Francisco aos luteranos: “peçamo-nos desculpas”

Ao comentar a visita do Papa Francisco à Comunidade Luterana de Roma, em novembro passado, Jakob Betz,  falou sobre o pedido de desculpas mútuas proposto pelo Bispo de Roma: “O Papa se referiu ao fato de que todos nós, luteranos e católicos, enquanto servidores de Jesus devemos pedir-nos desculpas pelo escândalo”.

A entrevista é de Claudio Paravati, publicada por Confronti, edição de dezembro de 2015. A tradução é de Benno Dischinger.

Eis a entrevista.

Que significado teve a visita de Bergoglio à igreja luterana de via Sicília em Roma?

É de extraordinária importância para o ecumenismo e é única no seu significado. A atmosfera do encontro foi caracterizada pelo sincero interesse e pela cordialidade de um Papa que temos sentido como irmão em Cristo. A visita se desenvolveu sem formalidades: somente o Evangelho do domingo (Mateus 25, 31-46) – que era também o texto da pregação nas nossas Igrejas protestantes – constituiu o coração do encontro. Francisco colocou o acento, tanto no diálogo com alguns membros da comunidade como também, em sua breve pregação, no serviço à Palavra e no serviço ao próximo.

Como foram por percebidas as suas palavras: “Devemos pedir-nos desculpas”?

O Papa se referiu ao fato de que todos nós, luteranos e católicos, enquanto servidores de Jesus devemos pedir-nos desculpas pelo escândalo da nossa separação. Na via de uma diversidade reconciliada acolhemos voluntariamente este importante impulso que nos empenha a fazer de tudo para procurar a unidade visível. Trata-se agora de elaborar quais sejam os passos concretos que este caminho implica.

A Comissão luterano-católica sobre a unidade e a comemoração comum da Reforma em 2017 se expressou a tal propósito, em 2013, com as palavras: “Do conflito à comunhão”. Um passo ulterior na via da diversidade reconciliada será a manifestação da Associação mundial luterana com a Igreja católico-romana no outono de 2016 em Lund(Suécia). O “consenso” católico-luterano sobre pontos fundamentais da doutrina da justificação (Augsburgo, 1999), não levou, de fato, a concretas consequências eclesiológicas.

Mudará algo após esta visita?

Com base nas reflexões do Papa, o aproximar-se à comunhão da Última Ceia é mais uma questão de consciência do que uma questão de doutrina. Para aqueles que se perguntam se podem participar da Eucaristia numa Igreja diversa da sua, o Papa esclareceu: “Falai com o Senhor e ide em frente”.

Na situação concreta isto pode ser interpretado como um incitamento à “desobediência confessional”, mas também como incitação a participar reciprocamente da Ceia eucarística. O exame de cada um torna-se aqui o critério decisivo; torna-se secundário aquele da obediência à doutrina da Igreja.

No plano pessoal as palavras do Papa abrem as portas à troca da hospitalidade eucarística. Do ponto de vista teológico ele fundamentou a sua afirmação referindo-se a Paulo: “Um só Senhor, uma só fé, um só batismo” (Efésios 4,5), e depois acrescentou: “Tirem as consequências”. Grandioso!

Não há, todavia razão para deixar-se tomar pela euforia, já que permanecem divergências dirimentes entre a Igreja luterana e a Igreja católica, sobretudo no que se refere à compreensão do ministério. Sobre este ponto nós luteranos permaneceremos em estreito diálogo com a Igreja católica para discuti-lo com paciência e competência teológica. As afirmações do Papa vão na direção da esperança.

Como aproximar-se da celebração dos 500 anos da Reforma, em 2017, vista a abertura ecumênica do Vaticano?

Encontrando-nos, Francisco repetiu por diversas vezes como “servir” e “serviço” aos irmãos e às irmãs, à sociedade, aos necessitados. Seguindo um fio vermelho falou não só da possibilidade, mas da necessidade de que o nosso seja um testemunho comum, cristão, no mundo, caracterizado pelo servir. Eu confio que se nós descobrirmos juntos a força do Evangelho de Jesus Cristo para o nosso tempo – e disto se trata em 2017 e além – então podemos ser juntos testemunhos no anúncio e no serviço nos confrontos do mundo, por graça de Deus.

Claudio Paravati

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/550803-francisco-aos-luteranos-pecamo-nos-desculpas

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