Todos os inimigos do papa

Eles o chamam de “papa argentino” para desacreditá-lo. Para marcar a distância cultural e ideológica entre elas e ele. São cardeais da Cúria e bispos, é claro, mas que também têm por trás de si grupos de poder e de pressão específicos, agrupamentos que, desde o dia 13 de março de 2013, se sentem impacientes com o magistério social do pontífice. Nessa terça-feira, o padre Federico Lombardi minimizou o porte deflagrador da carta dos cardeais enviada a Francisco e publicada pela revista L’Espresso. “Quem, a uma distância de dias, publicou a carta cometeu um ato de perturbação não pretendido pelos ‘signatários’, ao menos por alguns dos mais respeitados”, disse o porta-voz vaticano. Que também pediu para “não se deixar condicionar”, já que a ação de perturbação é movida por segundas intenções.

A reportagem é de Paolo Rodari, publicada no jornalLa Repubblica, 14-10-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

No entanto, o efeito é o mesmo dos tempos doVatileaks, quando as cartas passavam de dentro do Vaticano e chegavam até a mídia. O verdadeiro revólver fumegante do Sínodoescreveu não por acaso o site de informação Il Sismografo, próximo daSanta Sé – “é a existência de uma corja de eminentes vaticanistas que abandonaram a nobre profissão da informação para passar, com corpo e alma, à de repassador (aliás, desajeitado)”.

Certamente, para muitas pessoas do outro lado do Tibre, existe uma diferença ao menos aparente entre o último período do pontificado de Ratzinger e hoje. Enquanto na época havia corjas internas à Santa Sé que combatiam entre si por razões de poder, hoje as posições heterogêneas parecem ser principalmente ideais, culturais. Mas – perguntam-se ainda no Vaticano – todo essa impaciência pode ser causada apenas por posições divergentes sobre a doutrina?

Para Nello Scavo, jornalista do Avvenire e autor de I nemici di Francesco [Os inimigos de Francisco] (Ed. Piemme), recém-publicado, os adversários do papa também são aqueles que o desacreditam, tentando silenciá-lo.

“Há uma batalha ideológica – diz –, isso é verdade, conduzida também em boa consciência. No entanto, nesses anos, dentro da Cúria, há também aqueles que tentaram impingir a Francisco algumas ‘almôndegas envenenadas’. Além doSínodo e do recente caso do teólogo homossexual Charamsa, houve o caso de um projeto que previa a constituição, por parte do IOR, de um SICAV – fundo de investimento de capital variável – em Luxemburgo. O papa se deu conta disso no último minuto e bloqueou o projeto. Certamente, não era nada ilegal, mas a imagem do papa ficaria comprometida. O que significa que, lá dentro, também há quem manobre para enfraquecer o carisma e a força deFrancisco.”

Uma tese, a de Scavo, que se encaixa, em parte, com o que foi afirmado por um dos teólogos sul-americanos mais próximo de Bergoglio, Leonardo Boff. Embora aberto sobre a homossexualidade – a visão dos bispos de que ela deve ser vivida castamente “é redutiva”, afirmou ele à revista Oggi – o paladino da teologia da libertação acredita que, dentro do Vaticano, há quem tece armadilhas contra o papa.

Boff pensa particularmente que, por trás da “saída do armário” de Charamsa, há “uma armadilha montada pelos ambientes de direita na Igreja, que se opõem ao papa. Por que ele não fez isso de modo simples, mas provocador? Para criar um problema para o Sínodo e para Francisco. Ostentar desse modo a sua escolha, o seu companheiro… Não se deve brincar para colocar o papa contra o canto”.

Francisco dá a impressão de saber muito bem quem são os amigos e quem são os inimigos. E que, se há aqueles que o amam e o seguem, também há aqueles que de bom grado abririam mão dele. Ao mesmo tempo, porém, ele não quer ceder às teorias da conspiração, à idéia de que o Vaticano é um ninho de cobras.

