Sínodo: uma “crise de governo” para o papa. Maioria que o elegeu se divide

O cenário de um Parlamento dividido em dois domina a Aula do Sínodo, que Francisco concebe, ao contrário, como “espaço protegido”, subtraído da lógica da “negociação”, da “pactuação” e dos “compromissos”: onde as maiorias deveriam decolar sobre a Asa do Espírito Santo – não sobre a sigla de agregações extemporâneas, como acontece, ao contrário, na margem italiana do Tibre.Tendo em conta que os objetivos devem ser buscados através de uma “metanoia”, ou seja, de uma transformação dos corações, e não de uma variante vaticana do transformismo parlamentar.

A reportagem é de Piero Schiavazzi, publicada no sítio L’HuffingtonPost.it, 13-10-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Desde o início dos trabalhos, Bergoglio havia deixado claro que, onde há um pontífice, os lança-pontes não têm utilidade. A partir dessa consideração básica, terminológica e metodológica, delineia-se e decifra-se a estratégia do papa, intencionado a prosseguir mantendo a situação sob controle – cum Petro et sub Petro, segundo o adágio – e a divulgar apenas no último momento o Relatório Final: não no meio do caminho, como aconteceu no ano passado, permitindo que os conservadores promovessem um verdadeiro fechamento e subvertessem os artigos 52, 53, 55, sobre os pontos nevrálgicos da comunhão aos fiéis divorciados, deixando apenas uma pequena fresta, e das uniões entre pessoas do mesmo sexo, fechando totalmente a porta ou, melhor, trancando a fechadura.

A modificação em sentido dirigista do regulamento e a consequente acusação de querer manipular o Sínodo com “resultados predeterminados” marca a ruptura da maioria que levou Francisco à eleição em 2013 e já agora produz efeitos políticos, independentemente das implicações policialescas da carta assinada por um grupo de purpurados, entre confirmações e desmentidas.

Se, no domingo, o cardeal Agostino Vallini tinha evocado uma “sacudida”, na Cidade Leonina se sentiu até um terremoto, que para as “cassandras” catastrofistas faz surgir o presságio de um cisma e vai muito além dos Muros Aurelianos da Urbe, propagando-se para o Orbe e sacudindo os fundamentos de uma instituição universal.

A 60 dias do Jubileu, Roma se sente “sacudida” não só no governo civil, mas também no governo espiritual. Enquanto se esperava a assinatura do prefeito, materializavam-se as assinaturas dos cardeais, apontando no horizonte para o fantasma de um “colapso” semelhante ao das Igrejas Protestantes, para o qual de nada valem as tranquilizações historicistas do subprefeito Gabrielli, sobre as milagrosas capacidades de suporte e autocura da Cidade Eterna.

Entre os signatários, que até agora não desmentiram a sua adesão, figuram três importantes chefes de dicastério e ministros do papa: os prefeitos da Doutrina da Fé, Gerhard Müller, da Economia, George Pell, e do Culto, Robert Sarah. Não se trata, portanto, de um mero protesto de nostálgicos, reunidos no Aventino editorial de um livro publicado na véspera, em torno das velhas glórias – Raymond Leo Burke, Carlo Caffara e Camillo Ruini –, mas de uma autêntica crise de governo, como deveria ser lida e interpretada em qualquer contexto institucional do planeta.

Se é verdade que o Sínodo, por sua natureza, não é um parlamento, devemos admitir, no entanto, que, quanto à estrutura, ele se assemelha muito. Dois terços dos Padres, cerca de 180 dos 270, são eleitos pelos episcopados nacionais, que, por sua vez, depois de apenas 30 meses do início do pontificado, ainda são, principalmente, os nomeados por Wojtyla e Ratzinger.

Nenhum papa, na primeira fase do seu ministério, foge da obrigação e do jugo de governar a Igreja com fiduciários dos seus antecessores. Santa Marta não é Downing Street. Um sucessor de Pedro, ao contrário de um primeiro-ministro de Sua Majestade, pode escolher os “parlamentares” e nomeá-los, mas não pode dissolver as “Câmaras” e mandá-las para casa, limite que condiciona, operacionalmente, o seu poder supremo.

