Dois guaranás e a conta com Alyson Reis

Adolescente que passou por sete abrigos escreve livros e fala da experiência de ser adotado por dois pais

Foram sete anos de luta até que o professor Toni Reis e o tradutor David Harrad pudessem adotar uma criança. Alyson, hoje com 14 anos, chegou em 2012. Mas só em março passado eles conseguiram a habilitação definitiva, após decisão do STF.

Mauro Ventura / Agência O Globo – 09/08/20015

Juntos há quase 26 anos, os dois adotaram ainda os irmãos Jessica e Filipe, atualmente com 12 e 9. Toni, de 50, e David, de 57, fugiram ao padrão e escolheram como filhos crianças negras e mais velhas.

Alyson resolveu passar adiante sua história e lançou em agosto passado o livro “Jamily, a holandesa negra: a história de uma adoção homoafetiva” (Editora Appris). Nada mal para quem viveu uma rotina de fugas de abrigos e castigos. “Numa casa de acolhida que fiquei, se errasse a tabuada, o pai, testemunha de Jeová, me batia com tábua de carne na mão. Eu sou artista por natureza, e esses lugares não aceitavam.

Quero ser coreógrafo e bailarino profissional. Hoje danço, nado, escrevo, sou escoteiro, estudo inglês e faço japonês, matemática e português pelo método Kumon.”   Toni diz: “Ele é inteligente, comunicativo, sociável, questionador e alegre.” Nascido no Rio, assim como os irmãos, hoje mora com a família em Curitiba e chama Toni de papai Toni e o inglês David de daddy.

REVISTA O GLOBO: Como era sua vida antes da adoção?

ALYSON REIS: Nasci no Morro do Bacalhau, em Madureira. Meu pai não me queria e, quando minha mãe estava grávida, ele chutou sua barriga e fugiu. Eu era muito bagunceiro, ela me batia, um dia me tacou na parede, abriu minha cabeça, foi denunciada e perdeu a guarda. Eu tinha 7 anos e passei por sete abrigos. Eram muito rigorosos, eu vivia de castigo, fugi umas cinco vezes de cada um. Até que fui para uma casa de acolhida. A mãe era ótima, mas o pai era fundamentalista.

E como surgiu o livro sobre a história de Jamily?

Nunca gostei de ler e escrever. Mas papai Toni começou a me incentivar. Me deu o livro “O menino do dedo verde” e perguntou se eu queria escrever uma resenha. Sugeriu que eu criasse um blog e resenhasse todo mês três livros. Até que decidi fazer o meu, inspirado na minha história. Jamily é uma etíope que vai viver com uma família homoafetiva na Holanda, em meio aos brancos. Como eu, que saí de uma comunidade no Rio e fui morar no centro de Curitiba.

Acabei de terminar o segundo livro, um pouco inspirado em mim, “Kayke, o menino transformado”. A família perdeu dinheiro, o pai sumiu, a mãe se prostituiu e ele se envolveu com drogas. Vai para um abrigo, é adotado por um casal de lésbicas, se torna poliglota e trabalha numa empresa de telefonia celular. E estou fazendo o terceiro, “Adolescentes e suas peripécias”, com 46 crônicas sobre temas como ciúme, inveja, namoro, paixão. Na escola, os colegas me consultam sobre tudo. Perguntam: “Será que sou feia?”, “Dois garotos me querem, o que faço?”

Como foi o seu primeiro contato com Toni e David?

Quando me disseram que um casal de homens queria me conhecer, falei que de jeito nenhum. Eu era muito preconceituoso. Havia aprendido nos abrigos e com o pai da família acolhedora que gays eram nojentos, safados, pedófilos, estupradores. Mas a mãe acolhedora insistiu. Durante os três meses de adaptação, quando eles vinham me visitar, o pai dizia: “Quando esses viadinhos chegarem diga que eu saí. Não quero ver essas coisas.” E depois que eles iam embora limpava a casa. Quando conheci os dois, vi que eram o contrário do que falavam.

E você deu muito trabalho aos dois?

Demais. Papai Toni diz que fui a prova de fogo e que eles têm espaço no céu. É verdade, eu era o capeta em forma de gente. Era respondão, rebelde, desobediente, birrento, mal-educado, mentia muito. Antes, minha única regra era não ter regra.

E a primeira coisa que a criança precisa é limite. Com Toni e David, temos cinco documentos, como o TAC (Termo de Ajuste de Comportamento), que tratam de tudo: metas para o ano, valores, o que pode e o que não pode, o que fazer para melhorar, consequências dos atos. Por exemplo: só posso usar celular até 20h30m.

Depois vejo o “Jornal Nacional” e tenho que fazer duas perguntas sobre o que não entendi. Tenho uma educação rígida, em que recebo limites, educação, carinho, amor e afeto. É a melhor família que já tive. Ninguém merece ter o governo como pai e a prefeitura como mãe. Se não fossem eles eu estaria no abrigo. E, depois dos 18 anos, ficaria solto na vida ou viraria marginal e iria para a Febem.

 

Mauro Ventura

FONTE: http://oglobo.globo.com/rio/dois-guaranas-a-conta-com-alyson-reis-17119013#ixzz3iQbs1NSl

 

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1 comment to Dois guaranás e a conta com Alyson Reis

  • Irene Cacais

    Pois é, Levy Fidelix disse que “iguais não fazem filhos” – mas este artigo mostra que “iguais” cuidam dos filhos que os “diferentes” fizeram e abandonaram.

    O que não entendo: Porque dois iguais com seus filhos não podem ter a denominação “família”?

    E também gostaria que alguém me explicasse como estas famílias de iguais com os seus filhos estão a destruir as famílias heterossexuais.

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