No entanto, explica Massimo Faggioli, historiador do cristianismo da University of St. Thomas, em Minneapolis, “este é o momento mais visível e temerário na luta conduzida por parte do establishment eclesiástico contra ele”.

E ainda: “Desde março 2013, tinha-se percebido o aumento da resistência ao pontificado e se sabia que o Sínodo dos Bispos era o ponto-chave. O fato de a carta ter sido entregue ao papa no dia 5 de outubro, primeiro dia do Sínodo, é prova de que se trata de uma iniciativa coordenada bem antes do início da assembleia em Roma (e foi a essa iniciativa que Francisco respondeu com o discurso sobre a ‘hermenêutica conspirativa’ do dia 6 de outubro na Aula sinodal). Também é claro que, enquanto Francisco estava visitando os EUA, alguns bispos norte-americanos, entre um abraço e outro no papa, estavam preparando contra Bergoglio um ataque que jamais sonhariam em fazer contra os sínodos fingidos do Papa Wojtyla e do Papa Ratzinger“.

Essencialmente, ele se refere ao caso da saudação recebida na embaixada em Washington por parte de Kim Davis, a funcionária municipal do Kentucky que recusou a licença de casamento para diversos casais gays e que foi presa por isso. Davis e parte do mundo conservador dos EUA repassaram essa saudação como um apoio papal às suas batalhas antigays.

Que entregou, e provavelmente idealizou, a carta ao papa crítica sobre os trabalhos do Sínodo é o cardeal australianoGeorge Pell. Czar da economia vaticana, ele tem posições duras sobre as aberturas papais. Ele acredita que conceder a Eucaristia aos divorciados recasados é um mal. Uma posição semelhante à de outros signatários da carta, incluindo o cardeal Robert Sarah, para o qual pensar em dar a Eucaristia aos divorciados é obra do Maligno.

O “círculo eleitoral” de Pell é o das finanças norte-americanas. Considerado próximo dos poderosos Cavaleiros de Colombo, quando deve dar uma palestra, sempre vai ao Pontifício Colégio Norte-Americano, no Gianicolo, o lugar onde os circuitos curiais financeiros norte-americanos se exibem na capital italiana.

Assim também em relação a outros dois cardeais signatários da carta: Daniel N. DiNardo, arcebispo de Galveston-Houston e vice-presidente da Conferência Episcopal dos EUA, e Timothy Dolan, arcebispo de Nova York e chefe dos bispos norte-americanos.

Grande parte da oposição movida contra Francisco vem do mundo conservador norte-americano. É Scavo também, no seu livro, que lembra que quem apoia as batalhas dos “neocons” anti-Bergoglio são homens como Dick Cheney e capitais como os postos à disposição pela Halliburton.

Scavo escreve: “Bastam esses dois nomes para se ter uma ideia precisa dos ambientes ‘antipapistas’ dos EUA de onde partem alguns dos ataques contra Bergoglio em várias frentes: economia, teologia, visão geopolítica”.

Cheney é o homem-sombra do American Enterprise Institute, do qual foi vice-presidente, e no qual a sua esposa,Lynne, mantém cargos diretivos: ela foi conselheira de administração da Lockheed Martin, a principal produtora mundial de sistemas de defesa, dos aviões de caça aos mísseis com ogivas nucleares, dos radares ao transporte blindado de tropas.

Autor: Paolo Rodari

www.unisinos.br

 

1 comment to Todos os inimigos do papa

  • PAOLO. Minha questão é simples: esses cardeais conservadores, para não dizer retrógrados, são cristãos? O mundo está pegando fogo e eles defendendo posições que nada tem a ver com soluções verdadeiras. É SÓ DISPUTA DE PODER. Lembrar a eles o que Cristo falou aos discipulos: “…ENTRE VÓS NÃO SEJA ASSIM!”

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