O longo caminho em busca do Outro

 Imagem: geledes.org.br
Vivemos em um mundo em constantes e rápidas transformações, mas, afinal, o que ou quem decide o que é tolerável nesse contexto? Longe de ter uma resposta pronta para o tema, Roger Haight, em entrevista por e-mail à IHU On-Line, explica que algumas culturas, inclusive religiosas, definem-se na comparação com outras, o que inclui o ódio a grupos distintos. “Qualquer religião que promova a intolerância de outras religiões acaba por desacreditar-se.

. Entrevista especial com Roger Haight

Márcia Junges e Ricardo Machado – 16 de agosto de 2015
– Tradução: Claudia Sbardelotto  –

Essa é a revelação da globalização”, defende. “Temos que tentar ir além da simples tolerância e nos esforçarmos para aprender uns com os outros. A história está indo em frente, e eu tenho esperança de que um dia o diálogo inter-religioso não será mais uma formalidade tensa, mas uma maneira espontânea de viver”, complementa.

Haight explica que, mesmo tendo passado quase cinco séculos do Iluminismo, não significa que a sociedade europeia seja iluminista, e critica uma valorização extremada do conceito. “Para saber se uma sociedade é iluminada, deve-se levar em consideração a formação educacional em geral e muitos outros fatores. Assim como culturas baseadas na religião, muitas pessoas no primeiro mundo nunca passaram por um período de autocrítica salutar.

O Iluminismo é um conceito social sobrevalorizado”, avalia.Recuperando uma perspectiva de compreensão do próprio ser humano, o professor relaciona a complexidade e a integralidade do universo como uma chave de leitura aos desafios relacionados à tolerância. “Estamos unidos como uma família biológica de seres humanos neste imenso universo; nossas diferentes revelações e línguas espirituais não deveriam competir umas com as outras; deveríamos comparar nossas visões.

Deveríamos ir muito além da tolerância em direção ao respeito e a uma cooperação e intercâmbio mútuos”, propõe.

Roger Haight é ex-presidente da Sociedade Teológica Católica dos Estados Unidos e professor visitante no Union Theological Seminary, em Nova Iorque, uma tradicional casa de formação de teólogos fundada em 1836 como uma instituição presbiteriana e onde estudaram grandes nomes da teologia mundial. Foi professor de Teologia por mais de 30 anos em escolas da Companhia de Jesus em Manila, Chicago, Toronto e Cambridge. Foi professor visitante em Lima, Nairóbi, Paris e em Pune (Índia). De sua produção bibliográfica, citamos: Jesus, símbolo de Deus (São Paulo: Paulinas, 1999), Dinâmica da teologia (São Paulo: Paulinas, 1990) e O futuro da cristologia (São Paulo: Paulinas, 2005).

 

Confira a entrevista.

Roger Haight quando esteve na Unisinos a convite do IHU. Foto: Acervo IHU

IHU On-Line – Qual a importância de se refletir sobre a intolerância na contemporaneidade?

Roger Haight – Estou feliz por poder refletir sobre tolerância e intolerância em nosso moderno mundo pluralista, mas consternado com a forma como a nossa situação resiste a respostas claras.

A tolerância — capacidade de permitir, aguentar, admitir, e não contradizer, proibir ou resistir às crenças e práticas que não sejam as nossas — é uma virtude.

A intolerância, portanto, é um vício, porque pressupõe que uma falta de vontade de aceitar, permitir, suportar ou conceder direitos iguais aos outros seja direcionada a algo que merece respeito.

Por exemplo, um grupo é intolerante se este exclui as pessoas por causa da sua raça; mas não chamamos a sociedade de intolerante por não aceitar assassinatos. Mas quem decide o que é tolerável em um mundo que muda rapidamente? Onde poderíamos e onde deveríamos ser mais tolerantes quando tanto a virtude quanto o vício admitem graus de limites mais ou menos difusos?

Por exemplo, se está se tornando mais claro que a condição religiosa natural do mundo é pluralista, não deveríamos nos regozijar com a diversidade das religiões em vez de simplesmente tolerá-la? De repente, a mera tolerância começa a aparecer como moralmente insuficiente.

