A Educação nos Documentos do Vaticano II

 O segundo concílio do Vaticano, usualmente referido como o Concílio Vaticano II, constitui um ponto de viragem na perspetivação da Igreja Católica e um marco de referência para o mundo inteiro, quer pela relevância cada vez mais reconhecida à Igreja como consciência crítica de um mundo em mudança, quer pela força da palavra, quer ainda pela ação em prol das pessoas e dos povos, mormente junto daqueles que não têm vez e voz.  –  Foto: João XXIIIe Paulo VI, os papas do Concilio Vaticano II

Abílio Louro de Carvalho – 26/08/2015

É certo que, por vezes, alguns setores eclesiásticos têm-se sentido mais confortáveis numa relação de promiscuidade com os poderes políticos, nem que seja para garantia da liberdade de expressão, do culto e da ação.

Não, é porém, essa a posição e a orientação da Igreja pós-conciliar, embora nem tudo na Igreja, como noutras realidades, as coisas não sejam a “preto e branco”. E, sobretudo, não pode com base neste argumento, toldar-se toda a ação benfazeja das pessoas e grupos eclesiais no acompanhamento dos homens em crise ou nas chamadas terras de missão e países subdesenvolvidos.

Concílio Vaticano II: mais de dois mil bispos, de 1962 a 1966

Integra o ser da Igreja fazer comunhão, construir comunidade, estabelecer comunicação; e a sua missão consiste no anúncio da Pessoa e Ação de Jesus Cristo – que passou pelo mundo a fazer o bem – criando as condições para que a sua mensagem seja acolhida ou recebida, mesmo que o seja com hostilidade ou indiferença. Por isso, ela tem por timbre a promoção das condições de vida para que todo o ser humano e o seu ambiente se desenvolvam. 

E uma das vertentes da promoção das condições de vida é a educação, tanto como a saúde, que a Igreja tem como seu direito e sua obrigação e a que tenta imprimir a sua marca, a da inspiração evangélica, embora com os contributos de outras escolas filosóficas, científicas, pedagógicas e artísticas.

Não obstante, sobretudo depois do momento conciliar, ela reconhece os esforços envidados por outras entidades, reconhece o papel do Estado em matéria educativa, que não pode despregar-se do papel da família, e quer ter uma palavra a dizer sobre a educação servida pelos outros.

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A reflexão plasmada no texto ora em desenvolvimento tem em vista a educação em geral e não propriamente a educação específica que a Igreja ministra ou patrocina (universidades pontifícias, universidades católicas, seminários, institutos, academias, ateneus, colégios, etc.).

Convém sublinhar que a doutrina conciliar não seria possível de formular se não tivesse surgido um Papa João XXIII, que pretendia trazer uma lufada de ar fresco a uma Igreja demasiado instalada nas categorias mentais da Tradição (nem sempre entendida no sua correta aceção, mas confundida com tradições, algumas delas bem recentes), ou um Papa Paulo VI, que, face à fragilidade da sua pessoa, preferiu confiar no Espírito que renova todas as coisas e promover alguma aprendizagem com o mundo dos homens.

É certo que alguns dos bispos participantes na aula conciliar, em sintonia com a autoridade científica de uma plêiade de insignes teólogos, conseguiram a elaboração de 16 documentos que ficam para a História da Igreja como pontos importantes de formulação da fé em termos de aggiornamiento e de caminhos de conceção e ação pastorais.

Também o Concílio foi precedido de uns movimentos de longa maturação e largo alcance, que influenciaram convenientemente os documentos conciliares. Estão nesta linha, além de outros,

  • o movimento bíblico,
  • o movimento litúrgico,
  • o movimento ecuménico,
  • os institutos seculares
  • e a ação católica.

No atinente à educação e na aceção ora selecionada, há que salientar a Declaração sobre a Educação Cristã, em latim, Gravissimum Educationis (GE); a Constituição Pastoral sobre a Igreja no Mundo Contemporâneo, em latim, Gaudium et Spes (GS); e o Decreto sobre a Formação Sacerdotal, em latim, Optatam Totius (OT).

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Sobre a relevância da educação e da capacitação pessoal, profissional e social

É cada vez maior a importância da educação na vida do homem e a sua influência no progresso social. Com efeito, a tarefa educativa das crianças, dos adolescentes e dos jovens como a formação continuada dos adultos (a educação permanente ou a educação ao longo da vida) torna-se uma ação não só menos fácil como mais urgente e delicada.

As pessoas, conscientes da dignidade que lhes é inerente, em conjugação com a ideia progressivamente mais apurada do dever, anseiam por tomar parte na vida da comunidade, mormente nas suas componentes económica, social e política. Também os avanços do progresso técnico e da investigação científica, bem como os novos meios de comunicação social, dão aos homens a oportunidade de, gozando de mais tempo livre, conseguirem mais fácil incorporação da cultura intelectual e moral e de mutuamente se aperfeiçoarem, mercê dos vínculos de união mais estreitos quer no grupo quer mesmo com os povos. (cf GE, proémio).

