Possível instalação de armamento nuclear constitui uma ameaça à paz e à integração regional

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Movimentos colombianos exigem retirada de tropas militares dos EUA do seu país.

 Por Fernando Arellano Ortiz – Adital – 20/04/2015

Polo Democrático

Ainda que o governo neoliberal de Juan Manuel Santos enaltece no âmbito interno de impulsionar um processo de paz com a insurgência das Farc [Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia], sua política internacional (ditada a partir de Washington), em contraposição, aponta para desestabilizar a harmonia e a integração regional.

Assim deixa entrever durante sua exposição magistral, recentemente, em Bogotá, o sociólogo e cientista político argentino, Atilio Boron, no marco da Cúpula Mundial de Arte e Cultura para a Paz, organizada pela Prefeitura da capital colombiana.

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O cientista político Atilio Boron afirma que é um contrassenso que a Colômbia continue impulsionando a Aliança do Pacífico com os Estados Unidos.

Por um lado, Borón diz que é um contrassenso que, enquanto a irrupção da China na geopolítica mundial está deslocando o protagonismo do Atlântico para o continente asiático, a Colômbia se empenha obstinadamente em impulsionar a Aliança do Pacífico, uma invenção de Washington para se contrapor à presença cada vez maior de Pequim na América Latina e atingir o processo integracionista da Pátria Grande.

De outra parte, acrescenta, o fato de que o governo de Santos, de forma por demais disciplinada, tenha aceitado as diretrizes do Pentágono para que a Colômbia ingresse na Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e ao mesmo tempo existam sérios indícios de que o Comando Sul tenha instalado armamento nuclear neste país andino, dá um claro sinal de ameaça para a paz da região.

O analista argentino dá ênfase em assinalar que a Otan [Organização do Tratado do Atlântico Norte] não é mais do que “a força imperial de choque”, a partir da qual Washington lança sua estratégia de ofensiva militar a diversos países ou regiões do mundo, aos quais determina ou considera que constituem ameaças para seus interesses. Em consequência, destaca, o ingresso da Colômbia nessa aliança militar extracontinental não aporta, em absoluto, a paz.

Conflito colombiano é pretexto para militarização dos Estados Unidos

Durante a sua conferência no Teatro Bogotá, Borón, com sua característica capacidade dialética e didática, por sua vez, mostrou como, na Colômbia, se leva a cabo um processo de paz com um ator armado como as Farc, em meio a um mundo convulsionado por múltiplos conflitos, originados, em boa medida, do declínio do imperialismo estadunidense.

“A paz na Colômbia é a paz de toda a América Latina”, foi o título da intervenção do reputado analista político e catedrático universitário, atualmente diretor do Programa Latino-Americano de Educação à Distância (Pled), do Centro Cultural da Cooperação de Buenos Aires.

No desenvolvimento de sua exposição, Borón demonstrou o rotundo fracasso da intervenção direta dos Estados Unidos em matéria de combate ao narcotráfico e à insurgência na Colômbia, já há várias décadas. Trouxe o exemplo do denominado Plano Colômbia, subscrito pelo então mandatário conservador Andrés Pastrana com a administração Clinton (toda uma estratégia de entrega da soberania a Washington).

Tal Plano, que aos colombianos foi vendido como uma “ajuda” estadunidense, resultou um completo fiasco, pois, como demonstrou Borón com cifras tomadas de informes das Nações Unidas, o narcotráfico, ao invés de diminuir, aumentou. Em efeito, houve um incremento exponencial de cultivos ilícitos tanto no México, Colômbia e Afeganistão, países onde, coincidentemente, os Estados Unidos intervêm diretamente.

Ademais, a intervenção direta do Pentágono, a CIA, a DEA e o Departamento de Estado nos assuntos colombianos tem servido para o enriquecimento de empresas de armamento estadunidense e ao mesmo tempo para o financiamento de campanhas de congressistas estadunidenses (que fazem lobby em favor dos consórcios que se beneficiam), assim como para a presença de Israel.

É que da guerra interna na Colômbia não somente se favorece em grau superlativo os Estados Unidos, mas também Israel, como bem anotou Borón. Desde 1960, o Mossad (serviço de inteligência) e organizações de espionagem israelitas que operam sob a fachada de segurança estão presentes em território colombiano, assessorando grupos paramilitares e redes mafiosas do narcotráfico.

Juan Manuel Santos, tanto como ministro da Defesa como, agora, na qualidade de primeiro mandatário acolhe e aplaude a presença israelense na Colômbia porque, como assinalou em reiteradas ocasiões, seria “muito positivo” que este país “seja a Israel da América do Sul”.

Por todo o anterior, Borón disse que oxalá as negociações de paz que se desenvolvem em Havana entre o governo de Santos e as Farc cheguem a bom porto porque o conflito colombiano é o melhor pretexto para a militarização dos Estados Unidos na região.

A conjuntura da realidade sociopolítica colombiana em meio a possibilidades certas de por fim a um conflito interno de mais de meio século passa pelo declínio do império estadunidense, do colapso europeu e da irrupção, em consequência, de novos atores na cena da geopolítica mundial.O contexto geopolítico

Borón põe de manifesto no atual cenário mundial o protagonismo da China e Índia, o retorno da Rússia, a quebra da União Europeia, as alianças regionais e a decadência do imperialismo estadunidense, fatores todos estes que terão uma incidência direta no futuro político da América Latina.

