Meninas, jovens, mulheres, mães: para elas, metade do mundo é um inferno

Mulheres butim de guerra no Sudão, esposas escravas na Nigéria, noivas-crianças na Síria, Afeganistão, Iêmen, Paquistão

 Por Sara Gandolfi

Mutlu Kaya só queria cantar. Mas na televisão. E talvez até mesmo ganhar o prêmio que talent-show turco Sesi Çok Güzel tinha posto  em concurso. Não conseguiu. Um homem entrou no jardim da sua casa e atirou na sua cabeça pela janela enquanto ela estava almoçando com seus irmãos. A garota de dezenove anos de origem curda saiu do coma depois de uma luta desesperada contra a morte, mas continua sob o íncubo daquela agressão.

Tinha recebido muitas ameaças depois da sua primeira aparição na Tv, com aqueles seus olhos magnéticos, os traços perfeitos, a voz melódica. A polícia prendeu três pessoas, entre as quais o o ex-namorado. Não era o único que a  ameaçava de morte: alguns parentes do pai também tinham“protestado” furiosamente porque ela se tinha mostrado em público, com os braços nus demais. A  tradição não quer“, disseram eles.
O caso de Mutlu, na Turquia – onde no ano passado foram registrados 300 assassinatos de mulheres – é apenas um  entre muitos de uma longa lista, que não conhece fronteiras.

Soma-se  aos repetidos estupros em grupo e ataques com ácido na Índiaàs mulheres que são butim de guerra no Sudão do Sul, às mulheres escravas dos jihadistas do Isis no Iraque e do Boko Haram na Nigéria, às lapidações no Irão, às esposas meninas na Síria, Afeganistão, Iêmen, Paquistão e assim por diante.

Não é um problema apenas do mundo islâmico ou dos países em desenvolvimento. Esta estranha pandemia ataca em todos os lugares, até mesmo quando onde  não se espera. Dentro dos muros domésticos do rico Ocidente e da  efervescente potência chinesa, por exemplo, ou nos bancos das modernas escolas americanas.

De acordo com um estudo recente, realizado em uma instituiçãode ensino superior  privada de Nova York, quase uma estudante em cada cinco foi vítima de estupro ou de tentativa de estupro durante o primeiro ano de universidade.

Passaram exatamente vinte anos após a Declaração de Pequim, aprovada pela Quarta Conferência Mundial sobre a Mulher: uma extraordinária “chamada às armas” pela igualdade, pelo desenvolvimento e pela  paz, e pelo fim a todas as formas de violência contra mulheres de qualquer idade.

Desde então, o mundo tem dado enormes passos em termos de igualdade de gênero

  • Meninos e meninas estão agora, em número igual, matriculados nas escolas elementares,
  • a mortalidade durante o parto foi reduzida à metade,
  • o acesso ao mercado de trabalho foi alcançado  em quase em todos os lugares, ainda que sejam necessários, segundo estimativas da ONU, mais 75 anos antes que as mulheres obtenham o mesmosalário que os homens  com as mesmos cargos e competências.
  • A proporção de mulheres parlamentares dobrou em todo o mundo e apenas 32 países ainda não adotaram leis constitucionais que garantam a igualdade de gênero.

Estes vinte anos, em suma, não passaram  em vão para o sexo feminino.

Exceção feita para

  • os espancamentos,
  • os abusos sexuais,
  • os estupros,
  • os assassinatos.

A taxa de violência contra as mulheres parece mesmo ter crescido nos últimos anos, devido também à sobrevivência de antiquadas leis tribais, ao aumento das guerras no Oriente Médio e na África, ao advento de um fanatismo feroz que impõe seu controle sobre o corpo feminino em nome da religião ou de uma não bem especificada “cultura”.

Sem esquecer, porém, que a pior guerra está dentro de casa: em média, no mundo, 30% das mulheres são vítimas de violência física ou sexual por parte dos seus parceiros (com diferenças notáveis ​​de país para país: “apenas” 15% no Japão, mas nada menos de 71% na Etiópia).