Nosso dilema moral, portanto, tem de ser definido em um contexto de pluralismo, que eu defino como diferenças que são unidas em conjunto ou que existem dentro de um campo comum para que interajam: elas encontram-se umas com as outras. Por exemplo, as religiões em sua maior parte costumavam estar confinadas a diferentes regiões ou culturas e não se defrontavam diariamente. Hoje, elas vivem juntas em grandes metrópoles, e o intercâmbio se torna constante, complexo e delicado.

As respostas para as questões que parecem óbvias exigem uma reflexão sutil. A intolerância divide as religiões e as Igrejas cristãs; ela subsiste na relação entre a religião e a descrença, entre a religião e a ciência; ela é encontrada no meio acadêmico, entre as profissões e a sociedade em geral. Sou grato por essa série de perguntas que ajudam a fornecer referência e relevância para questões complicadas.

IHU On-Line – Quais são as expressões fundamentais de intolerância religiosa que se percebe na modernidade?

Roger Haight – Algumas culturas definem a si mesmas com relação a outras; o ódio a outros grupos inclui quem elas são. Eu quero lidar com o comportamento que é mais intencional ao invés daquele culturalmente enraizado.

A questão não pode ser abordada ingenuamente, porque é difícil determinar quando a hostilidade para com os outros é puramente religiosa ou deliberadamente intolerante. Por exemplo, será que o que parece hostilidade para com uma religião mascara uma reação a um grupo identificável que busca ou tem poder em uma sociedade? O antissemitismo é motivado pela religião? A religião entra muito na definição da identidade, e a intolerância pode acontecer como forma de resistir a um controle social que vai afetar o meu grupo.

Por exemplo, será que tolerar um grupo crescente de muçulmanos em uma região do norte da África vai resultar em uma imposição da lei islâmica sobre a minha família? Neste caso, o religioso e o social estão interligados. Nos Estados Unidos, a relevância da religião para a política partidária tem sido mitigada pela privatização do comprometimento religioso.

Em muitas esferas, incluindo a política, o comprometimento religioso de uma pessoa não é percebido, embora os sociólogos possam descobrir as tendências ligadas a diferentes grupos religiosos. A privatização ajudou a neutralizar a intolerância religiosa, embora os teólogos insistam que a fé cristã precisa ser demonstrada no comportamento social.

As expressões mais fundamentais de intolerância religiosa ocorrem quando a pertença religiosa define mais plenamente a identidade de um grupo, e essa identidade é, então, desafiada por forças externas a si mesmas. Este é um fenômeno de grupo. Por exemplo, um israelense e um palestino muçulmano podem ser bons amigos e suas famílias podem socializar entre si. Mas casos individuais isolados não determinam as respostas do grupo, e essas pessoas vão naturalmente alinhar-se com as políticas de identidade coletiva e não votar contra os interesses de seu grupo. É difícil diferenciar a intolerância pessoal da intolerância institucional.

IHU On-Line – Por que esse tipo de intolerância continua a existir mesmo após o século das luzes?

Roger Haight – O chamado Iluminismo [1] foi um fenômeno ocidental, e não se pode presumir que cada cultura ou sociedade teve o seu próprio período de profunda análise crítica das fontes de conhecimento e valor. Além disso, foi uma elite intelectual que gerou principalmente o Iluminismo e foi afetada por ele. O Iluminismo teve como alvo a autoridade religiosa, e as Igrejas resistiram em grande parte, tornando-se mais autoritárias.

À medida que o Iluminismo foi gradualmente atingindo a cultura em geral, muitas Igrejas continuaram a resistir a ele, mesmo quando elas internalizavam muitos dos seus princípios. Assim, nem todos em uma cultura pós-iluminista no Ocidente são iluminados. Por exemplo, nos Estados Unidos — país fundado nos princípios do Iluminismo — cerca de 40% das pessoas, hoje, não acreditam na evolução.

