“Nas mãos do Estado Islâmico, eu tive compaixão dos meus sequestradores.” O depoimento do Pe. Jacques Mourad

 O sacerdote siro-católico relata os meses de cativeiro nas mãos das milícias jihadistas. Várias vezes, os carcereiros encenaram a sua execução. Em uma ocasião, ele também foi açoitado. A partir do medo inicial, ele conta que experimentou a graça do perdão e da misericórdia. Foram fundamentais a oração e a confiança em Nossa Senhora.
Fady Noun – 28/11/2015

A reportagem é de Fady Noun, publicada pela agência AsiaNews, 20-11-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

“Essa graça foi dada a mim para ser de conforto a um grande número de pessoas.” A afirmação é do padreJacques Mourad, sacerdote da Igreja Siro-Católica. De passagem por Beirute, encontramo-lo nos salões da Igreja de Nossa Senhora da Anunciação, em Beirute.

 Prior do mosteiro de Mar Elian e dos fiéis do vilarejo de Qaryatayn, perto de Palmira, o padre Mourad foi sequestrado por milicianos do Estado Islâmico (Daesh) no dia 21 de maio de 2015. Permaneceu nas mãos dos seus sequestradores por quatro meses e 20 dias, antes de retornar, no dia 10 de outubro, para aquilo que nós costumamos chamar de “mundo livre”.

 Perseguido, ameaçado, submetido a pressões contínuas para que se convertesse ao Islã, ele foi ameaçado em várias ocasiões de que seria decapitado, foi chicoteado em uma ocasião e, no dia seguinte, submetido a uma execução fingida.

 Confinado em um banheiro iluminado apenas por uma claraboia na parte superior, com um seminarista para ajudá-lo, reduzido a um regime forçado de arroz e água, distribuídos duas vezes por dia, sem eletricidade nem relógio, cortado em tudo do mundo exterior, ele conseguiu se manter vigilante e nunca viu a sua fé sequer ser arranhada. Ao contrário.

 A graça ou, melhor, o milagre de que fala o padre Mourad é de ter ficado vivo, de não ter renegado a sua fé, de ter reencontrado a liberdade. “A primeira semana foi a mais difícil”, conta. “Depois de terem me mantido por alguns dias dentro de um carro, no Domingo de Pentecostes, me levaram para Raqqa. Eu vivi esses primeiros dias de cativeiro dividido entre o medo, a raiva e a vergonha.”

 A grande virada na sua prisão coincidiu, segundo o padre Jacques, com a entrada na sua cela, no oitavo dia, de um homem vestido de preto, com o rosto mascarado, como aqueles que aparecem nos vídeos das execuções que ficaram famosas do Daesh. A minha hora chegou, ele disse para si mesmo, tomado pelo terror.

 Mas, ao contrário, depois de terem lhe perguntado qual era o seu nome e o do seu companheiro de prisão, o homem se voltou para ele com um “assalam aleïkoun” de paz e entrou na sua cela. Em seguida, entabulou uma longa discussão, como se o desconhecido tentasse realmente conhecer os dois homens na sua frente.

 “Tome isso como um retiro espiritual”, respondeu-lhe o desconhecido, quando o padre Jacques o interrogou sobre as razões da sua prisão. “A partir daquele momento – conta o sacerdote – as minhas orações, os meus dias adquiriram um sentido. Como eu posso explicar… Eu senti que, através dele, era o próprio Senhor que me dirigia essas palavras. Aquele momento foi realmente de grande conforto.”

 “Graças à oração, eu pude reencontrar a minha paz”, refere o sacerdote sírio. “Era maio, o mês de Maria. Comecei a rezar o terço, que eu não era muito acostumado a rezar no passado. Toda a minha relação com a Virgem Maria foi renovada. A oração de Santa Teresa d’Ávila, ‘nada te perturbe, nada te assuste’, também ajudou para me sustentar; e, para ela, uma noite, eu compus uma melodia que, depois, comecei a cantarolar.

A oração de Charles de Foucauld me ajudou a me abandonar nas mãos do Senhor, com a consciência de que não me foi dada a escolha. Porque tudo levava a pensar que o resultado final seria a conversão ao Islã ou a decapitação.”

 Quase todos os dias, continua, “eles entravam na minha cela e me interrogavam sobre a minha fé. Eu vivi cada dia como se fosse o último. Mas nunca abjurei. Deus me deu duas coisas: o silêncio e a cortesia. Eu sabia que certas respostas podiam ser captadas como provocação, que qualquer palavra pode se tornar a fonte da sua condenação. Então, me interrogaram sobre a presença de vinho no convento. Aquele homem me interrompeu de repente, quando eu comecei a responder. Ele julgou as minhas palavras como insuportáveis. Eu era um ‘infiel’. Graças à oração, aos Salmos, eu entrei em um mundo de paz, que não me deixou mais.

 Lembrei-me também das palavras de Cristo no Evangelho de São Mateus: ‘Bem-aventurados aqueles que lhes maldizem, rezem pelos que lhes caluniam’. Eu estava feliz por poder viver concretamente essa palavra. Não é pouca coisa poder viver o Evangelho, em particular esses versículos tão difíceis, que até aquele momento eram apenas teoria. Eu comecei a sentir compaixão pelos meus sequestradores.”

