No Sínodo, a disputa é entre pastores e ideólogos

No Sínodo dos bispos de 2015, a disputa não é entre liberais e conservadores, mas entre pastores e ideólogos. O caminho no qual o Papa Francisco está acompanhando a Igreja é o de um discernimento comum – um processo em que não há metas concorrentes e alternativas entre si, mas experiências e teologias diversas que colaboram na elaboração de um consenso.

Artigo de Massimo Faggioli

A opinião é do historiador italiano Massimo Faggioli, professor de história do cristianismo da University of St. Thomas, em Minnesota, nos EUA. O artigo foi publicado no sítio TheHuffingtonPost.it, 04-10-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

A “saída do armário” midiaticamente bem organizada como a do monsenhor polonês empregado da Congregação para a Doutrina da Fé do Vaticano e a consequente decisão vaticana de demiti-lo dos seus encargos (também do ensino em universidades pontifícias em Roma) despertaram reações diferentes e opostas.

Por um lado, há aqueles que veem no “coming out” e na reação vaticana a prova de uma incurável atitude de perseguição dos homossexuais (hoje em formas menos violentas do que no passado) por parte da Igreja Católica.

Por outro lado, há aqueles que veem no gesto do Mons. Charamsa uma provocação que tem pouco a ver com a questão homossexual na Igreja, que usa a nomeação do ex-Santo Ofício para uma espécie de contraedito e que exerce uma pressão indevida sobre a Igreja e sobre o papa, em particular, no momento muito delicado da abertura do Sínodo dos bispos em Roma, sobre questões divisivas na Igreja mundial, incluindo a da visão sobre a homossexualidade.

Ambas as posições têm uma parte de razão, mas, a meu ver, a questão é mais complicada, porque entrelaça questões diversas e se insere em um contexto particular. As questões diversas são três.

A primeira é a da homossexualidade e da visão da Igreja Católica sobre o sexo não procriativo. A segunda questão é a do celibato do clero e da relação entre vida religiosa-clerical e dimensão sexual da vida humana. A terceira questão é a da hipocrisia na e da Igreja, e do fato de que é o “escândalo público” que cria problemas, e não tanto o fato em si.

O Mons. Charamsa violou conscientemente, com um grave custo pessoal (para si e para outros, menos livres do que ele para decidir sobre as consequências do coming out), todos os três limites que a Igreja se deu para tratar a questão: revelou que estava há muito tempo em uma relação de casal (homossexual ou heterossexual é secundário), revelou ser homossexual e fez isso com uma coletiva de imprensa.

Tudo isso se insere em um contexto pré-sinodal, em que o gesto foi utilizado da melhor forma (e não poderia serSínodo Dezb diferente) exatamente por aqueles para os quais um padre homossexual não pode ser padre, nem teólogo a serviço do Vaticano e, talvez, nem mesmo um cristão católico. É difícil entender se o Mons. Charamsa não previu ou não desejou essa heterogênese dos fins, que era muito fácil de se prever.

Mas aqui há um elemento que, na minha experiência de professor de teologia nos Estados Unidos, eu acho que é diferente da vida da Igreja na Itália e em Roma. A experiência dos católicos e dos teólogos homossexuais (homens e mulheres) na América, há alguns anos, foi “liberada” dentro das escolas teológicas e universidades católicas (não todas); muitas teólogas e teólogos católicos são há muitos anos ativos na comunidade científica e são reconhecidos (de modo não oficial, mas inequívoco) como vozes da teologia gay (ou LGBT) dentro da teologia católica.

Entre a realidade vivida pelos católicos norte-americanos e a linha oficial, há um abismo, e é um abismo feito de histórias em muitos casos dolorosas. Um dos privilégios de ensinar teologia na América é entrar em contato com histórias de colegas e amigos dos quais nunca se saberia nada em nível oficial. Na América (mas talvez agora também na Itália), o escândalo é o abismo entre realidade e linha oficial, e não o coming out.

Nesse contexto, a meu ver, as considerações táticas sobre os efeitos do coming out (deste, do dia 3 de outubro de 2015, e de outros menos publicizados do que esse) não interessam ou, no mínimo, são muito secundárias. Em outras palavras, por muito tempo, a Igreja institucional fingiu ignorar o problema, exceto ao reprimi-lo ocasionalmente e seguir em frente como se nada tivesse acontecido. Isso provocou muita dor derivada dos silêncios, dos compromissos, das hipocrisias que justamente são percebidas como antitéticos à verdade do Evangelho de Jesus Cristo – porque essa deve ser a referência, não outros.

A questão diante do Sínodo e do Papa Francisco é que, na Igreja Católica de hoje, ninguém tem receitas prontas para a questão do papel da vida e da experiência dos homossexuais na Igreja. Ou seja, aqueles que têm receitas prontas são os ideólogos que ignoram a complexidade ligada a resolver essa questão de uma mesma e idêntica maneira em uma Igreja como a católica, que tem no seu interior, ao mesmo tempo, o liberalismo e o progressismo radical norte-americano e a cultura tradicional da família na África e na Ásia (a questão é muito mais complexa, mas aqui devo simplificar).

Entre aqueles que já têm a receita pronta – em que a receita é: nenhuma mudança nem nesta frente, nem nas outras em discussão no Sínodo, como para os divorciados recasados – há eminências como o cardeal Ruini e as suas externações desses últimos dias (incluindo sobre a questão dos refugiados, em que ele diz que “muitos também na Igreja não acolhem ninguém; muitos acolhem assim, alla garibaldina [impetuosamente, sem cautelas]”).

Nesse sentido, fica claro – também a partir da homilia do Papa Francisco na missa de abertura do Sínodo na manhã desse domingo – que, no Sínodo dos bispos de 2015, a disputa não é entre liberais e conservadores, mas entre pastores e ideólogos. O caminho no qual o Papa Francisco está acompanhando a Igreja é o de um discernimento comum – um processo em que não há metas concorrentes e alternativas entre si, mas experiências e teologias diversas que colaboram na elaboração de um consenso para alcançar uma síntese mais avançada em relação à práxis atual da Igreja.

Iludem-se aqueles que pensam que esse processo de discernimento pode ser acelerado ou freado com uma coletiva de imprensa: isso vale tanto para o Mons. Charamsa quanto para o cardeal Ruini.

Autor: Massimo Faggioli

Fonte: www.unisinos.br

 

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