PORQUE FALAM TÃO MAL DO DEUS DA BÍBLIA?

 

 

Geraldo Frencken -24-11-2015

CRISTO  REI….  CRISTO  SERVIDOR  E  POBRE.

“Há fundamentalismo nas religiões cristãs e não-cristãs.

Desejo, porém, não me alongar sobre essa questão tão complexa e de difícil interpretação nos dias de hoje. Limitar-me-ei ao fundamentalismo dentro do cristianismo, fundamentalismo este, cada vez mais doentio, aprofundando as chagas que já ferem vida e fé do povo.”

 

 

Para início de conversa …..

Leonardo Boff, em recente artigo, discorre sobre um problema sério. Ele diz que tudo que há na vida pode ficar doente. Assim também as religiões. E continua dizendo: “E elas estão doentes. E a doença delas se chama fundamentalismo.”

 

O que entendemos por “fundamentalismo”?

O termo se refere à crença na interpretação literal dos livros sagrados. Fundamentalistas são encontrados entre todas as religiões e seus seguidores, pregando que os dogmas de seus livros sagrados sejam seguidos à risca.

O termo surgiu no fim do século 19, começo do século 20 nos EUA, quando alguns segmentos de protestantes determinaram que a fé cristã exigia acreditar em tudo que está escrito na Bíblia, tal qual. Isso em oposição à interpretação que leva em conta, e a sério, a leitura com base na ‘crítica literária’ e a partir do ‘contexto vital’ no qual os acontecimentos contidos na Bíblia são relatados.

Há fundamentalismo nas religiões cristãs e não-cristãs. Desejo, porém, não me alongar sobre essa questão tão complexa e de difícil interpretação nos dias de hoje. Limitar-me-ei ao fundamentalismo dentro do cristianismo, fundamentalismo este, cada vez mais doentio, aprofundando as chagas que já ferem vida e fé do povo.

Quero fazer umas perguntas, no intuito do desejo de sobreviver no caos deste nosso mundo.

 

OS RETRATOS DE DEUS NA BÍBLIA

Não há como ler a Bíblia sem entender que ela, seja no Antigo ou no Novo Testamento, se dispõe a nos apresentar um retrato de Deus, isto é, alguns retratos, que mudam, melhor dizer, se desenvolvem, se complementam, se enriquecem, apresentando, no final, o rosto de um Deus bonito e amoroso.

 

 DEUS QUE AMA A VIDA: O CRIADOR

É emocionante ler as palavras do iluminado teólogo francês Padre Teilhard de Chardin, dedicadas aos grãos de areia no deserto, afirmando que em cada um deles aparece todo o esplendor da criação de Deus, isto é, do Deus Criador.

É envolvente seguir os passos de Chico Mendes e da Irmã Dorothy, que defendem a criação como lugar de sobrevivência da raça humana, espaço suficiente para dar lugar a todos e a tudo.

É consolador ler as páginas do Leonardo Boff quando dedica seu saber ao “Cuidado” que devemos ter com a criação, isto é, com toda a vida no planeta terra, garantindo o nosso próprio futuro como o de todo ser vivo.

É inspirador ouvir o Dalai Lama dizer que precisamos ter a consciência e o equilíbrio interno, a fim de entendermos que o meio ambiente diz respeito a nossa própria sobrevivência.

É um gesto de amor quando Francisco, aquele de Assis, chama os elementos da criação de “irmãos” e “irmãs”.

É uma tarefa para nós quando “A CARTA DA TERRA”, do ano 2000, exige que “devemos nos juntar para gerar uma sociedade sustentável global, fundada no respeito pela natureza, nos direitos humanos universais, na justiça econômica e numa cultura de paz”.

É empolgante ler o outro Francisco, aquele que “veio do fim do mundo”, quando assegura que a nossa visão integral sobre a ecologia (a criação) terá como resultado, aos poucos, que nós seres humanos nos saberemos parte da natureza e que a abordagem integral dos problemas atuais nos dará a capacidade de construirmos soluções integrais.

Há evidências mais claras do que essas de um Deus Criador e do seu desejo que nós (“criados à sua imagem: homem e mulher os criou”), juntos com Ele, sejamos criadores também, a fim de que não seja mais preciso Ele dizer sozinho “que tudo era bom!”, mas que toda a humanidade possa viver em uma criação, na qual “tudo vai ser bom!”?

 

DEUS QUE CAMINHA JUNTO DO POVO: O LIBERTADOR

Embora Mahatma Gandhi tenha avisado “Olho por olho, e o mundo acabará cego”, seu sofrido martírio tornou-se elemento libertador para o povo indiano.

Embora uma covardia a prisão de Nelson Mandela, aquele que nunca deixou de acreditar em um futuro diferente, esta prisão acabou sendo passo decisivo para a libertação do povo sul-africano.