É enfático ao chamar a atenção sobre o perigo que se abate sobre o mundo e, especificamente, sobre a região, o declínio de Washington, pois sustenta que na fase de decomposição os impérios se tornam mais repressivos e sanguinários e traz exemplos históricos, como a etapa final do império otomano com o genocídio armênio (em 1915), ou o caso britânico com a brutal repressão na Índia.

No plano econômico, o cientista político argentino demonstra como os Estados Unidos se encontram sem saída:

  • por um lado, deve mais do que produz;
  • por outro, é cada vez mais progressiva a substituição do dólar no comércio internacional.
  • E, para complementar, fornece um dado a mais: enquanto, neste ano de 2015, a China construirá 15 mil quilômetros de vias férreas, em contraste, a nação estadunidense não construirá nem uma só, com o qual sua infraestrutura viária começa a ficar obsoleta.
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Juan Manuel Santos, presidente da Colômbia, e Barack Obama, dos EUA, mantêm parceria geopolítica.

 

A isso é preciso somar, diz Borón, a crescente desigualdade que se vem apresentando nos Estados Unidos, com sua consequente quebra a respeito da sua integração social. Não obstante, é exorbitante seu gasto militar, assim como é evidente também seu cada vez maior isolamento internacional, o qual fica refletido, por exemplo, nas últimas derrotas que teve que engolir a Casa Branca, precisamente, em sua principal zona de influência, a América Latina.

Em efeito, primeiro, teve que aguentar que dois países latino-americanos, como Equador e Bolívia, pusessem um freio à sua atitude eterna de ingerência em assuntos internos.

  • O presidente equatoriano, Rafael Correa, fechou a base militar de Manta;
  • e o mandatário boliviano, Evo Morales, expulsou a missão diplomática estadunidense.
  • Mais recentemente, na OEA (o Ministério das Colônias, como a denominou Fidel Castro), o governo de Obama perdeu de goleada quando propôs sua intervenção na Venezuela.

Estes acontecimentos, acrescenta Borón, eram impensáveis há apenas alguns anos.

 

EUA lançam feroz reconquista da América Latina para assegurar recursos naturais

Em meio ao contínuo desmoronamento do império estadunidense, Washington não se contém em seu propósito ingerencista na América Latina porque é a maneira de assegurar mediante artimanhas e enganos (tratados de livre comércio, golpes brandos, Aliança para o Pacífico, terrorismo econômico, alianças militares), o acesso (via saque e a pilhagem) à rica biodiversidade que produz essa região, para poder continuar mantendo seu descomunal padrão capitalista de consumo.

Por essa razão, Washington espalha sua artilharia militar em todo o continente, como bem esboça Borón em seu magistral livro, “América Latina na geopolítica do imperialismo”, que ganhou o Prêmio Libertador do Pensamento Crítico, em 2013.

Os Estados Unidos, explica esse reputado analista internacional, instala sua estrutura militar na América Latina, tanto na Colômbia como em Honduras, para lançar suas aventuras. O mar do Caribe está totalmente controlado militarmente pelo Pentágono, que ademais conta com cerca de 80 bases ao longo do hemisfério.

Não é gratuito tampouco que, em 2008, o Comando Sul tenha ativado a IV Frota, coincidentemente pouco depois de que o então governo brasileiro de Lula da Silva anunciasse a descoberta de uma grande jazida petrolífera submarina no litoral paulista.

Obviamente, que os pretextos para essa descomunal militarização dos Estados Unidos ao longo do continente são

  • o narcotráfico,
  • os populismos (como estigmatizam os governos progressistas da região),
  • as calamidades naturais
  • e a segurança continental.

Falácias que ajudam a propalar os grandes oligopólios midiáticos de propriedade dos setores decadentes da ultradireita latino-americana. Por isso Borón exorta a não se confundir: “o nome de tudo isso é petróleo”, e dessa maneira explica porque toda a estratégia de desestabilização e satanização contra o Governo da Venezuela, do presidente Nicolás Maduro.

Se a Venezuela fosse produtora de tomates ou de batatas, os Estados Unidos buscariam derrubar o Governo Bolivariano da Venezuela com a ativa colaboração dos seus lacaios da direita latino-americana?, interroga o cientista político argentino. Não é gratuito, portanto, o feroz ataque empreendido pela Casa Branca contra o processo político inaugurado pelo comandante Hugo Chávez.

Borón concluiu sua conferência em Bogotá, deixando uma inquietante interrogação:Os EUA têm armamento nuclear na Colômbia?

“A Colômbia bem poderia ser hoje um país no qual os Estados Unidos instalaram armamento nuclear, em aberta violação ao acordo internacional regional, mediante o qual nossos países se comprometeram a manter a América Latina como uma nuclearizada zona de paz”.

Se bem, acrescenta, o tratado subscrito entre Uribe Vélez e Obama, que autorizava a utilização de sete bases militares, foi declarado inexequível pela Corte Constitucional da Colômbia, “o certo é que este tropeço legal não impediu que os Estados Unidos tenham prosseguido operando militarmente nesse país”.

Fernando Arellano Ortiz  

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