A carta de um refugiado

Foto: Acnur/Achilleas Zavallis
 Chitungane Sebastião
Dizem que venho roubar as casas que seriam para os vossos “sem-abrigo”.
O que é que já foi feito por eles?
Ou só se lembram deles quando é conveniente?
Não te acuso, pergunto.”
 Eu existo. Tenho uma identidade e existo.

Para ti não tenho nome, sou apenas uma estatística, um número.

Venho da Síria, Iraque, Palestina, Somália ou Sudão.

Pouca diferença faz de onde venho porque sou visto como uma ameaça que vem…

Fui obrigado a deixar o meu país.

Fujo da guerra, da opressão e da miséria, mas não procuro só uma vida melhor. Procuro vida.

Porque, de onde venho, agora só existe morte.

Tu fazes questão de me lembrar o quão indesejado sou, mas prefiro o teu desdém e a incerteza do que o futuro que me reserva à morte certa.

Fugir é a minha única alternativa. Seja escondido num caminhão durante dias a fio ou num bote lotado em pleno Mediterrâneo.

Talvez o meu erro seja ter nascido no lugar errado, na hora errada.

Eu percebo os teus insultos mesmo sem falar a tua língua.

Vês-me como terrorista, mas quem perdeu tudo por causa do terror fui eu.

Vi-os cometer atrocidades em nome duma religião que não é a minha.

Quem os armou? Quem os treinou? Não fui eu.

Ou pensas que todos os muçulmanos são terroristas?

E se eu não for muçulmano?

Já me aceitas?

E os atentados extremistas perpetrados por cidadãos nascidos e criados na Europa?

E os europeus que engrossam as fileiras do Estado Islâmico?

Aqui sou recebido com gás lacrimogéneo e balas de borracha, mas a alternativa seria ficar no meu país e ser assassinado sem poder me defender?

Só estou vivo porque não tens medo que te venha roubar o teu emprego?

Mas se te disser que quero trabalhar e cumprir as tuas leis, já me aceitas?

Prefiro que admitas a tua xenofobia, a tua intolerância e deixes de justificar o teu medo com teorias da conspiração.

Dizem que venho roubar as casas que seriam para os vossos “sem-abrigo”.

O que é que já foi feito por eles?

Ou só se lembram deles quando é conveniente?

Não te acuso, pergunto.

Talvez eu tenha mais medo de ti do que tu de mim.

Fujo duma guerra para vir encontrar outra.

Essa guerra de propaganda e de desinformação, onde a opinião pública é manipulada com notícias falsas nos jornais e mentiras partilhadas nas redes sociais.

Photo Gallery- The Challenge of Forced Displacement in Africa
A minha opinião? Não tenho. Tenho fome e tenho medo.
Imagina a tua vida virar um pesadelo do dia para a noite.
Imagina a tua casa ser bombardeada enquanto dormes.
Imagina a tua família ser assassinada à tua frente e nada poderes fazer.
Imagina tudo o que sempre viu feito em escombros.
Imagina os dias sem comida, sem água potável, sem eletricidade, sem nada.
Imagina a vida dos teus filhos em perigo.

Que farias tu?

Não sou um refugiado, sou um ser humano.

Espero que nunca precises da compaixão alheia para sobreviveres.

Hoje sou eu, amanhã podes ser tu.

Chitungane Sebastião Chachuaio
Chitungane Sebastião
Nascido em Moçambique e que vive em São Francisco do Conde, Bahia (Brasil). Estuda no INLAB, Campus do Malês.

 

Leave a Reply

You can use these HTML tags

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>