 “Naquela ocasião, voltaram à minha mente também as canções poéticas de Feyrouz – confessa o padre Jacques – e, em particular, uma daquelas que fala do crepúsculo, que eu costumava cantar quando caíam as longas noites de junho em Raqqa, que nos deixavam envoltos na escuridão. Essas palavras e a sua música também se tornavam fonte de oração. Falavam do sofrimento ‘inscrito no crepúsculo’.”

 O açoite

“Era o meu 23º dia do meu cativeiro”, lembra. “Eles entraram de repente. Era uma espécie de encenação. A flagelação durou cerca de 30 minutos. O chicote era feito de um pedaço de mangueira de jardim e cordas. Eu senti a dor física, mas, no fundo, me sentia em paz. Percebi uma grande consolação em saber que eu podia compartilhar de algum modo os sofrimentos de Cristo.

 Ao mesmo tempo, me senti bastante confuso por causa disso, porque eu pensava que não era digno daquela graça. Eu perdoava o meu algoz, no mesmo momento em que ele me batia. De vez em quando, eu confortava com um sorriso o diácono Boutros, meu companheiro de cativeiro, que mal conseguia se conter ao me ver objeto de chicotadas. Depois disso, lembrei-me do versículo em que o Senhor diz que é na nossa fraqueza que se manifesta a Sua força.

 Eu estava cada vez mais surpreso, porque me sentia fraco, tanto em nível espiritual quanto físico. Veja, eu sofro de dor nas costas desde a infância, e as condições da prisão eram tais a ponto de aumentar, em um primeiro momento, a dor. No mosteiro, eu tinha à disposição um colchão especial e uma cadeira ergonômica. Na cela, eu dormia no chão e não havia forma de caminhar naquele banheiro.”

 “O grande medo – continua o padre Jacques – eu conheci pouco depois, quando um homem armado com uma faca entrou na nossa célula. Eu senti a lâmina da faca no meu pescoço e pensei que tinha começado a contagem regressiva para a minha execução. No susto, eu me recomendei à misericórdia de Deus. Na realidade, tratava-se apenas de uma encenação.”

 No dia 4 de agosto passado, o grupo jihadista assumiu o controle de Palmira e, a partir de lá, de Qaryatayn. No dia seguinte, ao amanhecer, tomaram a população como refém, ao menos 250 pessoas, levando-as para Palmira. No dia 11 de agosto, o padre Jacques e o seu companheiro fizeram o mesmo caminho.

 Eis como: “Um líder saudita entrou na nossa cela. ‘Você é o padre Jacques?’, ele perguntou. ‘Bem, então venha comigo! Os cristãos de Qaryatayn nos deixaram loucos falando de você!’ Logo pensei que eles estavam me levando para ser executado. A bordo de uma van, fizemos um trajeto de quatro horas.

 Depois de passar por Palmira, tomamos uma estrada de montanha que levava a um edifício fechado por uma grande porta de ferro. Assim que ela foi aberta, o que eu vi foi toda a população de Qaryatayn reunida ali, maravilhada ao me ver diante deles. Esse foi um momento de sofrimento indescritível para mim. Para eles, um momento extraordinário de alegria.”

 Vinte dias depois, no dia 1º de setembro, “levaram-nos para Qaryatayn, livres, mas com a proibição de deixar o vilarejo. Naquele momento, criou-se uma espécie de contrato religioso coletivo: nós já estávamos sob a sua proteção (‘ahl zemmé’), mediante o pagamento de um imposto especial, a jizya, que diz respeito aos não muçulmanos. Nós também podíamos praticar os nossos ritos, contanto que não fosse um elemento de escândalo para os muçulmanos.

 Alguns dias depois, com a morte de um dos nossos paroquianos, que faleceu por causa de um câncer, fomos ao cemitério, nos arredores do mosteiro de Mar Elian. E foi naquele momento que eu vi que ele tinha sido destruído. Curiosamente, eu não tive nenhum tipo de reação. Dentro de mim, parecia que Mar Elian quisera sacrificar o seu convento e o seu túmulo pela nossa salvação.”

 “Hoje – conclui o padre Jacques, que desafiou a proibição de deixar Qaryatayn e encontrou uma maneira de escapar, embora mantendo um sigilo absoluto sobre as modalidades de fuga – eu continuo sentido pelos meus sequestradores o mesmo sentimento que eu sentia quando estava nas suas mãos: a compaixão. Esse sentimento vem da contemplação do olhar de Deus em relação a eles, apesar da sua violência, como Ele sente em relação a todos os homens: um olhar de pura misericórdia, sem o menor sentimento de vingança.”

 “Hoje – continua o sacerdote, antigamente monge no mosteiro de Mar Musa, fundado pelo padre Paolo Dall’Oglio – sabemos que a oração é o caminho da salvação. É preciso continuar rezando pelos bispos e pelos sacerdotes que ainda estão desaparecido e sobre os quais não se sabe de nada. Rezar pelo meu irmão Paolo Dall’Oglio (desaparecido em Raqqa em julho de 2013).

 Por fim, devemos rezar por uma solução política na Síria. Hoje, lembramos o centenário do massacre e o êxodo de 1915. Sem uma solução política, a emigração irá completar o trabalho que os massacres de 1915 começaram.”

 

Fady Noun – Asia News

Fonte:http://www.ihu.unisinos.br/noticias/549441-qnas-maos-do-estado-islamico-eu-tive-compaixao-dos-meus-sequestradoresq-o-depoimento-do-pe-jacques-mourad

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