A troca da dirigência eclesiástica não acontece totalmente em um turno eleitoral, mas se articula e se estende nos prazos anagráficos dos bispos individuais, enquanto se tornam vacantes as sedes diocesanas, ao se completarem os 75 anos de idade dos titulares. Ou seja, é preciso ao menos uma década para reposicionar da direita para a esquerda, ou vice-versa, o eixo político do episcopado mundial, quando, no caso de Francisco, ainda não se passaram nem três anos desde o conclave.

Esse é o nó estrutural de um Sínodo que, contradizendo a própria etimologia, expressa a dificuldade fisiológica de caminhar juntos e transmite uma imagem de Parlamento dividido, em vez de família unida, como gostaria o pontífice.

Entendamo-nos: apesar do convite à sinceridade, ou “parrésia”, reiterado pelo papa, o contágio do transformismo promoveu um alinhamento de fachada: a esse respeito, a conversão de alguns cardeais da Cúria, até recentemente recrutados entre os conservadores, e a sua passagem “de mala e cuia” para os progressistas, tem algo de prodigioso e mereceria um exame por parte da Congregação para as Causas dos Santos, para conduzir os aprofundamentos do caso e avaliar se subsistem os extremos de um milagre.

Esperanças e decepções

Mas a maior parte dos Padres não desiste do seu imprinting moderado. Por isso, a história vai contar um papado de tração reformadora lutando com um Sínodo de extração conservadora, como atesta para a posteridade o relatório introdutório do cardeal húngaro Peter Erdö, arcebispo de Budapeste, que, no primeiro dia dos trabalhos, repropôs literalmente o “fechamento”: como se um general, no início da batalha, em vez de partir para o ataque na direção indicada pelo seu comandante-em-chefe, soasse a retirada e ordenasse a defesa das retaguardas. Induzindo os observadores a falarem de um jogo que terminou antes de começar. Um resultado que, caso o documento permanecesse essencialmente idêntico, evitaria divisões internas, mas levantaria uma onda de decepção externa, inversamente proporcional às esperanças suscitadas nesses meses, com um efeito comparável a um gigantesco fracasso.

Para sair do impasse, a comissão encarregada por Francisco para redigir a Relatio conclusiva registra uma inversão das relações de poder – além de uma inocultável forçação – e configura um “diretório” aberturista, leninianamente sobreposto e contraposto aos fechamentos da assembleia plenária.

Nela, a Itália contra com três assentos de um total de dez, atribuídos ao secretário do Sínodo, o cardeal Lorenzo Baldisseri, natural de Garfagnana, na Toscana, e núncio por quase 20 anos na América Latina, e aos dois teólogos de “esquerda”, Bruno Forte e Marcello Semeraro. Um trio de personalidades muito próximas de Bergoglio, que expressam a proeminência internacional da Itália, mas não a representação nacional.

Nem Forte nem Semeraro correspondem ao padrão dos prelados atualmente em serviço ativo, ainda referenciáveis aRuini e Bagnasco, como demonstra, aliás, o peso específico e a localização periférica das suas sedes: Chieti eAlbano. Mas o verdadeiro aríete de avanço e cavaleiro sem medo é o gaúcho argentino Víctor Manuel Fernández, reitor da Universidade Católica de Buenos Aires, teólogo de referência do pontificado e inspirador das evoluções mais espetaculares, e audaciosas, do magistério papal.

Um grupo de reflexão assim composto presumivelmente não se limitará a redigir, mas vai tentar dirigir. Daí o fogo cruzado e as faíscas desde o primeiro encontro com a mídia, entre o cardeal André Vingt-Trois, presidente delegado do Sínodo e guardião das prerrogativas da assembleia, e Bruno Forte, ideólogo do “diretório”: uma espécie deGramsci contra Montesquieu, “hegemonia” contra “ésprit des lois”, estabelecendo a entidade e a radicalidade da contenda. Impossível conciliar o prelado de Abruzzo, que, se dependesse dele, de bom grado derrubaria o slogan da “lei da natureza”, e o arcebispo de Paris, que, em torno desse binômino, depois da vitória de Hollande, mobilizou um fronte “antropológico” de fiéis ou não para combater, secularmente, a introdução do casamento gay.