Para saber se uma sociedade é iluminada, deve-se levar em consideração a formação educacional em geral e muitos outros fatores. Assim como culturas baseadas na religião, muitas pessoas no primeiro mundo nunca passaram por um período de autocrítica salutar. O Iluminismo é um conceito social sobrevalorizado.

“Estamos unidos como uma família biológica de seres humanos neste imenso universo; nossas diferentes revelações e línguas espirituais não deveriam competir umas com as outras”

IHU On-Line – Por outro lado, pensando no tipo de humor feito pelos chargistas da Charlie Hebdo, seria adequado afirmar que os intelectuais ocidentais perderam a capacidade de compreender o fenômeno religioso? Por quê?

Roger Haight – Eu quero entender o evento Charlie Hebdo, e outros como ele, de tal forma que as reações como um todo sejam compreensíveis. Isso não quer dizer moralmente “justificadas”. Isso significa tentar compreender as sensibilidades que estão se confrontando. Vou usar uma distinção entre espiritualidade e religião para esclarecer o meu pensamento.

  • Espiritualidade refere-se à lógica de uma pessoa ou de toda a vida de um grupo diante daquilo que eles consideram transcendentalmente valioso.
  • Religião é a espiritualidade institucionalizada, uma forma de organização de uma fé que é projetada para sustentar e alimentar a espiritualidade.

Por um lado, o que a pergunta chama de “intelectuais ocidentais” representa o questionamento crítico de algo, e a sátira é uma de suas formas mais populares. Poucas pessoas utilizaram a sátira para criticar a sociedade e a Igreja de forma tão eficaz quanto Erasmo [2] no início do século XVI, com o seu “Elogio da Loucura”. Tudo, ou seja, tudo foi submetido ao ridículo. O valor da liberdade, a autonomia das pessoas, a capacidade de falar contra as estruturas autoritárias são valores fortes que estavam sendo exercidos e protegidos.

Por outro lado, Erasmo representava a crítica interna, a forma como os membros da família têm a permissão de criticar amorosamente seus pais. Altere o contexto para um relacionamento entre um primeiro mundo dominante e, em alguns aspectos, entre os povos explorados, e a crítica torna-se um ataque agressivo de um inimigo que goza de uma vantagem de poder sobre uma vítima mais fraca.

A espiritualidade, como uma soma total do comprometimento fundamental de uma pessoa ou de um grupo, existencialmente, define a identidade de uma pessoa. Nós somos o que fazemos. E a religião pode definir bem a espiritualidade de alguém, especialmente em uma cultura pré-iluminista.

No Ocidente, há muito mais espaço entre a espiritualidade das pessoas e a sua religião do que há no Islã. Essa distinção ajuda a compreender que o que pode parecer no Ocidente como uma paródia aceitável sobre a religião de um crente fervoroso, para o Islã pode parecer um insulto direto da própria identidade pessoal e coletiva. Não há objetividade aqui; isso equivale a um ataque ad hominem.

Estamos cada vez mais vivendo em um mundo unificado que contém diferenças radicais no sentimento espiritual e religioso. O valor da autocrítica humana é alto, mas não é tão absoluto que não precise atender as identidades básicas das pessoas em torno de suas diferenças. Se elas não forem atendidas com simpatia, a sátira torna-se um ataque que, inevitavelmente, produzirá um contra-ataque.

Todas as instituições, por sua natureza, convidam a uma crítica satírica. No entanto, uma mentalidade analítica equilibrada deve ser capaz de reconhecer que, em algumas culturas, há menos espaço entre a espiritualidade pessoal e a instituição religiosa objetiva. Sem esse espaço, a sátira não é mais reflexiva e construtiva; ela torna-se uma agressão maliciosa.

IHU On-Line – Como analisa o uso político da religião e o aprofundamento da intolerância em nosso tempo?

Roger Haight – Eu não quero assumir como evidentes os pressupostos que podem estar implícitos nessa pergunta, isto é, o significado de “politização da religião” e o fato de que a intolerância está crescendo. Mas posso descrever o que acho que está acontecendo nesses eventos.

