Como me tornei uma anarquista

“Para o anarquista um ser humano, portanto, é sempre usado como fim e não como meio – e um ser humano que vive de salário, e que, assim, aluga seu intelecto e seu físico para que alguém obtenha lucro, está sendo usado como meio e não como fim. O anarquista é contra a exploração do homem pelo homem, do forte pelo fraco. Por isso o anarquismo, como me foi explicado, é um movimento que cabe aqueles que desejam mudar o mundo e não apenas entendê-lo”.

Milly – 12/08/2015

O primeiro sinal de que uma revolução estava prestes a me transformar veio quando escutei uma entrevista de Noam Chomsky e ouvi o entrevistador perguntar se ela um anarquista. Até ali eu tinha contato apenas superficial com Chomsky e sua obra e, nadando em largas braçadas no oceano da minha ignorância, acreditava que anarquista era um mascarado delinquentee baderneio. A única resposta possível para uma pergunta estúpida como aquela, pensei, era um rigoroso “não”. E ao escutar Chomsky dizer “sim” percebi que dentro de mim alguma coisa começava a acontecer.

Alguns minutos depois eu estava dentro de uma livraria comprando livros de Chomsky, e dias mais tarde minha ignorância a respeito do anarquismo começava a ser demolida.

Uma das primeiras coisas que aprendi é que para o anarquista liberdade não é um conceito abstrato, mas o fundamento da vida humana. E que o anarquismo lida com formas de construir uma sociedade bem-organizada e livre a partir da base, detectando e destruindo formas de dominação que não sejam legítimas – como, entre tantas e tantas, o patriarcado.

Como liberdade é um conceito amplo devemos dizer o que ela é para o anarquista. Liberdade é definida pelo direito ao pleno e completo desenvolvimento do poder material, intelectual e moral de cada homem e mulher. Liberdade não é baderna, mas um conceito que implica também responsabilidade porque, dadas as condições ideais, caberia ao ser humano atingir o maior nível de desenvolvimento possível.

Para o anarquista um ser humano, portanto, é sempre usado como fim e não como meio – e um ser humano que vive de salário, e que, assim, aluga seu intelecto e seu físico para que alguém obtenha lucro, está sendo usado como meio e não como fim. O anarquista é contra a exploração do homem pelo homem, do forte pelo fraco. Por isso o anarquismo, como me foi explicado, é um movimento que cabe aqueles que desejam mudar o mundo e não apenas entendê-lo.

Resultado de imagem para Como me tornei uma anarquista

“Se um homem age de forma puramente mecânica”, escreveu Chomsky, “reagindo a ordens externas e instruções em vez de agir determinado por seus próprios interesses e energias e poderes, podemos até admirar o que ele faz, mas desprezaremos o que ele é”.

Para o anarquista toda e qualquer forma de autoridade, dominação e hierarquia, toda a estrutura autoritária, precisa se provar justificável e legítima. Não sendo – como quase nenhuma é – deve ser destruída.

Da mesma forma, o domínio exercido pela elite sobre o trabalhador tampouco é legítimo, mas é mantido através da propaganda (um conceito que é politico mas que também envolve a publicidade) e da força. No universo anarquista o trabalhador se apropriaria dos meios de produção, e aqui vale uma pausa para que o preconceito que existe sobre o termo, que remete ao comunismo e ao marxismo, seja deixado de lado porque esse preconceito é apenas um dos efeitos colaterais da propaganda pós-guerra que nos jogou num mundo maniqueísta de comunismo x capitalismo, sendo o primeiro o bandido e o segundo o mocinho.

O anarquismo, portanto, se difere do capitalismo de estado – esse que existe em Cuba, que existiu na União Soviética e na China – porque não prega que o estado se aproprie dos meios de produção e continue exercendo sobre o trabalhador o domínio que antes era exercido pelo empresário, mas sim que o trabalhador “controle a fábrica”. Chomsky gosta, aliás, de ser chamado de anarco-sindicalista.

Estudando o anarquismo cheguei a “Homenagem à Catalunha”, de George Orwell, que conta a história de como Orwell se encantou com a revolução anarquista espanhola de 1936 e lutou — ao lado de anarquistas pelo partido marxista anti-stalinista — entrincheirado nas montanhas da Catalunha. É um período histórico que tem poucos registros esse da revolução anarquista na Catalunha, mas o livro de Orwell é lindo e detalhado.

Aliás, Orwell, também autor de “A Revolução dos Bichos”, livro que foi tão usado como propaganda anti-comunista, tinha escrito uma introdução à “Revolução dos Bichos” que foi tirada da edição final porque nela ele dizia que embora o livro tratasse de estados totalitários era bastante possível encontrar na Inglaterra “livre” daquela época os mesmos traços opressão e doutrinação a ideias consideradas populares. O que ele explicava é que, no caso da Inglaterra, essa doutrinação não necessitava do uso da força.

Chomsky ajuda a entender Orwell quando diz que em sociedades chamadas de democráticas e dominadas pelo poder concentrado do capital privado o doutrinamento das massas não faz uso da força, mas ele está lá, atuante, e sendo exercido pela propaganda e pelo sistema educacional que, desde muito cedo, ensina o que podemos e não podemos pensar, dizer ou fazer.

Alguns anarquistas acreditam que o único caminho para se alcançar um lugar de igualdade e liberdade é a revolução; outros acham que a democracia pode nos levar até lá. Seja como for é preciso que nos transformemos antes de qualquer coisa. A revolucionária Rosa Luxemburgo (1871-1919) escreveu que a verdadeira revolução social requer a transformação espiritual das massas sufocadas por séculos de regras de dominação burguesa. “Apenas eliminando os hábitos de obediência e servidão até a última raiz fará com que a classe trabalhadora  possa entender uma nova forma de disciplina que se levantará do livre consenso”, ela disse.

Críticos acusam o anarquismo de ser uma filosofia utópica, mas depois de ler e pesquisar bastante acho que, antes de mais nada, o anarquismo não tem a pretensão de ser um fim e que ele pretende apenas apontar um caminho para a liberdade e igualdade.

Não temos como saber que tipo de sociedades funcionam ou não funcionam a não ser que as testemos. É a única forma. E, entre a utopia anarquista e a distopia capitalista eu fico com a primeira sem precisar pensar por um segundo sequer.

 

https://pbs.twimg.com/profile_images/378800000479660479/c9103f2186837f7d33f520314d4c8980_400x400.jpeg

Milly Lacombe

FONTE: http://blogdamilly.com/2015/08/12/como-me-tornei-uma-anarquista/

LEIA MAIS: 

Leave a Reply

You can use these HTML tags

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>