Padres denunciam silêncio e omissão da Igreja na Argentina

Os padres criticaram a Comissão de Justiça e Paz e os bispos em geral por seu silêncio diante das recentes condenações judiciais dos assassinos dos colaboradores do bispo Angelelli. Manifestaram que havia “dúvidas” sobre as últimas posições.

A reportagem é de Washington Uranga e publicada no jornal argentino Página/12, 25-03-2015. A tradução é de André Langer.

O Grupo de Padres na Opção pelos Pobres, uma associação de padres católicos, emitiu um documento “de cara com um novo aniversário da ditadura cívico-eclesiástico-militar” no qual faz uma dura crítica à Comissão de Justiça e Paz do Episcopado e aos próprios bispos pelo silêncio diante das recentes condenações da Justiça dos culpados pelo assassinato de padres colaboradores do bispo Enrique Angelelli em La Rioja e colocam em dúvida as intenções de recentes declarações oficiais da Igreja sobre temas relacionados aos direitos humanos.

Os padres, que expressaram sua posição depois que os bispos fizeram, no ano passado, um apelo a toda a populaçãopara que colaborasse com informações que pudessem levar a desaparecidos e crianças apropriadas, pediram naquele momento uma “participação oficial e clara” da Igreja nos “atos públicos de memória do 24 de março” e colocaram como necessária “a criação de um departamento, comissão ou escritório dependente da Conferência dos Bispos da Argentinadedicada – sem ingerências confusas – aos direitos humanos, (o que) pode ser um bom indício de mudança de atitude”.

Mas advertiram então que “se deveria evitar cair na tibieza da Comissão Justiça e Paz, que não somente não levantou a voz diante da ditadura, mas que – além disso – saiu imediatamente em sua defesa diante de qualquer possível confusão de nome com o Serpaj, quando Adolfo Pérez Esquivel foi eleito Prêmio Nobel da Paz”.

Agora, adverte o grupo coordenado pelo Pe. Eduardo de la Serna, “nos encontramos com a situação em que essa mesma Comissão Justiça e Paz convoca uma duvidosa marcha (dia 18 de fevereiro) em homenagem (homenagem por quê?) ou reivindicação (reivindicação de quê?) diante da morte do promotor federal Alberto Nisman, mas mantém seu silêncio diante da convocação para os atos de Memória, Verdade e Justiça na comemoração do golpe genocida de 24 de março de 1976”.

Na sequência, os padres católicos recordam que “esta semana o repressor Angel Ricardo Pezzeta foi condenado à prisão perpétua pelo sequestro, tortura e o homicídio dos padres Carlos de Dios Murias e Gabriel Longueville, conhecidos como Mártires de Chamical e discípulos do bispo Enrique Angelelli”.

Em tom crítico, eles acreditam que “nem os bispos nem a Comissão Justiça e Paz parecem ter-se inteirado” disso. E refletem: “Será que temos que acreditar que estão interessados no esclarecimento dos crimes da ditadura? Estão realmente preocupados em que se faça justiça aos nossos irmãos na fé torturados, desaparecidos ou assassinados?”

Diante desta atitude, os padres afirmam que “repudiamos seu silêncio e não nos sentimos nem representados nem mencionados, nem acreditamos que a referida comissão esteja verdadeiramente interessada nem na ‘Justiça’ nem na ‘Paz’”.

Ao assinalar que eles, sim, se sentem convocados para os “atos comemorativos pela história e a memória”, reafirmam que, “em nome da justiça e da paz” expressam seu repúdio à “atitude cúmplice de uma ‘justiça ilegítima’ na investigação sobre as responsabilidades civis nos crimes da ditadura”.

Repudiam também “a rapidez nas causas amigas e a lentidão nas causas incômodas e – especialmente – a falta de transparência do Poder Judiciário”.

O breve documento do Grupo de Padres na Opção pelos Pobres acrescenta que “fazemos Memória porque queremos Verdade e Justiça para que haja uma paz duradoura”, diz que “renovamos o nosso afeto e proximidade sincera para com os familiares dos desaparecidos e as vítimas sobreviventes” e finaliza dizendo que “com todos eles repetimos uma vez mais o nosso clamor: Nunca mais!”

 

 

Washington Uranga

 

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