Do ponto de vista de uma capacidade de distinguir entre as esferas da atividade e das motivações humanas não há dúvida de que, se os políticos e ativistas sociais acham que podem ganhar impulso apelando para sensibilidades religiosas, eles irão aproveitar essa chance. Às vezes pode ser legítimo: a Igreja Católica é contra o livre acesso ao aborto não porque isso limita as escolhas humanas, mas porque é uma escolha moralmente errada e porque vai diminuir a sensibilidade moral da nação para o valor da vida humana.

Religiões Nov

 

Entretanto, frequentemente, um apelo direto ou implícito à religião em assuntos do bem comum tenta ganhar apoio para uma política que não tem uma lógica coerente e usa a religião negativamente (contra outros grupos) ou positivamente (por inferência injustificada) para ganhar apoio onde este não é obtido.

Por exemplo, um partido apela a um grupo na sociedade evocando medo ou ódio a outro grupo ou religião. Se uma determinada política parece coerente ou não, ela é promovida com base na agenda desta ou daquela religião. Isso acontece porque muitas vezes as pessoas que recorrem a ela dizem: “Não temos nada a perder” e “Isso funciona”.

Não há dúvida de que a política é utilitarista e muitas vezes abre mão dos valores em prol de seus objetivos. Mas eu não acredito necessariamente que a intolerância religiosa esteja aumentando, em princípio, mesmo que possa ser cada vez mais evidente. Eu prefiro pensar que a mudança das condições de nossa existência comum como espécie está expandindo as relações humanas de forma revolucionária.

As culturas humanas, sociedades e grupos estão sendo forçados a conviver, e está crescendo uma conscientização sobre os efeitos desse desenvolvimento. Os eventos externos e as novas relações estão afetando o modo de vida de todos, e as pessoas estão reagindo. Novas relações coletivas estão testando a capacidade humana de tolerância de forma dramática. A tolerância precisa ser aprendida; geralmente, ela é aprendida lentamente. E a tolerância é apenas um primeiro passo num longo processo destinado a acolher a diferença.

IHU On-Line – Em que sentido a intolerância religiosa descamba para outras formas de intolerância? Poderia dar alguns exemplos dessa “migração” da intolerância da religião para outras formas secularizadas?

Lutero 5

Roger Haight – Essa questão da intolerância religiosa pode levar a várias direções diferentes. Vou conduzir a discussão para o lado em que a experiência religiosa pode tornar-se tão intensa que começa a fechar-se sobre si mesma, em vez de abrir o espírito humano para o mundo. Isso aconteceu em vários momentos da história do Cristianismo, mas há exemplos claros durante o período da Reforma [3],  quando grupos conservadores e perfeccionistas recuaram tanto do movimento católico quanto protestante para formar Igrejas altamente motivadas na disciplina moral.

De um lado, essas Igrejas, geralmente congregacionalistas em suas políticas, ajudaram a forçar o reconhecimento de uma separação entre Igreja e Estado; por outro lado, em vários graus, fixaram-se para além dos mecanismos da sociedade cristã e secular. Sua exclusiva perspectiva evangélica não estava e, ainda hoje, não está aberta a uma variedade de valores seculares, muito menos às espiritualidades e instituições de outras religiões. Essas Igrejas com visão estreita transferem suas atitudes negativas a um número cada vez maior de objetos.

Outra maneira de olhar para esse fenômeno cristão, que pode ter análogos em outras religiões, seria esta: a graça de Deus que nos é mediada por Jesus Cristo é tão intensamente experimentada, que todos os outros candidatos para um compromisso total da própria vida são considerados rivais, e considerados com desconfiança, se não com rejeição. Essa apropriação de Jesus Cristo está em contraste gritante com a crença em uma encarnação que atesta a aceitação de Deus e a aprovação de toda a criação.

“Quem decide o que é tolerável em um mundo que muda rapidamente?”

IHU On-Line – Em entrevista à nossa revista em 2012, o senhor afirmou que “A falta de relevância pública da Igreja estimulou o surgimento da espiritualidade em contraposição à religião”. Em que medida essa espiritualidade é mal compreendida e termina sendo uma outra fonte de intolerância por aqueles que não a professam?

