O PEREGRINO – um comentário

A tessitura desta nova obra de Luís Guerreiro não foge de seu estilo, bem próximo daquele que os alemães chamam de Bildungsroman ou romance de formação. Não se trata propriamente de biografia, mas de uma caminhada interior, de um percurso nem sempre com final feliz. Essa marca ele a imprimiu em seus outros romances: Caminhos de Liberdade e Solidão (1991), Impossível Regresso (1995), Entardecer (1998) e Oitavo Dia da Criação (2007), cujos personagens ganham certas afinidades com a própria história de vida do autor, inquieto em suas buscas incansáveis.

O Peregrino traz à tona a romaria, vivenciada a pé de Paris a Roma (1500 km) durante 109 dias – de 18 de junho a 4 de outubro de 1995 – pelo redentorista bretão Henri Le Boursicaud. Essa louca aventura, como muita gente pelo caminho entendia sua viagem, partiu de uma decisão amadurecida ao longo de mais de quarenta anos fora do convento, quando dali saiu para se tornar padre operário, vivendo entre imigrantes e, em seguida, fundar uma das comunidades dos companheiros de Emaús, inspiradas no trabalho do famoso Abbé Pierre. Sua comunidade, situada em Charenton, subúrbio de Paris, tinha o sugestivo nome de Emmaüs Liberté (Emaús Liberdade).

Henri, nascido em 1920 como João Paulo II, acalentava o sonho de, aos 75 anos, levar em sua peregrinação uma mensagem para o Papa aniversariante e um pacote de livros selecionados da lavra do confrade teólogo Bernard Häring, autor dentre outros dos três volumes que Henri traduziu do português para o francês: Livres e Fiéis em Cristo. A grande obsessão de Henri se resumia no seguinte: Não podendo suportar por mais tempo a incoerência do Vaticano e da sua instituição, decidi fazer Paris Roma a pé, indo até ao limite das minhas energias físicas e morais, com a finalidade de gritar a minha verdade.

O autor combina páginas de fina dramaticidade, na descrição do percurso de seu personagem, ora acolhido ora rejeitado em suas andanças, com lampejos de muita profundidade sobre a história do papado. João Paulo II poderia perfeitamente se enquadrar no perfil de papas autoritários como Gregório VII, Inocêncio III e o Bonifácio VIII da Unam Sanctam.

Nos apontamentos, que Henri meditava sobretudo nos dias de descanso sabático, lê-se essa tirada bem representativa de suas reflexões: Os estudiosos da História sabem que foi o papa Gregório VII, no século XI, quem imprimiu o impulso decisivo à concentração do poder na Igreja. E essa tendência dominante foi aumentando até hoje.

E mais adiante nosso autor faz seu próprio comentário em cima das anotações de Henri: A grande contradição entre o papado e o Evangelho está na libido dominandi, na ambição insaciável de poder que atravessa toda a história papal, num crescendo constante.

Não devo antecipar todo o enredo do romance para que o leitor possa saborear todas as etapas do percurso do septuagenário Henri e de Jürgen, seu jovem e impulsivo  companheiro de aventura. Contudo, impõe-se aqui uma apreciação de fundo mais ideológico, pois não ousaria chamá-la pomposamente de teológica.

Em se tratando da história do hoje nonagenário Henri Le Boursicaud, que vive numa favela da periferia de Fortaleza (CE), um apaixonado da liberdade evangélica, proclamada por Jesus de Nazará, o texto do Guerreiro nos coloca num clima de esperança e é a reafirmação daquilo que o próprio Henri ouviu do Abbé Pierre: “Não, não é verdade que o verdadeiro caminho seja o que leva ao nada”

Não, de modo algum! Além do mais, está nos textos, que O Peregrino levava ao Papa,  uma outra visão de Igreja bem mais próxima da atmosfera arejada e em nada sufocante de um João XXIII, que teve a coragem de convocar e iniciar, em 1962, o Concílio Vaticano II.

Roma, em vez de significar a meta de todos esses percursos – pois todos os caminhos levavam à Roma Imperial – poderia tornar-se apenas ponto de passagem e base de apoio para a evangelização do oikoumenê como Paulo imaginara em sua carta aos Romanos. É bom saber que o Evangelho continua a ser proclamado, onde dois ou três se reunem no Nome d’Ele, seja em Charenton, seja no Pirambu.

Guerreiro, Luís. O Peregrino. Brasília: Editora SER, 2012; 144 p.

Comentário: Francisco Salatiel – Brasília (DF): chicosalatiel@gmail.com

 

 

 

1 comment to O PEREGRINO – um comentário

  • Francisco Assis Conceição

    Breve, mas muito esclarecedor, este comentário de Francisco Salatiel ao romance “O Peregrino” de Luís Guerreiro. Oxalá este pequeno romance venha a ser lido por um grande número de Cristãos. Ele poderá, neste momento de crise, ajudar a Fraternizar a comunidade das pessoas com o exemplo de Henri Le Boursicaud. Também um melhor conhecimento da história da Igreja, não a sua ignorância, contribuirá para fortalecer os laços fraternos.
    Cordiais felicitações

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