Democracia eclesial

Entre curto-circuitos e ausência de sinal, a Igreja conduz provas técnicas de democracia, que deste lado do Tibreassume o nome de colegialidade, e escreve uma página extraordinária da sua história, de impacto não interior – ao contrário, em alguns aspectos, superior – ao do próprio Concílio, do qual se celebram no sábado os 50 anos. Mesmo que, depois, a democracia, como sempre aconteceu na sua estreia e como convém a uma autêntica femme fatale, inicialmente não concede os seus favores aos progressistas, que a cortejam, mas sim aos conservadores, que a hostilizam.

Na verdade, observávamos exatamente há um ano, as grandes revoluções democráticas na França e na Inglaterracomeçam com uma reforma “fiscal”. Ou seja, quando um soberano convoca o Parlamento para aumentar ou diminuir os impostos. Pecados e absolvições, penitências ou indulgências, no caso da Igreja. Tornando a vida mais fácil para os súditos, ou seja, para os fiéis, e ampliando as bases da inclusão, social ou eclesial. Mas descontentando as hierarquias, que se perguntam e perguntam: “Onde vamos parar?”.

A Magna Carta, mãe de todas as constituições, aparentemente também marcou uma derrota do rei por obra dos barões, mas, na realidade, marcou um passo à frente formidável, irreversível, rumo a uma gestão mais participativa, ou colegial, se se preferir. Em suma, independentemente do que acontecer, e como a história nos ensina, nada será como antes: quer vença o diretório ou a assembleia, os jacobinos ou os termidorianos, Montesquieu ou Antonio Gramsci, ao qual, aliás, Dom Forte se assemelha vagamente, para os apaixonados pelas coincidências somáticas.

Não temos certeza e duvidamos que o Sínodo leve a termo a sua “revolução sexual”, mas, enquanto isso, uma revolução democrática está ganhando forma e consistência. Os circuli minores, equivalente das comissões parlamentares, tornaram-se “maiores”, derramando sobre o Instrumentum laboris uma chuva de “modos”, eufemismo canônico para não dizer “emendas”, e reivindicando que sejam acolhidos pelo diretório. Ao contrário, os Padres poderiam negar o seu voto.

Há o suficiente para alimentar o suspense, na possibilidade concreta de que o árbitro apite o fim sem um vencedor, evitando o desgaste e a loteria dos rigores. Se chegasse do Sínodo um texto desprovido de retoques significativos na práxis e nos preceitos, depois de um ano de expectativas crescentes, quem sairia inatacado seria o carisma do pontífice, hoje em dia deslumbrante. O papa, que alcançou o maior consenso de todos os tempos, corre o risco de cair para o mínimo no colégio que o elegeu ao trono. Por outro lado, no ponto aonde as coisas chegaram, para evitar uma ruptura na Igreja, Bergoglio deveria ir rumo a uma ruptura com o mundo.

A esse respeito, a comparação sazonal com a Revolução de Outubro, que muitos evocam em referência com o calendário, esconde uma ligação mais profunda e científica do que podem imaginar aqueles que dela fazem um uso jornalístico superficial. Assim como os revolucionários de mais ou menos 100 anos atrás, o papa se encontrou diante do dilema leniniano de um “Sínodo/Duma” e, provavelmente, de uma própria base católica que ainda não estavam prontos para as suas reformas.

Na solidão dos Sucessores de Pedro – e antes deles dos patriarcas e profetas – Francisco, portanto, deverá escolher se quer frear para dar tempo aos retardatários, que ficaram para trás, ou acelerar para abrir espaço aos excluídos, deixados de fora, à beira da vertigem que protege, e ameaça, os caminhos do povo de Deus e dos seus guias.

1 comment to Sínodo: uma “crise de governo” para o papa. Maioria que o elegeu se divide

  • AMIGO PIERO; PELO AMOR DE DEUS, AO FAZER OUTRO ARTIGO TENHA PIEDADE: FAÇA ALGO INTELIGIVEL AO COMUN DO MORTAIS. nÃO PRECISA MOSTRAR TANTA “CULTURA”. OBRIGADO !

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