Roger Haight – Deixe-me começar por explicar o significado da citação. Quando a espiritualidade é compreendida como a lógica de toda a vida de uma pessoa, especialmente centrada em torno de um valor de comando, pode-se ver que é diferente do fenômeno social da religião organizada. Eu acredito que o ditado, comum nos Estados Unidos, “eu sou espiritual, mas não religioso”, decorre de Igrejas que não conseguem engajar-se com as fontes profundas da espiritualidade de um povo e que oferecem verdades religiosas que não se conectam.

Mas as várias formas de espiritualidade, incluindo a espiritualidade cristã, não se tornam o objeto de intolerância? Pense nos illuminati que desprezam a prática religiosa popular e a consideram superstição. Ou a fonte de intolerância: como uma espiritualidade religiosa organizada, que é limitada, desconfiada dos outros e intolerante. A virada para a espiritualidade não a exime dos perigos da intolerância. Mas o perigo está enraizado no conteúdo ou na forma material da espiritualidade, não na espiritualidade per se.

A razão para isso é que todos têm uma espiritualidade; todos seguem alguma fé; ao contrário da religião, a espiritualidade é uma estrutura antropológica universal. Até mesmo o ateu vive um compromisso espiritual. Uma espiritualidade equilibrada seria aquela que é ao mesmo tempo aberta aos outros e somente critica outras espiritualidades que prejudiquem os seres humanos e impeçam o florescimento humano. Mas esse discernimento nem sempre é fácil, e, em todos os casos, é condicionada por um conjunto histórico de circunstâncias particulares.

IHU On-Line – O embate entre fé e ciência gerou inúmeras formas de intolerância ao longo dos séculos. Qual é a situação atual dessa questão em termos de diálogo entre esses dois campos?

Roger Haight – Essa questão expressa brilhantemente a incomensurabilidade das duas diferentes esferas da ciência e da religião. No nível popular, a relação frequentemente gera um desdém incisivo para o outro tipo de conhecimento: os cientistas atacam fanaticamente a religião; os crentes são ignorantes ou ingênuos em uma esfera da realidade que simplesmente não existe.

Essa hostilidade frequentemente se aloja no fundo da imaginação das pessoas, considerando tudo o que é oferecido pelo outro lado como não confiável. Os cientistas atacam a religião popular; os teólogos criticam as conclusões da ciência, mas não têm ideia da perspectiva ou do método que as geraram.

Em contraste, duas palavras na questão abrem uma esfera completamente diferente de intercâmbio: “campos” e “diálogo”. Em primeiro lugar, os teólogos e os cientistas compõem os campos. Eles são profissionais; possuem o conhecimento técnico de suas disciplinas. Seus pontos de vista consistem em mais do que opinião e boatos; eles colocam a experiência metodológica sobre a mesa.

Frequentemente, carregam algum conhecimento das disciplinas ou das espiritualidades dos outros. Em segundo lugar, esses especialistas entram em diálogo. O diálogo tem regras de escuta, bem como de afirmação, de compreender os outros, de lhes explicar, à procura de uma iluminação mútua, respeitando radicalmente os diferentes métodos para interpretar a realidade. O diálogo entre ciência e religião, que está sendo buscado por muitos subcampos, está prosperando hoje, e o intercâmbio é uma das forças mais catalíticas para uma nova interpretação teológica.

“Qualquer religião que promova a intolerância de outras religiões acaba por desacreditar-se. Essa é a revelação da globalização”

IHU On-Line – Pensando na globalização da indiferença, como menciona o Papa Francisco, o senhor percebe uma globalização da intolerância ao Outro, ao oponente político, ao pobre, àquele que professa uma fé “diferente”?

Roger Haight – Essa pergunta me permite esclarecer algumas coisas que disse anteriormente. Já que a comunicação e o comércio estão estreitando os laços de ligação e de interdependência entre os diferentes povos, o que já aconteceu em todo o mundo nos centros urbanos está acontecendo de forma mais geral. Novas ideias, valores e possibilidades agora bombardeiam sociedades e culturas tradicionais.

