Francisco é papa: pressentimento e ressentimento

O artigo foi publicado no seu blog Come Se Non, 09-04-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Eis o texto.

No sítio Vatican Insider, assinada por Andrea Tornielli, lemos no dia 7 de abril a notícia que transcrevo aqui, literalmente:

Andrea Tornielli 1

O cardeal alemão, em uma entrevista concedida ao jornal francês La Croix, declarou: “A chegada à Cátedra de Pedro de um teólogo como Bento XVI é provavelmente uma exceção. João XXIII também não era um teólogo de ofício. O Papa Francisco também é mais pastor e a Congregação para a Doutrina da Fé tem uma missão de estruturação teológica do Pontificado”. Assim, pois, segundo a declaração de Müller, o ex-Santo Ofício deve “estruturar teologicamente” o Pontificado do Papa Francisco. E é provável que este seja um dos motivos pelos quais o prefeito intervenha tão frequentemente em público, algo sem precedentes na história.

Trata-se de uma significativa novidade, posto que segundo o artigo 48 da Constituição Apostólica sobre a Cúria Romana Pastor Bonus, promulgada por João Paulo II em 1988, “o trabalho próprio da Congregação para a Doutrina da Fé é promover e tutelar a doutrina da fé e os costumes em todo o orbe católico”.

Ao passo que o Papa “por vontade do próprio Cristo”, como recordou também Francisco durante o encerramento do Sínodo de 2014, é o “Pastor e Doutor supremo de todos os fiéis” (cânon 749). Até poucas décadas atrás (o último que o havia feito foi Paulo VI) era o próprio Pontífice que presidia pessoalmente a Congregação para a Doutrina da Fé, justamente em razão desta tarefa que só recai sobre o Pontífice, em virtude do primado petrino. Um primado que pertence ao Bispo de Roma: presidir “na caridade” e, caso surgissem, também dirimir questões teológicas.

As palavras do cardeal Müller, com a introdução da inédita e até agora não formalizada tarefa de “estruturar teologicamente um Pontificado”, passaram quase despercebidas. Mas, se por um lado abrem cenários novos com respeito à tradição da Igreja, por outro lado, parecem dar a entender que, segundo Müller, o atual Pontificado (assim como o deSão João XXIII) não tem suficiente “estrutura” teológica.

[A IHU On-Line publicou aqui a íntegra da notícia de Tornielli. E também a íntegra da entrevista com Dom Müller, aqui.]

 

Diante dessas palavras, que nos deixam, para dizer pouco, perplexos, é preciso nos determos brevemente sobre a avaliação do “fenômeno Francisco” a partir de dois ângulos diferentes, que ilustram de modo muito instrutivo o percurso pelo qual a consciência eclesial passou nos últimos dois anos.

 

O pressentimento eclesial

Há cerca de um ano, no primeiro aniversário da eleição do novo papa, Marciano Vidal, em uma bela entrevista concedida a F. Strazzari e L. Prezzi, publicada com o título “A moral: da escolástica aos pobres” (revista Settimana, 6 [2014], p. 8-10), fazia estas esclarecedoras observações:

“Só pessoas muito otimistas e dotadas de um grau bastante elevado de ingenuidade poderiam dizer que se prospectava a renúncia de Bento XVI. Quanto à eleição do cardeal Bergoglio a papa, ela podia ser prevista por analistas sagazes que conhecessem o que aconteceu no conclave anterior, no qual foi eleito papa o cardeal Ratzinger, e tivessem tomado nota das orientações que apareceram nas discussões cardinalícias prévias ao último conclave. Mas estou convencido de que nem mesmo esses especializados analistas chegaram a prever o terremoto no sentir eclesial causado pela primeira apresentação do Papa Francisco na varanda escancarada para a Praça de São Pedro: abandono de alguns paramentos de identificação papal, convite à oração comum. Seguramente, não previram o que aconteceu em seguida.

“No entanto, se o fenômeno Francisco teve um significado tão amplo, é porque esse significado foi reconhecido. E, se foi reconhecido, é porque, em grande parte, era esperado, porque era pressentido. Eu não quero fazer jogos de palavras. Quero identificar uma chave de leitura para compreender o fenômeno Francisco no atual momento eclesial. É a maturidade eclesial que explica em grande parte esse fenômeno. O modo de realizar o ministério petrino por parte do Papa Francisco não vai contra a corrente, nem precisa ser justificado ou explicado. É algo que se desejava e que, por parte de um bom número, se esperava.

“Há também uma geração bastante ampla de católicos que haviam sido tocados pela ilusão de João XXIII e pela profunda experiência eclesial (teológica, litúrgica, espiritual, pastoral) do Concílio Vaticano II. Aquilo que eles veem no Papa Francisco lhes parece ser a realização naturalmente em forma atualizada daquele sonho primaveril dos anos 1960.