O epifenómeno da educação e ensino

 Por isso, em toda a parte

  • se fazem esforços para promover cada vez mais a educação e o ensino;
  • declaram-se e registam-se em documentos públicos os direitos fundamentais dos homens e, em particular, dos filhos e dos pais, relativos à educação.

Com o aumento crescente do número de alunos e das exigências da qualidade de vida,

  • multiplicam-se as escolas e fundam-se outros centros de educação e de instrução;
  • cultivam-se, com novas experiências, os métodos e técnicas de educação e de instrução;
  • tomam-se grandes iniciativas para que tais métodos e técnicas estejam ao alcance de todos os homens, embora muitas crianças e jovens ainda não possuam a formação mais elementar e tantos careçam de educação adequada, na qual se cultivem simultaneamente a verdade, a filantropia e mesmo a caridade (Cf GE, proémio). 

A educação como direito universal em consonância com o fim do homem 

Todos os homens, de qualquer estirpe, condição e idade, têm, em razão da dignidade de pessoa humana que os exorna, o direito inalienável a uma educação correspondente ao próprio fim, acomodada à própria índole, sexo, cultura e tradições pátrias, e, ao mesmo tempo, aberta ao consórcio fraterno com os outros povos para favorecer a verdadeira unidade e paz na terra.

Porém, “a verdadeira educação pretende a formação da pessoa humana em ordem ao seu fim último e, ao mesmo tempo, ao bem das sociedades de que o homem é membro e em cujas responsabilidades tomará parte, uma vez chegado à idade adulta”.

Como é que, se não for com base na educação, se pode formar o homem, construir comunidade e estabelecer o perfil do cidadão da cidade dos homens e, consequentemente, da cidade de Deus?

Balizamento da ação educativa

Assim, torna-se necessário que, tendo em conta os progressos da Psicologia, da Pedagogia e da Didática, as crianças e os adolescentes sejam ajudados em ordem ao desenvolvimento harmónico das qualidades físicas, morais e intelectuais, e à aquisição gradual dum sentido mais perfeito da responsabilidade na própria vida, retamente cultivada com esforço contínuo e levada por diante na verdadeira liberdade, vencendo os obstáculos com magnanimidade e constância. Devem outrossim ser formados numa educação sexual positiva e prudente, à medida que vão crescendo (cf GE, 1). 

Elementos constitutivos da educação e formação bem ordenadas

 Por meio de uma formação bem ordenada, os estudantes devem:

  • sentir em si cultivada a devida maturidade humana, comprovada principalmente por uma certa estabilidade de ânimo, pela capacidade de tomar decisões ponderadas e por um juízo reto e equânime sobre os homens e os acontecimentos;
  • dominar o próprio temperamento, para se formarem na fortaleza de espírito e aprenderem a estimar aquelas qualidades que são tidas em maior conta pelos homens, como a preocupação constante com a justiça, a fidelidade às promessas, a urbanidade no trato e o comedimento no falar e no agir;
  • e criar em si a estrutura da autodisciplina, crescente conforme as idades, de modo a que, no quadro da crescente autonomia,
    • aprendam a dirigir-se gradualmente a si mesmos,
    • se habituem a usar sabiamente da liberdade,
    • a tomar iniciativas,
    • assumir responsabilidades
    • e a colaborar com os companheiros e com os outros intervenientes na vida da escola ou da sociedade (cf OT, 11).

Devem os alunos preparar-se de tal modo para uma ativa participação na vida social, que, munidos dos necessários e oportunos meios,

  • sejam capazes de inserir-se ativamente nos diversos agrupamentos da comunidade humana,
  • se abram ao diálogo com os outros
  • e se esforcem de boa vontade por cooperar diligentemente no bem comum (cf GE, 1).

É, pois, imperioso atender-se cuidadosamente à educação cívica e política, hoje tão necessária à população e sobretudo aos jovens, para que todos os cidadãos possam participar na vida da comunidade política (cf GS, 75).

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É a educação vista nos seus fundamentos, nas suas finalidades e objetivos, nos seus elementos constitutivos primordiais; é a democratização da educação e o estilo dialogal como sua marca; é a afirmação da sua utilidade social e política.

Enfim, sem a educação, como se pode ser cidadão de corpo inteiro ou plasmar-se o perfil do homem de Deus?

 

Abílio Louro de Carvalho Abílio Louro de Carvalho

FONTE: http://ideiaspoligraficas.blogspot.pt/2015/08/a-educacao-nos-documentos-do-vaticano-ii.html

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