Essas culturas têm que reagir, e o primeiro ato precisa ser a resistência. As forças externas são invasivas; elas têm como alvo a identidade coletiva; e, geralmente, não podem ser controladas. Eu não quero pensar nesse primeiro ato de resistência como intolerância. Ele pode certamente tornar-se intolerância, mas faz muito mais sentido examinar cada um dos casos separadamente.

Quando olhamos para a história humana como um processo que se desenvolve gradualmente ao longo do tempo, será muito mais proveitoso e rentável para todos entrever novas formas para amenizar os golpes da globalização. Se os valores de respeito e confiança mútua, que, de fato, governam o comércio mundial (você recebe o que você paga) fossem traduzíveis em política mundial, iriam equilibrar e talvez até mesmo tornar positiva a tendência inevitável da história em direção à interdependência.

As religiões têm uma grande responsabilidade e a tarefa de examinar os traços de dominação e de intolerância em suas próprias formas de organização, especialmente as suas teologias, de modo que possam imaginar-se como mediadoras da reconciliação humana e de um florescimento humano mútuo através das fronteiras. Todas as religiões do mundo têm algo a ensinar às pessoas.

IHU On-Line – Se por um lado a religião é acusada de promover intolerância através da radicalização equivocada de uma parte de seus fiéis, por outro há inúmeros exemplos da promoção do diálogo e da fraternidade entre os povos e credos. Como esse esforço pode ajudar na construção de uma cultura da tolerância?

Roger Haight –
[4] respondeu energicamente à acusação de que a religião causa ou promove a divisão e o conflito: “Nós não contestamos a tese de que as religiões podem gerar e geraram fanatismo e violência, mas…

  • a) a religião contém elementos de autocorreção para superar o fanatismo e a violência;
  • b) a violência é consequência de todo o tipo de idolatria, não só de forma religiosa;
  • c) a religião é capaz de gerar compaixão e amor” [Jon Sobrino: Where is God? Earthquake, Terrorism, Barbarity, and Hope {Onde está Deus? Terremoto, Terrorismo, Barbárie e Esperança} (Maryknoll, NY: Orbis, 2004), 127-28].

Normalmente, quando a religião está incluída na definição de partes em conflito, há também outros fatores em ação. Qualquer religião que promova a intolerância de outras religiões acaba por desacreditar-se. Essa é a revelação da globalização.

O impulso atual da história em direção à interconexão global fornece uma ocasião urgente para que a essência positiva de cada religião se afirme. As religiões do mundo têm demonstrado por sua longevidade que elas têm algo de bom para comunicar à humanidade. Para uma religião afirmar que é verdadeira e universalmente relevante, ela requer implicitamente ir ao encontro e afirmar o valor de todas as pessoas.

Cada religião deve exibir o núcleo construtivo de sua espiritualidade para que todos possam apreciar quem e o que ela é. Por exemplo, no Cristianismo, a encarnação que ocorreu em Jesus não derrama os seus benefícios exclusivamente sobre os cristãos; Jesus não é uma posse dos cristãos. Jesus pertence à humanidade como tal, e a encarnação significa que Deus abraça todos os seres humanos.

Portanto, Jesus como um ser humano individual tem de ser entendido como um poder de reconciliação e não de divisão, como uma visitação de amor divino e inclusivo ao inimigo e não como algo que exclui ou rebaixa outras pessoas. As interpretações de Jesus que consideram as pessoas pertencentes a outras religiões como inimigas se equivocaram e erraram seriamente.

Eu presumo que outras religiões possam ser entendidas de forma análoga, a menos que sejam entidades locais, sectárias e divisivas. É por isso que existem “inúmeros exemplos de promoção de diálogo e fraternidade entre povos e religiões”. Mas o objetivo vai além de “construir uma cultura de tolerância”, mas uma cultura em que o pluralismo parecerá ser uma qualidade positiva da história humana, e as sociedades serão enriquecidas pela diferença religiosa. Temos que tentar ir além da simples tolerância e nos esforçarmos para aprender uns com os outros. A história está indo em frente, e eu tenho esperança de que um dia o diálogo inter-religioso não será mais uma formalidade tensa, mas uma maneira espontânea de viver.