Embora uma crueldade o assassinato de Martin Luther King, que pregava a dignidade do(a) negro(a), igual como de todo ser humano, o mesmo tem despertado em muitas pessoas a libertação, embora de forma gradual, do seu preconceito racial.

Embora sofrido o martírio de Dom Oscar Romero, que não mais suportava uma Igreja calada diante do sofrimento do povo salvadorenho, o mesmo se converteu em força libertadora de todo um povo, resultando em resistência contra todas as formas de opressão.

Há evidências mais claras de um Deus Libertador que diz: “Eu vi, vi a opressão do meu povo no Egito e ouvi-o clamar sob os golpes dos chefes de corveia. Sim, eu conheço seus sofrimentos e desci para libertá-lo.” (Êxodo 3, 7-8.a)? Não aquele Deus somente na história antiga, e sim o Deus atuante em todas as formas de escravaturas, persistentes nos dias de hoje.

 

DEUS QUE ANUNCIA NOVOS TEMPOS: O PROFETA

            Como se encheu de coragem aquela multidão em frente ao Lincoln Memorial em Washington, em 1963, ao ouvir Martin Luther King dizer: “I have a dream!” (Eu tenho um sonho): Eu tenho um sonho que um dia esta nação se levantará e viverá o verdadeiro significado de sua crença – nós celebraremos estas verdades e elas serão claras para todos, que os homens são criados iguais”!

Como se tornou símbolo da luta por uma paz duradoura, o anúncio e a vivência da não-violência pela “grande alma”, o Mahatma Gandhi: A não-violência absoluta é a ausência absoluta de danos provocados a todo o ser vivo. A não-violência, na sua forma ativa, é uma boa disposição para tudo o que vive. É o amor na sua perfeição”!

Como sentimos a possibilidade de um diálogo verdadeiro e fraternidade definitiva entre as religiões, ao ouvirmos o Dalai Lama afirmar que “a melhor religião é aquela que te faz melhor. E o que te faz melhor é tudo aquilo que te faz mais compassivo, aquilo que te faz mais sensível, mais desapegado, mais amoroso, mais humanitário, mais responsável… A religião que conseguir fazer isso de ti é a melhor religião”!

Como aprendemos construir um mundo mais igualitário, ao percebermos como Dom Helder Camara nos conscientiza, abrindo nossos olhos para a realidade, ao dizer que “a violência precisa ser superada. Para isso, impõe-se a coragem de ir à fonte de todas as violências, pondo fim às injustiças sociais”!

Como vibramos com Dom Aloísio Lorscheider, quando ele vê um futuro promissor para a Igreja, caso ela “conseguir formar pessoas livres, responsáveis, conscientes, a partir da ideia de que nós criamos a história e de que cada um(a) contribui para escrever esta história, pois isto é sumamente importante para as pessoas crescerem. Pessoas livres, francas: é isto que deveria existir também na Igreja”!

Há evidências mais claras de um Deus Profeta que mostra seu rosto e diz: “Para onde eu te enviar, irás; tudo que eu te ordenar, falarás. Não tenhas medo de ninguém: eu estou contigo para te libertar. Eu ponho minhas palavras na tua boca. Vê, hoje te confiro autoridade sobre as nações e sobre os reinos, para arrancar e derrubar, para arruinar e demolir, para construir e plantar!”?

 

DEUS DO ABRAÇO E DA BÊNÇÃO: O PAI

            Ao visitar o museu que contêm a memória de Dom Helder, na Igreja das Fronteiras no Recife, e ao avistar grande número de fotos do Dom nas quais ele abraça as pessoas com quem se encontra, uma amiga explicou que ele, o Dom da Paz, gostava de curtir “a cultura do abraço”.

É este o último retrato de Deus que a Bíblia nos apresenta: o Deus que, hoje, nos recebe no abraço, no beijo: “Quando o pai o avistou, foi tomado de compaixão: correu, se lançou ao pescoço e o cobriu de beijos”.

Esse Pai ainda tem uma característica toda especial: ele é “Pai Nosso ….. que nos apresenta seu reino ….. nos oferece o pão de cada dia ….. perdoa os nossos passos em falso …. e, enfim, nos livra do mal”.

—– —– —–                                                               

Tendo tomado conhecimento destas características do Deus Criador, Libertador, Profeta e Pai, que continuam vivas e se fazem presentes, de forma ativa, em nossa história, pergunto: o que leva os fundamentalistas a insistirem em apresentar aquele formato de um “Deus guerreiro”, “Deus todo-poderoso” e, pior, aquele “Deus que castiga”, que “impõe medo porque nos espia”!

Como se não bastassem os medos que somos obrigados a sentir, a cada instante,

  • pelas “balas perdidas”,
  • pelas “barragens que rompem”,
  • pelos “ataques terroristas”,
  • pelas “consequências da seca”,
  • pela “contínua falta de políticas públicas e suas desastrosas consequências”,
  • pela “corrupção instalada nos poderes públicos e até na Igreja”,
  • pelas “incertezas que nos deixam inseguros”, etc.!