Eu acredito que o Papa Francisco é o fruto maduro do Concílio Vaticano II. Vejo-o maduro porque ele toma como óbvio aquele espírito e não se sente obrigado a justificar a sua implementação, recorrendo a textos conciliares específicos. Aqueles que hoje bendizem a Deus pelo modo de agir do papa são os continuadores daquela chamada maioria conciliar que, desde a primeira sessão conciliar de 1962, começou a entrever algo de novo.

Não quero pensar que a dura e poderosa minoria conciliar da época encontra o seu paralelo nos setores católicos (e não católicos) críticos diante de certos gestos (por exemplo, lavar os pés de uma mulher, além do mais muçulmana, durante o rito da Quinta-Feira Santa) e diante de algumas expressões (“Quem sou eu para julgar!”) do novo papa.

“Passou muito tempo entre as esperanças suscitadas pelo Vaticano II e o seu cumprimento. É isso, pelo menos, o que parece para muitos de nós que, nos tempos do Concílio, tinham entre 25 e 30 anos. Para muitos destes, os tempos do pós-Concílio foram tempos inclementes e de gelo – anunciados pelo grande teólogo Karl Rahner.

A corda que impedia a renovação vinha se apertando cada vez mais ao redor de teólogos, pastoralistas, comunidades de base. A corda tinha sido puxada demais. Havia indícios de que a situação era insuportável. Justamente por isso, o fenômeno Papa Francisco, sem poder ser totalmente previsível, certamente era desejado e pressentido. Foi visto e aceito, por uma parte, como uma libertação e, por outra, como a realização de uma promessa.”

Vindo de um homem nascido em 1937, que dedicou toda a sua vida à fé e à teologia, esse balanço do primeiro ano doPapa Francisco, então, assumia um significado totalmente singular. Acima de tudo, era preciso notar a bela intuição de referir o “fenômeno Francisco” a um pressentimento eclesial, ou seja, à esperança e ao desejo de uma Igreja madura, filha da grande temporada conciliar de 50 anos atrás.

O primeiro papa “filho do Concílio” não era apenas o fruto do Espírito Santo, que com liberdade soberana orienta e guia a vida dos fiéis, mas também o filho de uma Igreja que não se esquecia da irreversibilidade da graça da sua própria história. Parece-me que, a quase um ano da sua eleição, o Papa Francisco podia ser justamente compreendido como essa surpresa e como essa confirmação.

Pelo mesmo motivo, uma segunda razão, expressa então por Vidal, me parece que deve ser sublinhada: o Papa Francisco não precisava justificar a si mesmo, na sua novidade, mas podia simplesmente ser filho de uma Igreja que, 50 anos antes, havia conhecido a possibilidade de uma renovação e de uma atualização, de uma reforma e de uma primavera, que agora pode ser facilmente reconhecida nas palavras e nas obras, nas ações e nas omissões do novo bispo de Roma.

A práxis simples com que Francisco começa os seus dias – concelebrando a eucaristia e sempre proferindo a homilia – são, no plano litúrgico, as mais evidentes confirmações dessa “normalidade surpreendente”.

Restava, evidentemente, a questão decisiva, talvez: se foi também a maturidade eclesial que pôde reconhecer emFrancisco o próprio papa, essa mesma Igreja saberá não decepcionar Francisco no seu impulso alegre e bendizente, no seu desejo ardente de abrir portas e janelas, de sair da autorreferencialidade, de correr para as periferias?

A Igreja, que reconheceu em Francisco o papa que ela esperava e que, a seu modo, tinha preparado, saberá se fazer reconhecer por Francisco como aquele “campo de refugiados” em que a misericórdia de Deus se torna acessível a toda mulher e a todo homem?

 

O ressentimento curial

À distância de mais de um ano daquele fatídico 13 de março, aparecem como sinais evidentes – ao lado dos pressentimentos confirmados pelo sentimento generalizado de gratidão e do “sensus ecclesiae” maravilhado e admirado com a eficácia do novo pastor – as resistências, os fechamentos, as oposições, que chegam a assumir a forma de um verdadeiro “ressentimento”.

Ele pode se expressar na forma de um “desconforto” não dissimulado diante de uma poderosa “profecia do alto”: o cristão individual, o presbítero, até o bispo, encontram-se continuamente ultrapassados por aquele “tomar a iniciativa” de um bispo Roma que não se deixar encaixar em qualquer lógica estática.