A chinesa Li Yan viveu um longo pesadelo, que terminou em uma prisão de Sichuan. Pouco depois do casamento, o seu marido começou a espancá-la e maltratá-la: apagava os cigarros no seu rosto e cortou-lhe um dedo. “Minha irmã procurou assistência legal e ajuda para salvar o seu casamento e a si mesma. Chamou a polícia muitas vezes, recorreu à  Federação das Mulheres. Ninguém a ajudou. “

Por fim,  em novembro de 2010, Li matou o marido, que ameaçava atirar nela, golpeando-o com a coronha de um fuzil. Nove meses depois, ela foi condenada à morte, sentença revista no ano passado.

Agora espera, na prisão, um novo julgamento. Seu caso causou agitação e comoção  e as autoridades enviaram novas diretrizes à magistratura e à polícia para que se considere  justificada a auto-defesa em casos semelhantes.

“A China não é um país fácil para os ativistas dos direitos civis, inclusive nas questões de gênero”, explica Julie Brossard, na sede chinesa da UN Women, a agência da ONU para as mulheres. Agora uma nova proposta de lei promete fornecer proteção às vítimas de violência doméstica, mas ainda não prevê o crime de estupro conjugal.

No entanto esta lei, para as chinesas, já constitui um grande resultado.
Para muitas mulheres, a primeira experiência sexual foi “forçada”, especialmente nas áreas rurais: 17% das meninas na Tanzânia, 24% no Peru e 30% no Bangladesh declaram ter sido vítimas de um “estupro iniciático”.

Estupro por vezes institucionalizado: mais de 700 milhões de mulheres  se casaram, ou foram forçadas a fazê-lo, quando tinham menos de 18 anos,  e destas pelo menos 250 milhões  não tinham completado 15 anos.


Como Amina, garota de 14 anos, que no campo de refugiados de Zaatari , onde vivem  80.000 sírios  que fugiram das zonas de guerra,   deu à luz seu primeiro filho. Ela é originária dos campos que circundam Homs, onde o casamento entre adolescentes, se não crianças, sempre foi a norma.

“Os casamentos eram combinados entre nossas famílias, é normal”, diz a sogra que espera do lado de fora dos “containers”  onde ocorrem os partos. “Casei-me ainda criança e depois meu marido casou-se com outras quatro mulheres, mais novas,  e me repudiou. Nunca permitirei que meu filho faça algo assim”.

No entanto,  o seu  neto que nasceu daquela nora ainda menina, de acordo com a lei, não será filho de homem nenhum.  A Jordânia não reconhece os casamentos de menores de 18 anos de idade nem os filhos que deles resultam. E certamente não é a única pena que recai sobre as esposas-meninas, muitas vezes fisicamente imaturas para ter relações sexuais e dar à luz. Acontece na Síria e em dezenas de outros países, em particular nas comunidades mais pobres do mundo islâmico, onde dar em casamento uma  filha jovem serve para resolver disputas, ressarcir danos  ou simplesmente  ganhar alguma coisa. Um fenômeno formalizada por imãs  complacentes ou, como  ocorre no Paquistão,  pelos conselhos de anciãos da aldeia (jirga).

A ferocidade contra as  mulheres no mundo parece mesmo não conhecer limites, como mostram as notícias provenientes das frentes  jihadistas e o relato de  Zainab Bangura, a enviada especial da ONU às zonas de guerra.

Depois  de recolher  depoimentos atrozes em campos de refugiados que surgiram à sombra do Califado,  ela declarou que os militantes do Estado islâmico

“estão institucionalizando a violência sexual: o embrutecimento de mulheres e adolescentes é um elemento central na sua ideologia. Depois de atacar uma aldeia, o Isis separa os homens das mulheres e mata os homens com mais de 14 anos. As meninas são desnudadas, examinadas quanto ao tamanho do seio e à beleza e  é verificada a sua virgindade “.

No autoproclamado Califado na Síria existe uma hierarquia:

“A primeira escolha cabe aos xeques, em seguida, aos emires, por último aos combatentes. Muitas vezes tomam três ou quatro meninas e mantêm-nas com eles por um mês, até que se cansam e as escravas são então colocadas no mercado “.