Certos segmentos de religiões, também das chamadas “cristãs”, parecem sentir satisfação em colocar ainda na vida do povo um Deus distante, que ameaça e espanta, que cobra de nós até o impossível, exigindo, especialmente, dinheiro. Dizem que se baseiam na Bíblia, pois esta, muitas vezes, chama Deus de “todo-poderoso”. Mas não se perguntam a que tipo de poder a Bíblia se refere.

Talvez possamos entender de forma mais correta este “poder de Deus” a partir daquela exaltação da Maria, quando de sua visita a Isabel, na qual diz, entre muitas outras afirmações: “Seu poder é exercido com seu braço: dispersa os soberbos em seus planos: derruba do trono os poderosos e exalta os humildes” (Lucas 1, 51-52).

Quando a Bíblia fala do “poder” de Deus, se refere a uma força em favor dos humildes. Padre Comblin diz: “Numa palavra, Jesus era pobre, isto é, sem poder. Isto quer dizer que Deus abandonou o seu poder, enviou o Filho sem poder para realizar uma missão sem poder. No momento em que Deus quis se revelar, mostra que deixou todo poder e quer relacionar-se com os homens como um deles, e como um dos mais humildes deles. Não quer impor, mandar, atemorizar, assustar, não quer limitar a liberdade humana por meio de demonstrações de força. De fato, ninguém se sentiu forçado por Jesus, ninguém foi obrigado a reconhecer-lhe autoridade. Ninguém se sentiu pressionado”[1].

Fica claro de que lado Deus está: exaltando os humildes, derruba os poderosos.

 Quem seriam os “poderosos”?

  •  Será que não são aqueles que destroem a natureza, visando somente lucro próprio, matando os que defendem a sustentabilidade da natureza em favor da vida?
  • Ou aqueles que calam os que manifestam pensamentos diferentes?
  • Ou, ainda, aqueles que não suportam as vozes dos que clamam por justiça, defendem os pobres e levam mensagens de paz e esperança viajando pelo mundo afora?

Evidentemente não há dúvida acerca de quem são os humildes.

O “poder de Deus” foi caracterizado por Dom Helder, em 27 de outubro de 1963, quando escreveu: Celebrei a Missa de Cristo Rei. Claro que Ele é Rei. Mas de uma realeza tão diferente, que eu me angustio ao ver que, de certo modo, exploramos a realeza d’Ele para justificar, inconscientemente, a nossa. Durante a Missa, pensei o tempo todo no pobre Rei, com estopa nas costas e coroado de espinhos. Durante a Missa, fiquei repetindo, baixinho: ‘Meu pobre Rei: para mim, você é Luciano’. Luciano é um pobre que lembra ao vivo Jesus Cristo. Dependesse de mim e criaríamos uma festa nova: de Cristo Servidor e Pobre.”[2]

Estamos entrando no tempo litúrgico entre o “Cristo Rei” e o “Jesus humilde e pobre”. Quatro semanas para reflexão!

Não está na hora de deixar de falar mal de Deus, atribuindo a Ele o poder destruidor dos tiranos, como se Ele pudesse ser igualado a estes?

Não é preciso falar de Deus a partir do jeito como Ele se apresenta: um Pai que anuncia novos tempos, caminhando junto do povo, criando vida por meio do amor?

[1] COMBLIN, José. O Espírito Santo e a Tradição de Jesus.  São Bernardo do Campo; NHANDUTI Editora, 2012, p. 101

[2] CAMARA, Dom Helder. Circulares Conciliares. Volume I – Tomo I. Recife: CEPE Editora, 2009, p. 238

 

Fortaleza, 24 de novembro de 2015,

Geraldo Frencken

 

Geraldo Frencken

Fonte: Enviado pelo autor, via e-mail:

geraldof73@yahoo.com.br

2 comments to PORQUE FALAM TÃO MAL DO DEUS DA BÍBLIA?

  • Irmã Dorothy era espiã da CIA (cobiça da nossa Amazônia ) e Chico Mendes um bebado comunista safado.
    Nada a ver comoarar esses dois com grsndes figuras como Matin Luther King e Mahatma Gandhi e os outros citados !!!!!!

  • João Tavares

    Julyane, cadê as provas dessa tua afirmação? Se não as apresentares provas (por exemplo, um linck de um Site Sério que prove o que dizes), posso ter fundadas dúvidas de que isto é MENTIRA, Faknews, tão em voga desde a campanha política do ano passado. Pelo que li, e foi muito, Ir. Dorothy queria defender a floresta, os Índios os posseiros, contra o grande capital e a ganância dos fazendeiros/grileiros. E Chico Mendes defendia a floresta contra grileiros e madeireiros. O modo como usas as palavras me dá claramente teu retrato ideológico. Poderia ate dizer que me dá teu lugar de nascimento…

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