Minha visita a uma escola ocupada em São Paulo

“Mato por todos os lados, uma horta abandonada, salas de aula fechadas e inutilizadas, laboratório trancado, poucos professores e poucos profissionais de limpeza formam um cenário que fica longe de ser acadêmico e de permitir que jovens aprendam e se desenvolvam da melhor forma possível a ponto de terem a mesma chance na vida de um jovem que estude em escola privada.”

Milly Lacombe,

 Chegando a uma das escolas públicas ocupadas por alunos em São Paulo já me bateu uma certa emoção. Nas grades e muros que separam da rua o colégio Caetano de Campos, que fica na Aclimação, muitos cartazes diziam “Escola Ocupada”.

Na portaria improvisada, dois alunos controlavam a entrada e a saída de pessoas. Eu disse que estava ali para dar uma aula de escrita criativa e me deixaram entrar.

Lá dentro, uma outra portaria com outros dois alunos que ajudavam o visitante a se localizar (todos são bem-vindos e os ocupantes encorajam que a população entre e visite as instalações). Como cheguei mais cedo, fui andar pela escola. Pelos cantos, vi baldes e vassouras e soube que os alunos se revezavam na limpeza do espaço todo, que me pareceu bastante limpo. Em períodos normais são quatro moças que fazem a limpeza, e a julgar pelo tamanho da escola fica claro que não é possível que quatro pessoas deem conta de tudo. Mas é o que a administração de Geraldo Alckmin acha correto fazer, então é assim que é.

Existe no Caetano de Campos um laboratório bem equipado que está inativo há alguns anos e uma quadra coberta que hoje é usada como depósito de material escolar (velho e novo). Os alunos não sabem dizer por que o material novo não é colocado em uso se ele está lá empilhado, e também não sabiam dizer por que há salas de aulas fechadas há anos e eles têm que se amontoar para ter aulas.

O Caetano de Campos está ocupado há dez dias, e é uma das quase 200 escolas ocupadas desde que o governador de São Paulo decretou que haveria uma reorganização educacional no estado, uma forma sofisticada de avisar que escolas seriam fechadas e alunos transferidos.

O que os alunos pedem é para que a reorganização não seja imposta como está sendo, para que eles participem de grupos que possam avaliar a melhor forma de se reorganizar o sistema de ensino no estado e ajudem com ideias e informações, para que esse processo comece agora e até que seja concluído nada mude.

Não me parece descabido, muito pelo contrário. Mas descabido me parece alegar que a reorganização é necessária porque existem escolas ociosas. Como pode estar ocioso um sistema que amontoa alunos em salas de aula? Como é possível fornecer ensino de qualidade quando uma sala tem mais de 5o estudantes?

Visitar uma escola ocupada é um ato de cidadania. Em primeiro lugar porque fica evidente o que pensa sobre educação o partido que mais fala em meritocracia no Brasil, o PSDB, que comanda o estado de São Paulo há 20 anos.

Mato por todos os lados, uma horta abandonada, salas de aula fechadas e inutilizadas, laboratório trancado, poucos professores e poucos profissionais de limpeza formam um cenário que fica longe de ser acadêmico e de permitir que jovens aprendam e se desenvolvam da melhor forma possível a ponto de terem a mesma chance na vida de um jovem que estude em escola privada.

Falar em meritocracia quando se tem alguns milhões de reais guardadinhos em um banco é fácil. Já usar duas décadas de poder estadual para construir um sistema de ensino que permita que todos tenham (quase) a mesma chance na vida demanda uma certa dose de boa-vontade e caráter.

Nas palavras do professor de filosofia John Rawls:

“A distribuição natural de justiça (riqueza e poder) não é justa ou injusta; nem é injusto que uma pessoa nasça em uma posição particular dentro de uma sociedade. Esses são apenas fatos naturais. O que é justo ou injusto é a forma como instituições lidam com esses fatos”.

Em segundo lugar, e talvez mais importante, visitar uma das escolas ocupadas é um ato de cidadania porque mesmo aqueles que aparecem por lá para dar aulas acabam tendo uma aula, que foi o que aconteceu comigo.

Os alunos do Caetano vivem há dez dias em uma comunidade com requintes anarquistas (e precisamos entender o anarquismo para além do mascarado que atira pedra em vidro de concessionária).

Em assembleias e comissões os alunos decidem quem limpa a escola, quem limpa os banheiros, quem cozinha, quem limpa a cozinha, quem organiza oficinas e palestras, quem organiza as visitas. Não há um líder, ou lideranças, e tudo é votado e acontece por meio de trabalhos voluntários.

Uma das professoras que estava no Caetano na tarde em que eu fui até lá me contou uma história tocante.

Ela disse que tinha problemas com um dos alunos que por duas vezes já a havia mandado à merda. Ofendida, ela passou a não dar muita bola para ele em sala de aula. Um dia depois da ocupação, durante uma assembleia de alunos, ela viu pedirem que alguém se candidatasse para limpar os banheiros e esse aluno foi o primeiro a levantar a mão. Emocionada ela foi até ele e disse: “Puxa, não sabia que você era tão legal”, e ele, sorrindo e abraçando-a, respondeu: “Demorou para ver, hein, professora”.

Viver em uma comunidade acaba tirando de cada um de nós o que temos de melhor, e essa mesma professora me disse que todos os dias tem aprendido muito com a ocupação e com a forma como os alunos estão se relacionando.

Desde que a escola foi ocupada os alunos do Caetano de Campos já tiveram palestras e oficinas sobre racismo, feminismo, literatura, fotografia e uma aula sobre América Latina dada por um professor da USP. Nos próximos dias eles dariam início a sessões de documentários.

Os alunos das escolas ocupadas estão dando uma lição a todos nós, e é uma pena que a grande mídia não queira contar essa história.

Que 200 escolas estejam ocupadas já seria em si uma notícia que exigiria atualização diária, talvez com setoristas dentro dessas escolas para melhor contar o que está acontecendo lá dentro.

Jovens que, ao se perceberem privados de uma educação minimamente decente, se revoltam a decidem dar um recado ao chefe do estado merecem aplausos. Qualquer arranjo social que iniba ou impeça que a capacidade criativa do ser humano se manifeste é imoral. Estruturas hierarquicas que façam uso de formas autoritárias de poder devem ser questionadas e combatidas, exatamente como esses jovens paulistas estão fazendo.

Nas palavras do escritor uruguaio Eduardo Galeano:“Somos o que fazemos, mas somos principalmente o que fazemos para mudar o que somos”.

Portanto, esses jovens que ocuparam as escolas em São Paulo já são mais do que muitos de nós, e certamente mais do que a lastimável e elitista administração de Geraldo Alckmin.

 

 

Milly Lacombe

Fonte: http://blogdamilly.com/2015/11/28/minha-visita-a-uma-escolar-ocupada-em-sao-paulo/

 

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