Padres Casados: Há ainda muitas coisas que podemos fazer

Bernardo Eyre* – 03.08.2015

Foto: Padre casado, na Igreja católica

Talvez vai chegar o dia em que o celibato será opcional e padres casados e padres celibatários serão vistos trabalhando lado a lado pelo bem de uma comunidade. Mas antes de chegar tal dia há muita que o padre casado pode fazer. Ele não precisa de um decreto do Papa para chamá-lo de volta ao ministério do serviço.

 O artigo foi publicado em 20 de Fevereiro 2015 no site “The Association of Catholic Priests of Ireland(The ACP of Ireland)  “ Married Priests” : There is still so much we can do.

Há alguns padres casados que lamentam que eles estão excluídos de trabalhos pastorais públicos. De uma certa maneira essa situação é verdadeira porque se você segue o que a Lei Canônica diz sobre os padres casados, então é verdade que eles estão barrados de fazer trabalhos pastorais em público.

Mas se escutamos a voz do povo que chama o padre casado de volta ao ministério então o mundo está aberto para ele fazer trabalhos pastorais como agente pastoral.

Alguns padres casados pensam que o Papa Francisco vai mudar a lei do celibato obrigatório, que ele pode fazer porque ela é uma disciplina e não uma dogma. Eles estão esperando tal dia chegar para que, como eles dizem, “Nós poderemos voltar a ser padres de novo”.

Mas é bom lembrar que quando o padre casa ele não deixa de ser padre porque o Sacramento da Ordem é permanente. Além disso ele ainda é chamado a por em prática o que Jesus ordenou: “Ide pregai o evangelho a todas as criaturas”.

Mas quando um padre casa ele perde sua posição e papel na sociedade. Ele era membro do grupo que se chama Clero. Muitas vezes ele era um vigário responsável por uma paróquia e uma figura importante na sociedade e ele fez muita coisa boa. Mas com o casamento ele perde tudo isso.

O casamento o leva ao nível comum de cada mulher e homem. Alguns padres casados acham que essa perda de status muito difícil, eles tem muita dificuldade de ser um cidadão comum e também tem dificuldade de não ter a última palavra que eles tinham quando eram membros do Clero.

Talvez vai chegar o dia em que o celibato será opcional e padres casados e padres celibatários serão vistos trabalhando lado a lado pelo bem de uma comunidade. Mas antes de chegar tal dia há muita que o padre casado pode fazer, ele não precisa de um decreto do Papa para chamá-lo de volta ao ministério do serviço.

Quando alguém bate na minha porta e me chama para ir ao cemitério e rezar por um falecido ou para ungir algum doente com os Santos Óleos eu não penso duas vezes e não me pergunto: “Eu tenho licença para fazer isso, eu posso fazer isso”? Eu simplesmente me levanto e respondo o chamado. Além disso em virtude da Lei Canônica número 1335

“Os padres casados tem o dever e a obrigação de oferecer os sacramentos aos fiéis quando eles os pedem”. Também a Lei Canônica número 290 diz: “Os sacramentos que os padres casados celebram são válidos”.

Cardeal Francis George com Pe. Mykola Buryadnyk (esquerda) e Pe. Volodymyr Kushnir (direita), suas esposas e filhos. Ambos são casados e têm filhos pequenos …

Mas certos passos podem ser tomados e certas atitudes podem ser mudadas para que o padre casado seja bem vindo nas comunidades e quando o Bispo os chama para uma reunião, para discutir com eles como eles poderiam assumir atividades pastorais na diocese isso seria um bom começo. Mas no final das contas é na paróquia ou comunidade onde o padre casado reside que pode haver mudanças.

Um vigário que recebe um padre casado que mora na sua paróquia pode quebrar barreiras e mudar atitudes. O papel e autoridade do vigário não seria desafiado ou enfraquecido se um padre casado é visto fazendo trabalhos pastorais em colaboração com ele.

