Anglicanos & Igreja Católica: Mons. Mark Langham explica alguns aspectos em entrevista exclusiva à Gaudium Press

FONTE: http://www.gaudiumpress.org/view/show/10200-anglicanos-igreja-catolica-mons-mark-langham-explica-alguns-aspectos-em-entrevista-exclusiva-a-gaudium-press

Publicado 2009/10/26
Autor: Gaudium Press
Secção: Mundo

Roma,(Segunda, 26-10-2009, Gaudium Press) Em entrevista exclusiva com Gaudium Press,Mons. Mark Langham -oficial do Pontifício Conselho para a Unidade com os Cristãos- explica alguns aspectos do ‘anunciado’ ingresso dos anglicanos a Igreja Católica.

Devemos ver na decisão do Papa um primeiro passo para a reunificação entre a Igreja Católica e a Igreja Anglicana ou, como um dos jornalistas mencionou, um triste sinal da “morte” do anglicanismo?

Nenhum dos dois casos, na verdade. Esse grupo da Igreja Anglicana que pediu para vir para Roma está solicitando isso há bastante tempo. Assim, devemos distinguir, com muito cuidado, entre o pedido de alguém que deseja ser católico e as relações ecumênicas com a Igreja. São duas situações diferentes. Não podemos confundi-las; não podemos considerá-las do mesmo modo, em absoluto.

O modo de responder à solicitação de pessoas que sinceramente desejam se tornar católicas não afeta, de forma alguma, nosso diálogo com a Comunhão Anglicana oficial. Nosso objetivo é, realmente, como sempre foi, a plena comunhão, e nós continuamos a trabalhar nessa direção por meio do diálogo oficial. Com efeito, em novembro teremos um colóquio com os anglicanos, que foi agendado há muito tempo, e que continua toda aquela tradição do Concílio Vaticano II.

A Igreja da Inglaterra tem seus problemas, mas dizemos que ela esteja morrendo. Não esperamos senão que toda essa questão termine em um robusto testemunho do Evangelho.

O senhor pode explicar aquilo que foi chamado pelo cardeal Levada de “fenômeno mundial”, ou seja, essa decisão de numerosos anglicanos de se converterem ao catolicismo? Há membros de outras igrejas protestantes pedindo o mesmo?

Sim, esses pedidos nos chegam de tempos em tempos. Mas lembre-se de que a Comunhão Anglicana, no mundo todo, tem uma relação especial com a Igreja Católica. O Concílio Vaticano II foi dedicado especificamente às Igrejas que, vindo da Reforma, preservaram alguns aspectos católicos de identidade, e aí a Igreja Anglicana tem um espaço especial. Em outras palavras, nós sempre vimos na Igreja Anglicana mais elementos católicos que na Igreja Reformada ou Luterana, ou nas demais. E a Igreja Anglicana sempre se viu como Católica, e como parte da Igreja Católica.

Ora, com relação às novas prioridades que têm sido introduzidas na Igreja Anglicana, no tocante a mulheres sacerdotes e bispas e a parceria homossexual e bispos homossexuais, alguns anglicanos pensam que isso está levando a um afastamento da tradição apostólica. E esses estão realmente em uma situação complicada. Querem permanecer anglicanos, mas veem que a Igreja Anglicana está rompendo seus laços com a tradição da Igreja no mundo todo. Como o cardeal Levada disse, eles reconhecem que há aí um déficit, há alguma coisa faltando, que é a autoridade. Procuraram, então, uma autoridade e olharam para Roma. Dentro da Igreja Anglicana, as pessoas que mais foram mais afetadas por tal problema são aquelas que sempre foram próximas da Igreja Católica. Devemos levar em consideração que a Igreja Anglicana é muito ampla – embora de um modo diferente da Igreja Católica; nós temos nosso catecismo e nossas regras -, o que faz com que os anglicanos estejam de acordo em alguns aspectos essenciais, mas que haja um amplo leque de opiniões entre eles: alguns são mais protestantes, outros são mais católicos. E os que são mais católicos se encontram em um momento difícil e olharam para Roma.

Então o Pontifício Conselho para a Unidade dos Cristãos está certo de que essa decisão não afetará negativamente o diálogo ecumênico entre as Igrejas?

Definitivamente isso não ocorrerá, e vamos continuar em nível oficial todos os diálogos com a Comunhão Anglicana. Isso é muito importante.

Por que, então, o Santo Padre decidiu estabelecer uma nova estrutura canônica para os ex-anglicanos, em vez de simplesmente inseri-los nas formas já existentes?

