogo não significa que   acabemos com um compromisso, metade do bolo para ti e metade para mim. Isso é o que aconteceu em Yalta e vimos os resultados. Não, o diálogo quer dizer: olha, chegámos a este ponto, posso estar ou não de acordo, mas caminhemos juntos; é isso que significa construir. E o bolo continua inteiro, se se caminha juntos.

O bolo pertence a todos; é isso que significa construir. Dividir o bolo, como em Yalta, significa dividir a humanidade e a cultura em pequenos pedaços. E a cultura e a humanidade não podem ser divididas em pequenos pedaços. Quando falo deste grande bolo, falo em um sentido positivo. Todos têm o poder de influenciar o bem comum de todos”. (O Papa sorri e pergunta: “Não sei, o exemplo do bolo é claro para os chineses?” Faço um aceno com a cabeça: “Acho que sim”).

Papa Ch 6

A China experimentou tragédias sem precedentes nas últimas décadas. Desde 1980, os chineses sacrificaram o que sempre foi o bem mais precioso para eles, seus filhos. Para os chineses, estas são feridas muito profundas. Entre outras coisas, isso deixou um enorme vazio nas suas consciências e de algum modo uma necessidade extremamente profunda de reconciliar-se consigo mesmos e de perdoar-se. No Ano da Misericórdia que mensagem pode oferecer ao povo chinês?

“O envelhecimento da população e da humanidade está ocorrendo em muitos lugares. Aqui na Itália a taxa de natalidade está quase abaixo de zero, e também na Espanha, mais ou menos. A situação na França, com a sua política de assistência às famílias, está melhorando.

E é óbvio que a população envelheça. Envelhecem e não têm filhos. Na África, por exemplo, era um prazer ver as crianças nas ruas. Aqui em Roma, se andarem por aí, verão muito poucas crianças. Talvez por trás disso haja o medo a que você alude, a percepção errada de que não vamos simplesmente cair para trás, mas que vamos cair na pobreza. Por isso, então, não fazemos filhos. Há outras sociedades que escolheram o contrário. Por exemplo, durante a minha viagem à Albânia, fiquei surpreso ao descobrir que a idade média da população era de cerca de 40 anos. Há Países jovens; penso da Bósnia-Herzegovina. Países que sofreram e que escolheram a juventude.

Depois há o problema do trabalho. Algo que a China não tem, porque tem a capacidade de oferecer trabalho tanto no campo como na cidade. E é verdade, o problema da China de não ter filhos deve ser mesmo muito doloroso; porque a pirâmide está invertida e uma criança tem de suportar o peso do seu pai, da sua mãe, do seu avô e da sua avó. E é extenuante, desafiador, desorientador. Não é a maneira natural. Entendo que a China abriu possibilidades nesta frente”.

Como deveriam ser abordados esses desafios sobre as famílias na China, considerando que se encontram em um processo de profunda mudança e que já não correspondem ao tradicional modelo chinês da família?

“No ano de misericórdia que mensagem posso dar ao povo chinês? A história de um povo é sempre um caminho. Um povo às vezes caminha rapidamente, às vezes lentamente, às vezes pára, às vezes comete um erro e volta um pouco atrás, ou toma o caminho errado e precisa retornar sobre os seus passos para seguir o caminho certo. Mas quando um povo se move para a frente, isso não me preocupa, porque significa que estão fazendo a história. E creio que o povo chinês está se movendo para a frente e esta é a sua grandeza. Caminha, como todos os povos, através de zonas de luz e zonas escuras.

Se se olha para este passado – e talvez o fato de não ter filhos [mais de um filho] crie um complexo – é saudável assumir a responsabilidade pelo próprio caminho. Bem, nós tomámos esta estrada, alguma coisa aqui não funciona mesmo, por isso agora se abrem outras possibilidades. Outras questões entram em jogo: o egoísmo de alguns setores ricos que preferem não ter filhos e assim por diante.

Devem assumir a responsabilidade pelos seus caminhos. E eu iria mais longe: não fiques em conflito, mas fica em paz com o teu caminho, mesmo que tenhas cometido erros. Não posso dizer que a minha história foi má, que odeio a minha história. (O Papa me dirige um olhar penetrante).