Se o padre casado tem o espírito missionário ele é capaz de dividir seu tempo entre seu emprego secular, que ele precisa para poder viver, e seu trabalho pastoral. É possível fazer essas duas coisas e quando ele tem o apoio e compreensão da sua esposa e quando ela também é engajada em trabalhos pastorais não haverá conflito entre ser padre e casado também: eu estou nesta situação.

Pe. Brian (Bernardo) Eire, numa das suas atividades Pastorais/sociais em Recife 

Gostaria de compartilhar alguns dos trabalhos pastorais que eu faço. Conheço também pessoalmente outros padres casados que estão fazendo trabalhos pastorais.

– Visito os doentes nas suas casas ou nos hospitais e celebro com eles o  Sacramento dos Enfermos.  

– Celebro os Ritos Fúnebres nos cemitérios para os falecidos.

– Dou curso Bíblico

– Visito os líderes nas suas casas para dar apoio a eles nos seus trabalhos pastorais.  

– Preparo pessoas para fazer missões populares nas comunidades.

– Ensino a Lectio Divina ou Leitura Orante da Bíblia  para grupos.

– Sou membro do movimento que combate o Trâfico de Pessoas.

– Sou membro do Conselho Paroquial e nesta paróquia sou responsável pela Pastoral dos Edifícios. Há 11 edifícios nesta paróquia que participam desta pastoral. Os edifícios celebram os momentos fortes do ano como:  a Quaresma, o mês de Maio, mês da Bíblia, mês das Missões, Natal em Família.

Muitas vezes as pessoas me perguntam se eu celebro missa pública. A resposta é não. Respeito a lei canônica neste assunto, mas não concordo. Porém eu celebro de vez em quando a missa na minha casa para os momentos importantes da nossa vida como família.

Também concelebro  todas as vezes que eu vou para a missa numa igreja. Faço isso do banco da igreja onde eu estiver porque eu não preciso estar ao lado do altar para concelebrar. Faço isso porque amo a missa e sei no meu coração que sou padre.

Aqui no Brasil há comunidades que não tem missa frequentemente, eles tem missa talvez de 2 a 3 mêses porque o padre da paróquia não consegue visita-los regularmente pois a paróquia dele é muita grande. Eu poderia celebrar com muito amor para essas comunidades.

Mas porque isso não é possível? A situação é a seguinte: Eu poderia ser um padre casado católico responsável por uma paróquia se eu tivesse começado como um padre casado Anglicano. Mas não posso ser um padre casado católico responsável por uma paróquia porque começei como um padre católico celibatário.

Se Deus quiser vai chegar o dia quando esta situação não vai existir mais.

*Bernardo Eyre (Brian Eyre) Recife Pernambuco

irlandês, casado com Marta, 2 filhos, professor,

Fonte: Enviado por e-mail: eyre-br_eyre@hotmail.com

 

2 comments to Padres Casados: Há ainda muitas coisas que podemos fazer

  • Souza

    E ai que dia que teremos aqui um artigo falando sobre padres homossexuais. Penso que hoje, a situação sem saida da Igreja Catolica não é padres casarem com mulher ou não a questão seria da Igreja catolica hoje se chama homossexualidade. Porque a coisa está arraigada.

  • Pe. Caetano Sousa

    Parabéns para estes irmãos sacerdotes casados: que bonito! Eu também aqui no Maranhão como padre casado por 10 anos, exerço o sacerdócio ministerial em 12 comunidades da paróquia de Anajatuba, Diocese de Coroatá, minha diocese originária, além do meu trabalho civil, faço esse trabalho com muito gosto, pois me sinto muito amado pelo povo que me chama para celebrar a Santa Missa para eles, batizar os filhos deles e na medida do possivel repassar estudos bíblicos, catequéticos e direção espiritual juntamente com eles. Tenho certeza que sou padre e serei até depois da morte (o sacrameneto da Ordem é indelével), mas há uma dificuldade muito grande com os padres celibatários, normalmente não há facilidade de diálogo e por isso um distanciamento. Com o povo me sinto mais unido e participativo do que quando era celibatário.
    PARABÉNS para todos os padres, especialmente os padres casados.

    Pe. Caetano. Igreja Vétero-católica

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