Na minha opinião, isso se deve ao fato de muitos deles dizerem desejar se tornar católicos, mas também terem muito amor pela tradição anglicana. Um traço característico da Igreja da Inglaterra é estarem os anglicanos arraigados às próprias tradições, à linguagem, às orações, à música, às formas de culto, e talvez de maneira que nós mesmos achamos difíceis de compreender. Quero dizer que, em boa medida, é muito difícil para eles renunciarem a isso. Por isso, os que querem se tornar católicos enfrentam esta decisão dolorosa: “Se eu me tornar católico, terei que deixar para trás essa tradição que é tão importante para mim?” Então o Papa, caridosa e generosamente, deu-lhes a possibilidade de se tornarem católicos romanos podendo conservar suas tradições.

O que ficará e o que mudará para eles?

Isso ainda não foi definido. Como afirmou o Mons. di Noia, teremos de analisar. Pode-se ver que há alguma antecipação disso nos Estados Unidos, onde alguns párocos usam uma versão da liturgia anglicana tradicional, adaptada ao rito católico romano. É, portanto, uma missa católica, mas com a forma da liturgia anglicana. O cardeal Levada hoje comparou com outros ritos ocidentais, com o Ambrosiano, o Bracarense, e outros. É uma missa católica, sem dúvida, mas com uma forma histórica particular. Assim, não sabemos como será a forma, mas com certeza usará muito da linguagem da liturgia anglicana.

Será uma Igreja Católica Anglicana especial? Do mesmo modo como temos, no Catolicismo, a Igreja Greco-Católica?

Bom, em certo sentido, sim. Seria um costume anglicano, do rito anglicano na Igreja Católica. O Cardeal Levada ressaltou que as Igrejas orientais – estamos falando dos Católicos Ortodoxos – estão numa situação histórica particular. [O caso do anglicanismo] tem relação com o Ocidente e é novo, mas é integralmente católico e não está sendo um rito romano, ainda que boa parte dos católicos usem em sua maioria. Mas esse é um rito diferente do rito latino. Como acontece em Milão, Toledo e onde quer que haja um rito diferente.

Também na Igreja Anglicana existem diferenças nos ritos. Nesse caso, haveria apenas um rito ou vários?

Isso não está claro. O que o arcebispo Di Noia disse é que, segundo parece, haverá também algumas afinidades com as tradições locais. Isso presumivelmente significa que haveria alguma relação com as tradições anglicanas locais, de modo que não seria da mesma forma em todo o mundo.

Quais são as semelhanças entre a tradição anglicana e a católica?

Essas semelhanças foram exploradas durante 40 anos de diálogo entre a Comunhão Anglicana e a Igreja Católica. Descobrimos e afirmamos muitas coisas em comum. Quais semelhanças? São muitas. Em primeiro lugar, eles se consideram como parte da Igreja Católica. Têm as três formas de ministério: bispos, padres e diáconos. O que acontece em outras igrejas, como a Igreja Reformada e o calvinismo, é que eles não têm bispos. Os anglicanos e os católicos têm.

Os anglicanos mantêm uma noção de sacramento; eles reconhecem o Batismo e a Eucaristia como sacramentos. Na teologia eucarística, não se expressam da mesma forma que nós, mas estamos de acordo, em boa medida, sobre a forma de presença de Cristo. Ainda precisamos trabalhar isso melhor, mas oficialmente concordamos em boa medida sobre a Eucaristia. Eles concordam com muitas coisas sobre Maria, e têm uma extensa doutrina básica sobre a Igreja.

Por 1500 anos fomos uma mesma Igreja; nos últimos cinco séculos temos sido diferentes. Portanto, temos longa história como uma única Igreja. Assim, muitos elementos permaneceram, elementos católicos: muita espiritualidade, a forma do cerimonial, a forma do culto. De muitas maneiras o anglicanismo é similar à Igreja Católica, mas de muitas outras é diferente, tanto da católica, quanto da protestante.

Assim, como eu disse antes, eles não têm o sentido de centralizar a autoridade. Eles não têm nenhum organismo semelhante à Congregação para a Doutrina da Fé. Eles usam muita organização, mas a grande palavra para eles é “diversidade”; concordam entre si no básico, mas o essencial é ter grande quantidade de opinião dentro da diversidade. Assim, há alguns anglicanos que são muito católicos. Quando vamos a algumas igrejas anglicanas, pensamos que estamos numa igreja católica, vemos a imagem de Maria, as dos santos e velas. Em outras, pensamos estarmos em alguma igreja protestante, mais propriamente evangélica (luterana). Mas todas são anglicanas, porque a clave para o anglicanismo é ser abarcativo, incluindo um amplo leque de membros.