“Temos que tentar ir além da simples tolerância e nos esforçarmos para aprender uns com os outros”

IHU On-Line – Gostaria de acrescentar algum aspecto não questionado?

Roger Haight – A história está se movendo rapidamente, não apenas em termos de eventos que passam, mas através de um novo aprendizado sobre o nosso mundo e sobre nós mesmos como seres humanos. Precisamos de um marco que forneça um contexto para reunir e ressituar nossas crenças e valores tradicionais. O marco da evolução é um candidato para isso.

A evolução sugere muito mais do que Darwin [5] quis explicar com a origem das espécies. Hoje, ela evoca o tamanho e a história inimagináveis do cosmos e da evolução temporal do nosso planeta. Nós, seres humanos, fomos, em alguns aspectos, reduzidos em importância; em outros aspectos, parecemos ser uma espécie de apogeu de um projeto tão colossal de desenvolvimento, que cresceu em estatura e que tem ainda muito mais pela frente.

A evolução não é de todo uma nova metanarrativa, mas fornece uma estrutura científica que pode ser adotada por todas as religiões. Dentro desse marco, um apelo à teologia da criação (ou, em outras religiões, as bases da ultimidade na origem e nos fundamentos) pode fornecer uma linguagem para articular perguntas comuns e descobrir pontos de contato e diferença.

Os fundamentos da espiritualidade cristã são a fé em um Deus criador, que é revelado no ministério de Jesus como o poder pessoal de amor que sustenta o universo. O Espírito de Deus está trabalhando nele e em nós. Essa vasta visão da realidade não é contestada nem diminuída pela ciência, mas fortalecida por ela. A magnitude dessa realidade recém-descoberta dá a todas as religiões um novo horizonte onde possam se situar e considerar a sua relação com os outros.

Estamos unidos como uma família biológica de seres humanos neste imenso universo; nossas diferentes revelações e línguas espirituais não deveriam competir umas com as outras; deveríamos comparar nossas visões. Deveríamos ir muito além da tolerância em direção ao respeito e a uma cooperação e intercâmbio mútuos.

 

Márcia JungesRicardo Machado

Ricardo Machado e Márcia Junges

 FONTE: http://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/545739-o-longo-caminho-em-busca-do-outro-entrevista-especial-com-roger-haight

 

Notas:

[1] Iluminismo: movimento intelectual surgido na segunda metade do século XVIII (o chamado “século das luzes”) que enfatizava a razão e a ciência como formas de explicar o universo. Foi um dos movimentos impulsionadores do capitalismo e da sociedade moderna. Foi um movimento que obteve grande dinâmica nos países protestantes e lenta porém gradual influência nos países católicos. O nome se explica porque os filósofos da época acreditavam estar iluminando as mentes das pessoas. É, de certo modo, um pensamento herdeiro da tradição do Renascimento e do Humanismo por defender a valorização do Homem e da Razão. Os iluministas acreditavam que a Razão seria a explicação para todas as coisas no universo, e se contrapunham à fé. (Nota da IHU On-Line)

[2] Erasmo de Rotterdam (ou Erasmo de Roterdã, 1466-1536): teólogo e humanista holandês. Seu principal livro foi Elogio da loucura. Erasmo cursou o seminário com os monges agostinianos e realizou os votos monásticos aos 25 anos, vivendo como tal, sendo um grande crítico da vida monástica e das características que julgava negativas na Igreja Católica. Optou por uma vida de acadêmico independente — independente de país, independente de laços acadêmicos, de lealdade religiosa — e de tudo que pudesse interferir com a sua liberdade intelectual e a sua expressão literária (Nota da IHU On-Line)