Mas tais ressentimentos também podem se expressar simplesmente em uma “leitura superficial” do fenômeno: ou seja, através de uma embaraçosa desvalorização da linguagem e dos conteúdos do Papa Francisco, considerados “simples” demais ou até “simplistas” demais, sem conseguir minimamente reconhecer que, ao contrário, a qualidade “diferente” da linguagem e dos gestos de Francisco é mais complexa e mais rica, mais profunda e mais surpreendente do que a “administração ordinária” episcopal e presbiteral.

No entanto, até agora, ninguém havia teorizado, a partir do próprio centro da Cúria Romana, uma exigência de “normalização do pontificado”, como se depreende das palavras citadas do prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.

Francisco

João XXIII -1

Acredito que aqui se deva constatar com preocupação que esse parece
ser, até agora, o mal-entendido mais substancial – ao mesmo tempo – dos pontificados de João XXIII e de Francisco, curiosamente unificados pela característica de ter “pouca estrutura teológica”.

Aquilo que é um aumento objetivo da doutrina eclesial e da profecia evangélica dos últimos 60 anos é lido, justamente pelo prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, como “falta de estrutura teológica”.

Esse julgamento, tão injusto e distorcido, coloca um sério problema eclesial, que não pode ser ignorado. Certamente, não é a primeira vez que se cria uma tensão entre o prefeito do Santo Ofício e o bispo de Roma.Pensemos naquilo que tinha acontecido há muitos anos entre Ottaviani e Paulo VI; mais recentemente, entre Ratzinger e João Paulo II. Mas ninguém jamais tinha sequer remotamente querido teorizar que a Congregação do Santo Ofício tivesse que “dar estrutura teológica” a um pontificado.

O “pressentimento” que permitiu que se reconhecesse o golpe Francisco como papa, evidentemente, ainda não entrou em alguns “sagrados palácios”, que, assim, estão desprovidos de “pressentimento”, a ponto de chegar a teorizar umaCongregação para a Doutrina da Fé que garanta uma “continuidade doutrinal” a despeito da profecia e da parrésia [franqueza] de um pontífice.

As formas com que a ausência de pressentimento sabe se inverter em amargo ressentimento já superaram o limite da precaução. Até chegarem a configurar, de modo nada escondido, uma incompreensão estrutural do pontificado deFrancisco por parte de altos responsáveis da Cúria Romana.

E devemos nos perguntar: o pontificado de Francisco – junto com o de João XXIII – pode sofrer um mal-entendido tão grave justamente por parte do órgão que deveria servi-lo com maior zelo? E o prefeito da Congregação, que reivindica essa autonomia do bispo de Roma, pode ter a pretensão de falar em nome não digo da Igreja ou da Cúria Romana, mas da própria Congregação que preside?

Acredito que a reforma da Cúria deverá se ocupar com urgência desse clamoroso mal-entendido. A maturidade eclesial, que permitiu que se reconhecesse Francisco como papa desde as suas primeiras palavras, também deve poder ter acesso aos sagrados palácios. E tem-se a sensação de que muitos tons e muitos temas do Vaticano II soariam, naquelas salas, como palavras totalmente novas.

O pressentimento que imediatamente reconhece Francisco como papa é filho do Vaticano II, enquanto o ressentimento em relação a ele parece justamente o fruto de um estranhamento estrutural ao Vaticano II.

Esse “estranhamento estrutural ao Vaticano II (et quidem a Francisco)” que habita a Cúria Romana deve ser remediado.

Especialmente pelo fato que a Congregação para a Doutrina da Fé não tem de modo algum a tarefa de impor uma velha estrutura teológica ao pontificado de João XXIII ou de Francisco, mas deve aprender e servir uma nova estrutura teológica, que, de João XXIII a Francisco, soube reformar a vida e a ação eclesial. E deve fazer isso com o devido pressentimento eclesial e sem nenhum ressentimento curial.

 

Andrea Grillo 

FONTE: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/541728-francisco-e-papa-pressentimento-e-ressentimento-artigo-de-andrea-grillo

(NR. ampliado, tendo em conta o original citado abaixo: Come se Non)

4 comments to Francisco é papa: pressentimento e ressentimento

  • Elisabet Lieven

    Então o Muller e sua turma estão com medo mesmo….

  • Irene Cacais

    Estão nada, Elisabet, porque acham que tem o Espirito Santo “alugado” exclusivamente para eles, infelizmente.

  • […] Até agora, ninguém havia teorizado, a partir do próprio centro da Cúria Romana, uma exigência de normalização do pontificado, como se depreende das palavras citadas por Müller. Acredito que aqui se deva constatar, com preocupação, que esse parece ser, até agora, o mal-entendido mais substancial dos pontificados de João XXIII e de Francisco, curiosamente unificados pela característica de terem “pouca estrutura teológica”. […]

  • Miguel Bastos

    Qual o apoio de Francisco? Porque parece isolado?

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