Os anglicanos reconhecem o Batismo e a Eucaristia, mas, e os outros sacramentos que estão presentes no Catolicismo? Os bispos e padres vão recebê-los novamente?

Sim, eles os receberão mais uma vez. Historicamente, a Igreja Católica decidiu que não reconhecemos as ordenações anglicanas, o ministério anglicano, porque depois da Reforma houve uma ruptura com a tradição. E, assim, a ligação com a linha apostólica foi perdida. Isso não quer dizer que não existam grandes semelhanças. Afirmamos também que os padres anglicanos não estão desperdiçando seu tempo; estão servindo como ministros da salvação, mas não são equivalentes ao padre católico. Não reconhecemos seu ministério sacerdotal. Desse modo, qualquer anglicano que se torne padre católico, mesmo que seja um bispo, tem de ser reordenado. Reconhecemos seu batismo como o mesmo que sempre tivemos, mas não reconhecemos seu sacerdócio. Não reconhecemos sua Eucaristia, por isso o católico não pode ir a uma eucaristia anglicana e receber a comunhão; isso não é permitido.

Será dada alguma formação para novos padres e bispos anglicanos?

Temos recebido anglicanos já por longo tempo, e particularmente após a ordenação de mulheres na Igreja da Inglaterra em 1992. Foram muitos, e tiveram de ser preparados, porque precisam, de fato, receber uma introdução cultural, bem como uma introdução teológica. A cultura da Igreja Católica é diferente da cultura da Igreja Anglicana. A Igreja da Inglaterra é uma igreja estatal. É a Igreja da rainha. Seus bispos possuem lugar garantido no Parlamento. A Igreja Católica não tem isso. Deve haver, então, uma preparação cultural, mais curta, pois eles não precisam sentar-se entre os jovens seminaristas católicos. E é uma preparação que leva em conta sua origem, o que fizeram e quais as suas necessidades. É necessário um período de preparação conveniente, já que desejam ser ordenados padres católicos. Não há nada de automático isso. Pode haver uma expectativa e esperança, mas pediríamos a todos os clérigos anglicanos que desejam ser católicos que se submetam tanto à formação quanto ao aprendizado conveniente sobre a Igreja Católica, e que possamos aprender a respeito deles.

Foi provavelmente uma surpresa, para muitas pessoas pertencentes à tradição católica ocidental, saber que o padre anglicano casado poderá permanecer casado e se tornar um padre católico.

Essa possibilidade foi claramente afirmada hoje de manhã. Trata-se de uma dispensa particular para um caso especial. Não afeta a norma regular do celibato. As pessoas hão de ver, e já viram, que há certo número de clérigos casados na Inglaterra, mas isso não mudará a norma oficial da Igreja Católica no tocante ao celibato. Nesse caso há uma dispensa particular para aqueles que estão entrando para a Igreja. A geração futura terá de ser celibatária.

O que acontecerá com bispos anglicanos casados que desejam entrar para a Igreja Católica?

Eles podem ser padres, mas não podem ser bispos. Foi deixado muito claro, hoje, que não teremos nenhum bispo casado. É contra a tradição da Igreja Católica e da Igreja Ortodoxa.

Qual é a presença dos anglicanos na América do Sul?

A Comunhão Anglicana é agora universal. Começou como inglesa e se espalhou pelo mundo com o Império Britânico. Mas também cresceu segundo a natureza do mundo de hoje. Existem anglicanos de língua espanhola e de língua francesa, que não são nem culturalmente, nem mesmo linguisticamente ingleses. Na América do Sul, o anglicanismo começou servindo a por grupos de ingleses ou americanos que viviam ali, mas adquiriu raízes locais e se tornou inculturado. Essa é uma parte do quadro. A América Latina tem boas relações ecumênicas com a Igreja Anglicana, e quando mantemos diálogo ecumênico com a Comunhão Anglicana, aparecem frequentemente bispos e teólogos dessa parte do mundo.

E sobre o idioma? A princípio tudo seria em inglês?

Depende do lugar. Se houver algum anglicano espanhol, na América do Sul, por exemplo, que solicitar, será providenciada uma solução local numa forma em espanhol. Mas eu acho que será usado sobretudo o inglês, já que é a principal língua da Comunhão Anglicana.

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