Mulheres que vão a leilão, como animais. Segundo o testemunho de alguns médicos locais, os jihadistas submetem as suas escravas a atos sexuais “brutais e anormais”, e algumas mulheres foram obrigadas a submeter-se a dolorosas operações para restaurar a virgindade antes de serem revendidas,  até vinte vezes.
Dramas que ganham as primeiras páginas dos jornais e depois são rapidamente esquecidos.

“Todos parecem ter esquecido as Chibok Girls, as meninas que, há pouco mais de um ano atrás, todo o mundo pedia que fossem libertadas por meio do hashtag #BringBackOursGirls” – recorda o jornal on-line Africa Express, trazendo as declarações de Kassim Shettima, governador do Estado de Borno segundo o qual mais de 200 meninas raptadas 15 meses atrás, se encontrariam todas  em um bunker subterrâneo do grupo terrorista Boko Haram na floresta Sambisa.

A situação está melhor no Afeganistão, depois do fim do regime obscurantista dos talibãs. Apesar de o abuso contra as mulheres continuar a ser um dos grandes flagelos do país.

O número de denúncias encaminhadas à Comissão Independente de Direitos Humanos do Afeganistão  em 2014 superou em mais de 2000 as recebidas no ano anterior: denúncias que iam  da violência física e sexual aos “crimes de honra” e à imolação.

“As afgãs fizeram enormes  conquistas desde 2001: milhões de mães conseguiram mandar suas filhas à escola, outras começaram a trabalhar, candidataram-se às eleições ou até mesmo começaram a sair de casa livremente, sozinhas: não teriam podido fazer nada disto sob o regime talibã”, reconhece Heather Barr,  uma ativista dos direitos humanos.

“Mas muitas das minhas colegas continuam a ser mortas nas ruas, muitas violências não são punidas e metade das meninas em idade escolar ainda não estudam”.
No sistema penal de muitos países, como o Afeganistão ou o Irã, a violência contra as mulheres é institucionalizada sob o termo, muito geral, de “crimes contra a moral”, que define qualquer violação social da lei islâmica, ou Sharia .

Assim acabam na prisão mulheres que fugiram de casamentos onde foram abusadas ou escravizadas, outras culpadas por ter tido relações íntimas fora do casamento, ou  mulheres estupradas e depois forçadas a prostituir-se por terem sido marginalizadas e colocadas na lista negra por suas próprias famílias.

Às vezes a violência começa antes mesmo do nascimento: os abortos seletivos, que permitem “escolher” apenas filhos homens estão aumentando na Arménia e continuam sendo uma prática bastante difundida na Índia.

País, este último, que depois do escândalo internacional provocado em 2012 pelo estupro e assassinato brutal de uma estudante em um ônibus, e de  outros casos de violência contra turistas ocidentais também, tentou tomar consciência deste flagelo.

“As nossas cabeças ficam abaixadas devido à vergonha”, admitiu o Primeiro-Ministro Narendra Modi publicamente.

Mas o horror está, às vezes, apenas do outro lado dos muros das nossas confortáveis casas ocidentais. Shazia, por exemplo, casou-se aos 15 anos no Paquistão e depois mudou-se para a Grã Bretanha com o marido e sua família alargada, da qual se tornou escrava.

“Todos os dias eu limpava a casa,   massageava minha sogra,  costurava roupas que eles depois vendiam sem me dar nada, e nunca tinha tempo para mim mesma”, denunciou à BBC, mostrando as cicatrizes no seu rosto: “Meu marido me batia constantemente, queimou-me com o ferro de passar roupa, bateu-me com a máquina de costura. Ninguém na casa o detinha”.

Shazia não tinha nenhum contato com o exterior, não falava inglês, e o seu verdugo ameaçava constantemente mandá-la de volta para a casa dos pais. E isso seria uma desonra para ela e para toda a sua família. Escrava doméstica de dia, escrava sexual de noite. E o seu caso é apenas um de uma longa lista na nossa Europa moderna.

 

Sara Gandolfi

Fonte: http://27esimaora.corriere.it/articolo/bambine-ragazze-mogli-madri-per-loro-meta-del-mondo-resta-un-inferno/

Tradução: Orlando F. Almeida

 

 

 

 

LEIA MAIS:

Leave a Reply

You can use these HTML tags

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>