Papa Ch 5

Não, todas as pessoas devem reconciliar-se com a sua história assim como com a sua trajetória de vida, com os seus sucessos e os seus erros. E esta reconciliação com a própria história traz muita maturidade, muito crescimento. Aqui eu usaria a palavra mencionada na pergunta: misericórdia. É salutar para uma pessoa ter misericórdia para consigo mesmo, não ser sádico ou masoquista. Isso é errado. E diria o mesmo para um povo: faz bem a um povo ser misericordioso para consigo mesmo. E esta nobreza de ânimo… Não sei se posso usar a palavra perdão, não sei. Mas aceitar que este foi o meu caminho, sorrir e continuar a avançar.

Se alguém se cansa e pára, torna-se amargo e corrupto. E assim, quando alguém assume a responsabilidade pelo seu caminho, quando o aceita pelo que foi, isso permite à própria riqueza cultural e histórica emergir, mesmo em momentos difíceis. E como se pode deixar que emerja? Neste ponto voltamos à primeira pergunta: com o diálogo com o mundo de hoje.

Dialogar não significa que me rendo, porque às vezes há, no diálogo entre diferentes países, o perigo de projetos ocultos, ou seja, de colonização cultural. É preciso reconhecer a grandeza do povo chinês, que sempre manteve a sua cultura. E a sua cultura – não estou falando de ideologias que possam ter existido no passado – a sua cultura não foi imposta”.

O crescimento econômico do País ocorreu num ritmo muito rápido, mas isso trouxe consigo também desastres humanos e ambientais que Pequim está tentando enfrentar e resolver. Ao mesmo tempo, a busca da eficiência do trabalho está pesando sobre as famílias com um novo custo: às vezes filhos e pais são separados por causa das obrigações de trabalho. Que mensagem você pode dar a eles?

“Sinto-me um pouco como uma sogra que dá conselhos sobre o que deveria ser feito (risos). Eu sugeriria um realismo saudável: a realidade tem que ser aceita, venha de onde vier. Esta é a nossa realidade; como no futebol, o goleiro deve pegar a bola de onde quer que venha. A realidade deve ser aceita pelo que é. Sejamos realistas. Esta é a nossa realidade. Em primeiro lugar, tenho que me reconciliar com a realidade. Não me agrada, sou contra ela, faz-me sofrer, mas se não a enfrento, não serei capaz de fazer nada. O segundo passo é trabalhar para melhorar a realidade e mudar a sua direção.

Agora, você vê que estas são   sugestões simples, é bom senso. Mas ser como uma ostra, que esconde a cabeça na areia para não ver a realidade, não a aceitar, não é uma solução. Bem, então discutamos, continuemos a procurar, continuemos a caminhar, sempre em caminho, em movimento. A água de um rio é pura, porque corre para diante; água parada torna-se estagnante. É necessário aceitar a realidade como ela é, sem mascará-la, sem açucará-la, e procurar maneiras de melhorá-la. Aqui há algo que é muito importante.

Se acontece alguma coisa com uma empresa que funcionou durante vinte anos e há uma crise financeira, então existem alguns caminhos criativos para melhorá-la. Ao contrário, quando   acontece em um País velho, com a sua história antiga, a sua antiga sabedoria e criatividade, então cria-se a tensão entre o problema atual e esse passado de riqueza antiga. E esta tensão gera frutos, porque visa ao futuro.

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Acredito que a grande riqueza da China de hoje esteja em olhar para o futuro a partir de um presente que é sustentado pela memória do seu passado cultural. Viver em tensão, mas não na angústia, e a tensão é entre o seu riquíssimo passado e o desafio do presente que deve ser levado adiante no futuro; isto é, a história não termina aqui”.

Por ocasião do Ano Novo Chinês do Macaco, gostaria de enviar uma saudação ao povo chinês, às autoridades e ao presidente Xi Jingping?

“Na véspera do Ano Novo, eu gostaria de enviar os meus melhores votos e cumprimentos ao presidente Xi Jinping e a todos os chineses. E gostaria de expressar a minha esperança de que nunca tenham perdido a sua histórica consciência de serem um grande povo, com uma grande história de sabedoria, a consciência de ter muito a oferecer ao mundo. O mundo olha para esta vossa grande sabedoria. Que neste Ano Novo, com esta consciência, vós possais continuar a avançar para ajudar a vós mesmos e cooperar com todos, cuidando da nossa casa comum e dos nossos povos. Obrigado”.

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Francesco Sisci

http://www.bergamopost.it/pensare-positivo/papa-francesco-intervista-cina/

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Texto original da entrevista (em inglês):

http://press.vatican.va/content/salastampa/fr/bollettino/pubblico/2016/02/02/0076/00172.html

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