[3] Reforma Protestante: movimento reformista cristão liderado por Martinho Lutero, autor das 95 teses pregadas na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg, na Alemanha, em 31 de outubro de 1517, propondo uma reforma na doutrina do catolicismo romano. Lutero foi apoiado por vários religiosos e governantes europeus. Em resposta, a Igreja Católica Romana implementou a Contra-Reforma ou Reforma Católica, iniciada no Concílio de Trento. Em decorrência destes fatos, ocorreu a divisão da chamada Igreja do Ocidente entre os católicos romanos e os protestantes. (Nota da IHU On-Line)

[4] Jon Sobrino: teólogo espanhol, jesuíta, entrou para a Companhia de Jesus em 1956 e foi ordenado sacerdote em 1969. Desde 1957, pertence à Província da América Central, residindo habitualmente na cidade de San Salvador, em El Salvador, país da América Central, que ele adotou como sua pátria. Licenciado em Filosofia e Letras pela Universidade de St. Louis (Estados Unidos), em 1963, Jon Sobrino obteve o master em Engenharia na mesma Universidade. Sua formação teológica ocorreu no contexto do espírito do Concílio Vaticano II, a realização e aplicação do Vaticano II e da II Conferência Geral do Conselho Episcopal Latino-Americano, em Medellín, em 1968. Doutorou-se em Teologia em 1975, na Hochschule Sankt Georgen de Frankfurt (Alemanha). É doutor honoris causa pela Universidade de Lovaina, na Bélgica (1989), e pela Universidade de Santa Clara, na Califórnia (1989). Atualmente, divide seu tempo entre as atividades de professor de Teologia da Universidade Centroamericana, de responsável pelo Centro de Pastoral Dom Oscar Romero, de diretor da Revista Latinoamericana de Teologia e do Informativo “Cartas a las Iglesias”, além de ser membro do comitê editorial da Revista Internacional de Teologia Concilium. A respeito de Sobrino, confira a ampla repercussão dada pelo sítio do IHU em suas Notícias do Dia, bem como o artigo A hermenêutica da ressurreição em Jon Sobrino, publicada na editoria Teologia Pública, escrita pela teóloga uruguaia Ana Formoso na edição 213 da IHU On-Line, de 28-03-2007, disponível para download em http://migre.me/UHJB. A IHU On-Line também produziu uma edição especial, intitulada Teologia da Libertação, no dia 02-04-2007. A edição 214 está disponível em http://migre.me/UHKa. Sobre a censura do Vaticano a Sobrino, confira: Teólogos espanhóis criticam a condenação de Jon Sobrino, disponível em http://migre.me/UHKF, ‘Jon Sobrino, com o tempo, será reabilitado’, afirma Ernesto Cavassa, disponível em http://migre.me/UHL3, Notificação a Jon Sobrino. Teólogos apelam por reforma da Congregação para a Doutrina da Fé, disponível em http://migre.me/UHLk, O caso Jon Sobrino como sintoma. Um artigo de Andrés Torres Queiruga, disponível em http://migre.me/UHLN. (Nota da IHU On-Line)

[5] Charles Darwin (Charles Robert Darwin, 1809-1882): naturalista britânico, propositor da teoria da seleção natural e da base da teoria da evolução no livro A Origem das Espécies. Organizou suas principais ideias a partir de uma visita ao arquipélago de Galápagos, quando percebeu que pássaros da mesma espécie possuíam características morfológicas diferentes, o que estava relacionado com o ambiente em que viviam. Em 30-11-2005, a professora Anna Carolina Krebs Pereira Regner apresentou a palestra obra Sobre a origem das espécies através da seleção natural ou a preservação de raças favorecidas na luta pela vida, de Charles Darwin, no evento Abrindo o Livro, do Instituto Humanitas Unisinos – IHU. Sobre o assunto, confira as edições 300 da IHU On-Line, de 13-07-2009, Evolução e fé. Ecos de Darwin, disponível em http://bit.ly/UsZlrR, e 306, de 31-08-2009, intitulada Ecos de Darwin, disponível em http://bit.ly/1tABfrH. De 9 a 12-09-2009, o IHU promoveu o IX Simpósio Internacional IHU: Ecos de Darwin. (Nota da IHU On-Line)

 

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Veja também:

 

 

 

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